Estão no interior capitais como Brasília, como Washington D.C (EUA), Canberra (Austrália) e na Holanda a capital é Amsterdã, mas a sede do governo está em Haia. No Brasil, a discussão da capital ir para o Interior – abandonando o Rio de Janeiro – já ocorria no Século XIX. Em 1813, o jornalista Hipólito José da Costa iniciou sucessivos artigos no jornal Correio Brasiliense sugerindo a inte-riorização da capital do Brasil. O mineiro José Bonifácio de Andrada e Silva, já em 1821, redigiu propostas de aditamentos da 1ª Constituição do Império na qual se propunha que a capital se chamasse “Brasília” (Terra do Brasil) e fosse construída no Interior do país, entre as nascentes dos grandes rios Amazonas e Paraguai. Em 1852, o parlamentar Visconde de Porto Seguro (o historiador Francisco Adolfo de Varnhagen) promoveu uma expedição na qual identificou o local da futura capital do Brasil no Interior do país, entre nascentes de afluentes do Amazonas, São Francisco e rio da Prata (rios Paraguai e Paraná). No Artigo 3º da primeira Constituição da República, de 1891, se estabeleceu que a República deveria reservar uma área e promover a construção da capital do Brasil no Interior do país. Este artigo 3º estabelecia claramente: “Fica pertencente à União, no Planalto Central da República, uma zona de 14.000 km², que será oportunamente demarcada, para nela estabelecer-se a futura Capital Federal”. No governo do marechal Floriano Peixoto, em 1892, foi criada a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil e foi constituída uma missão exploratória, sob a chefia do geógrafo Luís Cruls, a qual apresentou relatório detalhado da mesma zona indicada por Varnhagen, uma área retangular de 14.000 km2, conhecida co-mo Retângulo Cruls. Ocorreram históricos debates sobre este tema nas primeiras décadas do século XX e o famoso advogado Ruy Barbosa se posicionava contrário a esta pretensão de interiorização da capital do Brasil. Na Constituição de 1934 o Legislativo estabeleceu dentro da disposições transitórias a seguinte ordem, no artigo 4º: Art 4º - Será transferida a Capital da União para um ponto central do Brasil. E na Constituição de 1946 a mesma idéia se repetiu também por conta do Atos das disposições Constitucionais Transitórias, cujo art. 4º determinava: - A Capital da União será transferida para o planalto central do País. E dali a poucos anos o médico mineiro Juscelino Kubistchesk, eleito presidente da República em 1955, estabelece como prioridade em seu governo a construção de Brasília, transferindo a capital política do Brasil para o Interior do país. Há 50 anos atrás levar a capital para o Interior parecia loucura, insanidade, desperdício. Porém, em 50 anos Brasília aprimorou o Brasil, o qual deixou de ser só litoral, ocupou seu Interior, descobriu, criou, construiu, implantou riquezas, trabalho, cidades. Esta interiorização da capital criou bases para garantir a defesa e soberania nacional, para tornar o Brasil a potencia agrícola que é hoje. A interiorização da capital do Brasil é compreendida com uma das mais importantes ações para a construção desse gigante forte, viçoso, no qual vivemos. Com Brasília, com a interiorização também ocorreu a industrialização, o êxodo rural, a urbanização e o inchaço urbano. E em São Paulo? Na década de 50, a população do município de São Paulo saltou de 2 milhões para 3,5 milhões, ou seja, impulsionado pela industrialização a cidade inchou, cresceu em 10 anos quase tudo que cresceu nos 400 anos desde sua fundação, em 25 de janeiro de 1554. Desde então a cidade de São Paulo se tornou cada vez mais poderosa, industrializada, inchada, cheia de favelas, de oportunidades e conflitos. Ela é a capital econômica do Brasil. São Paulo é muitíssimo poderosa. Diziam que “São Paulo não pode parar”, mas a cidade JÁ PAROU, já inchou, já ficou intransitável, cheia de engarrafamentos, cheia de inundações, crises sistêmicas. Por isso há que se fomentar o debate: por que manter o poder político de São Paulo na Capital, se a qualidade de vida, metade da população e do consumo estão no Interior do Estado? O quanto o Interior será beneficiado com essa mudança? Com a interi-orização da capital virão investimentos, oportunidades, empregos, atenção e contato. A cidade de São Paulo continuará sendo a capital econômica do Estado e do País, mas para iniciarmos um processo sério de planejamento regional paulista, considerando o enorme desenvolvimento de seu Interior, temos que também discutir a geopolítica territorial, avaliando custos e benefícios desta possibilidade. Quantos negócios, oportunidades e empregos esta discussão poderá produzir? O que queremos para capital política de nosso Estado em 20, 30 e 50 anos? O que queremos de desenvolvimento sócio-econômico e ambiental para nosso Interior nos próximos 30 anos? Quem veio para Bauru em 1980 e olha esta cidade hoje se assusta com seu crescimento. E o que queremos para os próximos 30 anos, aqui e em São Paulo? Minha proposta é fomentar o debate, o problema da capital e a solução no Interior. Este debate pode durar muitos anos, mas como no caso de Brasília, ele vai frutificar em todo Estado de São Paulo.
O autor, Kláudio Cóffani Nunes, é geógrafo, advogado e ambientalista - OAB 165.885