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Cristo Rei: paraíso do mosquito palha

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

O Cemitério Público Cristo Rei é o paraíso para o mosquito palha. Pelo menos até a semana passada, quando a reportagem o visitou, o local dispunha de farto material em decomposição, condição ideal para a reprodução do transmissor da leishmaniose visceral humana. Coincidência ou não, um dos primeiros casos da doença foi registrado justamente num bairro próximo, em 2003.

O último óbito provocado em virtude da contaminação com o protozoário ocorreu em outubro do ano passado. Na ocasião, sucumbiu um morador de 63 anos do Parque Jaraguá. Apesar da proximidade, os vizinhos do cemitério parecem não se preocupar com o risco de contraírem leishmaniose. Se a situação do espaço onde os túmulos estão dispostos é ruim, as imediações são piores ainda.

No cruzamento das ruas Nélson Tosoni Decarlis com Domingos Oliva, enxergar a rua de terra não é tarefa fácil. Todo tipo de entulho e lixo das mais diversas naturezas cobrem o solo. “A gente tem medo da doença, mas não pode falar nada porque é o pessoal da rua que coloca. Para não arrumar confusão, ficamos quietos”, comentou a moradora Francisca Luiza Macedo Pires. Ela teme pela saúde de sua filha de 10 anos, Beatriz.

O problema preocupa também usuários do cemitério. Um deles, que preferiu não se identificar, fez fotos do entulho deixado no entorno do Cruzeiro, local destinado às velas acesas em intenção às almas de pessoas enterradas no cemitério. Junto à cruz também é possível encontrar alimentos em decomposição, como pães e refeições completas. “Talvez sejam utilizados para celebrações de algumas crenças religiosas, mas depois os funcionários deveriam limpar”, diz o usuário.

Limpeza

Por serem compreendidos como despacho, é possível que trabalhadores do local não os retirem em sinal de respeito. A possibilidade foi confirmada pelo gerente de necrópoles e funerária da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), Claudemir Redondo de Magalhães, que assumiu recentemente. No entanto, na semana passada, ele solicitou a limpeza no cemitério.

“Já vi dez funcionários e ninguém faz nada? Os túmulos estão abandonados e a cerca elétrica instalada no início do ano já está destruída. É dinheiro público, dinheiro nosso. Tem ainda um local onde jogam caixões. Ficam ao ar livre. Deve ter restos mortais”, comentou o usuário. Mas a possibilidade de restos humanos terem recebido esse tratamento foi descartada por Magalhães.

“Não ocorre em hipótese nenhuma. É tudo separado. Só tem restos de caixões”, garante. O material fica acondicionado num ponto do cemitério porque é recolhido apenas uma vez por semana por caminhões do Departamento de Limpeza Pública. O novo gerente de necrópoles preparou um comunicado dirigido aos empreiteiros que trabalham no cemitério solicitando que retirem restos de obras. Ele garante que a fiscalização e o trabalho de limpeza serão intensificados.

No entanto, também pede a colaboração da população que frequenta o cemitério e mora imediações para não descartar lixo inadequadamente. Se não for ouvido, é possível que outras pessoas da zona Noroeste sejam vítimas do mosquito palha contaminado. No ano passado, quatro pessoas da região contraíram a doença. Representam quase 20% do total de 21 casos registrados na cidade, conforme levantamento do JC.

A reportagem solicitou à assessoria de imprensa da prefeitura dados sobre a origem dos casos por bairro e as medidas eventualmente a tomadas para reverter a situação, mas não obteve resposta.

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