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Morador de rua tem perfil heterogêneo

Bruno Bocchini e Vinicius Konchinski
| Tempo de leitura: 4 min

São Paulo - Pessoas com transtornos mentais, abandonados pela família, imigrantes, desempregados, dependentes químicos, ex-presidiários e até trabalhadores. Esses são alguns dos diversos perfis das pessoas que se utilizam da rua como abrigo ou moradia. Apesar de serem vistos como um grupo homogêneo, os “moradores de rua” são pessoas de realidades variadas. Até mesmo a pobreza, que comumente é associada ao grupo, não está presente em todos os casos.

“Ainda não se parou para pensar nessa heterogeneidade. O que a gente sabe é que existem pessoas que têm condição de ter uma casa, um trabalho, mas não conseguem.” afirma Atila Pinheiro, coordenador do Movimento Nacional População em Situação de Rua.

Uma das poucas pesquisas existentes sobre essa população foi realizada em 2007 pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome. O levantamento constatou que os principais motivos que levam as pessoas a viver e morar na rua estão relacionados a problemas de alcoolismo ou drogas (35,5%), de desemprego (29,8%) e de desavenças com parentes (29,1%). Dos entrevistados, 71,3% citaram pelo menos um desses três motivos

Alderon Pereira da Costa, membro do Comitê Interministerial de Políticas Públicas para População em Situação de Rua, ressalta que as políticas de combate ao problema precisam respeitar a realidade de cada um dos perfis dos moradores de rua. Desempregados, por exemplo, precisam de um auxílio diferente do que os dependentes químicos.

“Nós temos que ter políticas públicas diversificadas para a população de rua”, disse. “Temos que trabalhar todas as linhas integralmente. Tem uma população que está na rua que não tem outro problema senão a falta de moradia.”

A pesquisa do ministério mostra ainda que grande parte dos entrevistados apresentou histórico de internação em instituições: 28,1% afirmaram já ter passado por casa de recuperação de dependentes químicos; 27% já estiveram em algum abrigo; 17% admitiram já ter passado por alguma casa de detenção; 16,7% afirmaram já ter passado por hospital psiquiátrico; 15% estiveram em orfanato; 12,2%, na Febem ou instituição equivalente.

Segundo a pesquisa, 45,8% dos entrevistados sempre viveram no município em que moram atualmente. Dos restantes (54,2% do total), 56% vieram de municípios do mesmo estado de moradia atual e 72% de áreas urbanas. De acordo com o estudo, isso significa que uma parte considerável da população em situação de rua é de origem local, ou de regiões próximas, sem ter migrado do campo para a cidade.

“O perfil do morador de rua mudou muito. Até anos atrás, chegava gente de Minas Gerais, do Rio Grande do Sul, da Bahia, de Pernambuco, todo mundo em busca de emprego. Hoje em dia, o morador de rua não tem qualificação para conseguir um emprego”, disse Robson César Correia de Mendonça, presidente do Movimento Estadual da População em Situação de Rua em São Paulo.

Indiferença abala sanidade e ainda compromete recuperação da maioria

A indiferença das pessoas para com o morador de rua, em alguns casos, como o de Robson César Mendonça, deixa-o triste e desesperançado. “É triste você estar na calçada, as vezes nem pedindo uma esmola, e ver que uma pessoa atravessa a rua só para não ter que olhar para você”, afirmou.

Mendonça morou três anos em albergues da prefeitura e mais três nas ruas de São Paulo. Conhece bem o que a indiferença da população acarreta no comportamento do sem-teto. “Isso faz com que você procure uma fuga da realidade. E isso, muitas vezes é o álcool ou a droga.”

Hoje, ele é presidente do Movimento Estadual da População em Situação de Rua em São Paulo. Combativo, cobra com fervor mudanças em políticas públicas voltadas para o morador de rua. Exige também mudanças na forma como a sociedade trata as pessoas que ela “finge não ver” sentadas em esquinas da cidade ou dormindo em praças. “Muitas vezes o morador de rua só quer conversar. Precisa só de uma palavra amiga”, disse.

“A gente pede respostas e as pessoas não dão”, complementa Atila Pinheiro, pessoa em situação de rua e coordenador-geral do movimento nacional dessa população. Pinheiro foi dependente químico e admite que a indiferença da sociedade empurra ainda mais as pessoas que vivem na rua ao vício. “Você entra em paranoia. Ninguém te vê e você sai andando pela rua, cria uma rotina infinita, perde a sanidade mental.”

Sem sanidade, o problema do morador de rua se agrava. Além de um emprego, de moradia, ele passa a precisar também de um tratamento especializado para dependentes químicos a fim de deixar a rua. Este tratamento, segundo ele, é falho, tornando a recuperação quase impossível.

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