O primeiro treino aberto ao público da seleção brasileira na África do Sul atraiu milhares de torcedores a um estádio no histórico bairro de Soweto, mas a imensa maioria da torcida saiu enquanto os jogadores ainda estavam em ação dentro de campo.
Dez mil ingressos foram distribuídos pela Fifa para o primeiro treino aberto de uma das 32 seleções que vão disputar o Mundial, e essa foi provavelmente a única prática brasileira com os portões abertos, de acordo com o técnico Dunga.
No estádio Dobsonville, a seleção foi saudada por uma multidão de moradores de Soweto, o centro da resistência negra durante o regime de segregação racial do apartheid, que hoje é habitado por uma minoria de classe-média ao lado da população mais pobre de Johannesburgo.
Mas a empolgação inicial, embalada ao som das vuvulezas e canções e coreografias típicas dos estádios de futebol sul-africanos, não durou muito tempo, e os torcedores deixaram as arquibancadas praticamente vazias antes do fim do treino.
“Estava chato, a gente queria ter tirado fotos com eles,” reclamou a estudante Amanda Phophi, de 16 anos, que junto com um grupo de amigas deixou o estádio 40 minutos antes do fim do treino da seleção. “Foi bom ver os jogadores, mas não teve a animação que as pessoas esperavam.”
O treino aberto ao público é uma determinação da Fifa para os 32 times da Copa, e serão realizados em sua maioria em regiões pobres da África do Sul para levar o Mundial à população menos favorecida, que provavelmente não poderá assistir às partidas ao vivo.
O técnico Dunga disse que a seleção não deve voltar a fazer treinos com os portões abertos, uma vez que a obrigação com a Fifa já foi cumprida. De acordo com o treinador, a presença do torcedor atrapalha o desempenho dos jogadores nos treinamentos.
“Gostaria que a torcida estivesse sempre com a gente, mas a gente precisa trabalhar, repetir jogada. Se tiver muita gente ao redor, muito comentário, de uma certa maneira o jogador começa a não arriscar muito, e a grande qualidade do jogador brasileiro é arriscar as jogadas,” disse o treinador, em entrevista coletiva antes do treino.
Durante os seis primeiros dias de preparação do Brasil, em Curitiba, a seleção fez apenas dois treinos com a presença da torcida brasileira, e o treinador voltou a citar os problemas da preparação em Weggis antes da Copa do Mundo de 2006 para justificar o isolamento da seleção.
“Para mim, todos os treinamentos poderiam ser abertos, tem o calor do público, mas as experiências do passado, tudo que foi apontado em Weggis, temos que nos prevenir de algumas situações,” disse Dunga, referindo-se à cidade suíça onde a seleção fez quase todos os treinos com presença do público e até shows antes da derrota na Copa da Alemanha.
No treino de ontem, um dia após a vitória por 3 a 0 sobre o Zimbábue em Harare, os jogadores que foram titulares no amistoso fizeram um trabalho de recuperação física, enquanto o restante da equipe trabalhou passes e finalização em campo reduzido.
O goleiro Julio César ficou de fora para ser submetido a fisioterapia após ter sido substituído no primeiro tempo do amistoso com dores nas costas. Já o zagueiro Juan, poupado em Harare, treinou normalmente.
Hoje a seleção vai treinar em dois períodos na Randburg High School, seu local oficial de treinamentos onde o público não tem acesso. A seleção fará seu último amistoso de aquecimento para a Copa contra a Tanzânia, na segunda-feira.
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Dunga e Jorginho batem de frente com jornalistas
O clima de tensão que sempre existiu entre o técnico Dunga e a imprensa brasileira tornou-se um conflito aberto e declarado entre os comandantes da seleção e a mídia.
Dunga e seu auxiliar Jorginho, que invariavelmente criticam o trabalho da imprensa e dão respostas ríspidas em entrevistas, reclamaram da falta de apoio à seleção brasileira e partiram para o ataque contra os jornalistas.
“Temos aqui 300 jornalistas do Brasil que estão esperando que o Brasil não ganhe. Eles querem poder dizer: ‘estávamos com a razão, ele teve sorte demais na Copa América e na Copa das Confederações,” disse Dunga, em entrevista coletiva, respondendo a uma repórter estrangeira que perguntou o que faltava ao Brasil para ser campeão.
Em outra resposta, Jorginho complementou: “O que vocês escrevem nos motivam. Queria saber por que numa oportunidade como essa, você que tem sido tão crítico, que tem até ofendido sua própria moral, eu queria saber por que você não pega no microfone e não faz uma pergunta para gente debater.”
“Ele nunca chutou uma bola, é uma cara que só sabe falar.” Essa foi a resposta do técnico Dunga a respeito da afirmação do secretário-geral da Fifa, Jerome Valcke, de que os jogadores brasileiros estavam reclamando da bola da Copa do Mundo para ter uma desculpa em caso de derrota.
As críticas à bola são quase uma unanimidade entre os jogadores brasileiros desde os primeiros treinamentos com a Jabulani, mas Valcke ironizou as reclamações, dizendo que o time estava “pondo a culpa na bola. Se não fosse com a bola seria com o gramado, e assim por diante. Se o Brasil vencer o Mundial, tenho certeza que essas reclamações acabam.”
Quando perguntado a respeito da posição de Valcke, Dunga rebateu com firmeza: “É só ele jogar, se ele jogar vai ter uma opinião diferente. Um cara que nunca entrou em campo, nunca chutou uma bola, é um cara que só sabe falar,” disse Dunga.
Numeração
A numeração enviada à Fifa com os nomes dos 23 jogadores do Brasil para a Copa do Mundo não significa que os titulares para a estreia contra a Coreia do Norte serão aqueles que receberam as camisas de 1 a 11, de acordo com Dunga.
Os 11 titulares de acordo com a numeração oficial seriam: 1-Julio César, 2-Maicon, 3-Lúcio, 4-Juan, 5-Felipe Melo, 6-Michel Bastos, 7-Elano, 8-Gilberto Silva, 9-Luís Fabiano, 10-Kaká e 11-Robinho.