Foi na Copa do Mundo em 1950, no Estádio Maracanã, Rio de Janeiro, que a seleção de futebol do Brasil, na decisão do título, capitulou perante o Uruguai: 2 a 1 para os orientais foi o resultado final. Nesse dia o País silenciou.
Eu, nos meus 10 anos de idade, testemunhei a tristeza que assomou em meu tio João, ao lado de outro tio, Tite (sapateiro na Vila Falcão), quando engoliram a seco a derrota sofrida. O rádio não mentia, a notícia era essa mesma: o Brasil perdeu a final desse monumental campeonato para o Uruguai. Poucas, mas sentidas lágrimas correram dos olhos de ambos.
Notável era o rádio, onde o locutor transmitia o fato, a notícia, o acontecimento, e em nossa imaginação desenhávamos, com nossa cultura, aquilo que era narrado. Locutores foram consagrados nesse mister. O bauruense Edson Leite foi um deles. O avaiense Dalmo Pessoa também. Em São Paulo revelaram-se Pedro Luiz, Fiore Gilioti e tantos outros. Com Fiore, abria-se e encerrava-se a cortina do espetáculo, pois no Brasil o futebol sempre foi o esporte das multidões. Trata-se de paixão nacional. Nossos craques transformam-se em heróis ou vilões nacionais.
No Rio de Janeiro, cidade cenário no qual o Maracanã emudeceu no trágico 1950, Oduvaldo Cosi foi muito respeitado e Ary Barroso, o consagrado compositor de “Aquarela do Brasil” e tantas músicas, não deixava de participar de narrações ou comentários em partidas do futebol carioca. Flamenguista ferrenho, torcia obviamente para o seu rubro-negro e nós, que o ouvíamos, imaginávamos a cena que ele nos passava do rubro-negro avassalador ou sendo vergonhosamente roubado pelo árbitro.
Em Bauru, o nome mais consagrado como locutor esportivo foi, no meu modo de ver, o radialista José Fernando Amaral. Tivemos comentaristas ilustres e um deles, o Padilha, dono do Bar Cristal. Mas, para não omitir pessoas importantes que atuaram nesse setor em nossa cidade, fico somente nesses exemplos, deixando de mencionar outros. Só me recordo de um episódio cômico, com Horácio Alves Cunha, improvisado como narrador em um jogo do BAC, narrava: “Melê na área baqueana... perigo de gol... chega Artaban e dá um bicudo para o alto e a bola vai subindo, subindo e... agora, descendo... descendo”. Antológica narração.
Lembro-me em 1954, num torneio classificatório no qual um time galgaria para a 1ª divisão e o Noroeste o disputava, a narração dos locutores bauruenses em Marília, no jogo que o “Vermelhinho” travou com o MAC local e venceu por 2 a 1.
Terminada a partida, informaram aflitos que o vestiário onde o “alvirubro” se alojara, fora invadido pela enfurecida torcida mariliense e diversos jogadores foram agredidos. Brotero, o heróico centro-avante desse jogo, teria sido atingido com violência. E assim por diante. A riqueza dos detalhes jogados ao ar pelos locutores, causava preocupação e vontade de revanchismo àqueles que os ouviam.
Na minha imaginação de adolescente que ouvia o jogo, vi borrifar sangue para todos os lados, pescoços que foram quebrados, cabeças partidas, ônibus dos torcedores totalmente destruídos e assim por diante... mas, muito menos aconteceu: correria, agressões físicas de lado a lado, sem conseqüências graves e a turma do deixa disso funcionando a todo o vapor. Ainda bem!
Com o advento da televisão, a magia transmitida pelas ondas sonoras perdeu sua função alimentadora de nossa imaginação. Atualmente, nas partidas de futebol tudo é registrado, imagem alguma passa despercebida, os erros dos juízes e a violência dos jogadores ou do público ficam visualmente documentados. Com isso, a imagem suprimiu a imaginação.
O autor, Irineu Azevedo Bastos, é membro da ABL