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‘Ouvido biônico’ chega à rede privada de Bauru

Bruna Dias
| Tempo de leitura: 4 min

Tão importante quanto ver e sentir é escutar. Com o objetivo de aumentar a abrangência de atendimento a pacientes que sofrem de surdez e têm condições financeiras para serem tratados pela rede privada - como alternativa à espera mais longa em relação ao Sistema Único de Saúde (SUS) -, o Hospital Beneficência Portuguesa de Bauru, em parceria com o cirurgião otologista Domingos Lamônica Neto, realizou anteontem o primeiro implante coclear particular na unidade. O paciente, de 70 anos, reside no Paraná.

De acordo com Raul Gomes de Paula, diretor do hospital, a ideia da parceria partiu de Lamônica, que também faz parte do Centro de Pesquisas Audiológicas da Universidade de São Paulo de Bauru (CPA-USP) e realiza esse tipo de implante em pacientes do SUS na unidade do Centrinho há 20 anos.

“Ele sentiu a necessidade de estender para o plano particular e abranger ainda mais os possíveis beneficiados. Quem tem poder aquisitivo para realizar essa cirurgia tinha que ir para cidades da região”, justifica Gomes.

Lamônica frisa que a ideia é também aumentar o público que pode receber o “ouvido biônico” unilateral, como por exemplo os que têm mais de 60 anos e já não fazem parte do maior quadro de receptores do Centrinho.

“Lá são priorizados os que nunca ouviram ou os que têm menos idade, entretanto, existem as exceções. Hoje nós vemos pessoas de 70 anos, como esse meu paciente, que são totalmente ativas e ficam sem rumo quando perdem a audição. Se ele tem todas as condições de receber o transplante, por que não fazer?”, questiona Lamônica.

O otologista ainda ressalta que o paciente que volta a ouvir retorna também para o seu convívio social. “O paciente que perde a audição se torna um problema para a família e amigos. Eu digo que perder a audição é como perder a visão, principalmente nos casos de surdez súbita. Se ele volta a ouvir, mesmo que o som seja um pouco ‘metalizado’, volta ao convívio familiar e social com uma melhora muito grande na sua auto-estima”.

O paciente de Lamônica que recebeu o “ouvido biônico” unilateral sofria de surdez devido a uma otoesclerose, patologia que causa enrijecimento da cóclea, mais conhecida como ouvido interno. Ele terá que esperar de 30 a 40 dias para o implante interno se estabilizar e a cirurgia cicatrizar par, então, acoplar a parte externa e voltar a ouvir.

“Mas não é tão simples assim. O paciente terá que fazer um rígido acompanhamento com uma fonoaudióloga porque o som que ele vai escutar é um pouco diferenciado. A adaptação para uma pessoa que já chegou a escutar é mais demorada”, explica Lamônica.

Investimento

O diretor Gomes afirma que para realizar a primeira cirurgia particular de implante coclear o Hospital Beneficência Portuguesa de Bauru investiu US$ 100 mil na compra de aparelhos especializados e cerca de R$ 60 mil em material cirúrgico. O projeto para um “futuro próximo” é a criação de uma Unidade de Implante Coclear dentro do hospital para esses pacientes.

“Não temos ainda uma previsão porque estamos estudando o local que vai ser adaptado dentro do hospital, mas a unidade é um projeto firmado para um futuro próximo”, salienta o diretor.

O otologista revela que em outros países já estão estudando em pacientes a prótese totalmente implantável. “A maior dificuldade é o microfone, porque se ele ficar debaixo da pele, pode captar sons do próprio corpo”, explica Lamônica. A bateria utilizada nesse novo implante é feita de lítio, dura sete anos e é trocada somente com anestesia local.

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Saiba mais sobre implante coclear

O implante coclear unilateral é indicado em casos de surdez bilateral (dos dois lados) de severa a profunda. Hoje, com o avanço da tecnologia, se constatada a surdez em bebês de até 3 meses de idade, quando ele completar de 6 a 9 meses e atingir o peso exigido de 9 a 10 quilos, já pode receber o implante. Para os adultos indicados ao procedimento não existem restrições. Basta realizar todos os exames corretamente e ter boa saúde.

A cirurgia tem início com uma incisão atrás da orelha de 3 e 4 centímetros e dura de duas a três horas. Não é feito nada no interior do pavilhão auditivo e do ouvido. Dentro da incisão é instalado um receptor interno feito de silicone, platina e titânio com um cabo de eletrodos que é ligado na cóclea.

Passados de 30 a 40 dias, o paciente está pronto para receber a parte externa do implante, que consiste em um processador retroauricular com um microfone que capta o som ambiente. Para poder ouvir, é necessário instalar um software no aparelho e, em seguida, acoplá-lo corretamente. As duas partes se unem através de um ímã.

O processador de som externo capta o som e converte em sinais digitais que são enviados ao implante interno. Em seguida, esses sinais são convertidos em energia elétrica que é transmitida a um conjunto de eletrodos instalado dentro da cóclea. Estes estimulam o nervo auditivo e o cérebro detecta os sinais, reconhecendo como audição.

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