A discussão sobre a aplicação do Toque de Recolher para menores de idade em nossa cidade tem gerado tantas opiniões contrárias e favoráveis sobre o assunto, por isso resolvi também dar a minha. Meu pai, já falecido, nasceu nesta cidade em 1908 e, como funcionário da Noroeste do Brasil, se levantava muito cedo para ir ao trabalho. Eu me lembro muito bem do que ele, na sua simplicidade, me dizia quando eu, menor, queria sair à noite: “Você tem até as 22h para voltar, pois se chegar mais tarde vai dormir na área porque eu não vou ficar acordado até de madrugada esperando para abrir a porta”.
Eu achava esse horário muito cedo porque havia as “brincadeiras dançantes” nos finais de semana que sempre terminavam além desse horário, então, apelava pela intercessão minha mãe para chegar mais tarde. Não tinha acordo, a hora era aquela, quisesse ou não. Ele dizia: “Meu pai me educou dessa maneira, você será do mesmo jeito, quando você tiver sua casa e seus filhos, faça como quiser.”
Estávamos em plena ditadura militar, mas nem por isso eu deixava de sair à noite. Era só portar documento de identidade que não havia problema algum, mas o horário imposto pelo meu pai tinha que ser respeitado. Nessa época também havia drogas nas ruas, lógico que em proporções bem menores que hoje, mas quem quisesse era só procurar que encontrava. Essa atitude de meu pai em nada me prejudicou, ao contrário, vejo hoje que ele visou apenas preservar-me, enquanto jovem e inexperiente. A educação, o comportamento social de cada criança ou jovem é de responsabilidade única dos pais.
Cabe a nós, como pais, ensinar e exigir de nossos filhos a educação social, a conduta, a postura correta em obediência às leis do convívio social. Não se pode transferir de modo algum essa responsabilidade. Ao Estado, cabe o dever da educação escolar, saneamento básico, transporte, saúde, segurança pública, rodovias em bom estado, moradias e outras prioridades. Alegações que o referido toque de recolher impedirá o direito de ir e vir, ou que deveria o Estado proporcionar locais e opções de lazer ao jovem, seja carente ou não, ou àquele trabalhador que não tem onde se divertir a noite, são inaceitáveis, ou seja, não tem nada a ver com o assunto. O que se discute é o horário que o menor deverá estar na proteção de sua casa, ou seja, até 23hs; após essa hora já é madrugada, e o dia se prepara para amanhecer.
Se vivemos aprisionados em nossas casas cercadas de arame farpado, câmeras de vídeo grades, cercas elétricas, alarmes, guarda noturno, guaritas de segurança etc é porque o índice de criminalidade está muito alto e as ruas estão inseguras. Basta ler jornal ou ver televisão: tráfico de drogas, roubo, seqüestro, estupro, homicídios e outros crimes são ocorrências diárias e em números crescentes, e é impossível colocar um policial em cada esquina para coibi-las. A polícia trabalha com o que dispõe. Cabe a nós como sociedade tomarmos atitudes. Então, se você é tipo muito liberal e educa os filhos conforme a moderna psicologia e que fica de madrugada rezando e ligando para o celular para saber onde estão; ou daqueles que não estão nem aí com os filhos achando que já são donos de seu nariz; seja contra o toque de recolher.
Agora, se você for uma pessoa preocupada com a proteção, o bem-estar, a integridade moral e física de seus filhos, seja a favor do toque de recolher, mesmo que eles fiquem de nariz torcido e discutam com você. Lembre-se, logo serão maiores de idade e aí vai valer o que lhes foi ensinado e exigido. Um ditado antigo: “Não existe coisa pior no mundo do que cuidar dos filhos dos outros”
Roberto J. Savi