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O delírio da bola

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Às vésperas da Copa a imprensa esportiva discute o tamanho, o formato, o peso, o número de gomos, a costura, o modo de rolar e de girar da bola oficial do mundial de futebol. Os jogadores da seleção estão preocupadíssimos. Dunga dá coices no dirigente da Fifa que relativizou a importância do balão de couro na performance dos atletas. O goleiro Júlio César disse que o “esférico” – como é chamado em Portugal – era de “supermercado”. Luís Fabiano apelidou a bola de “sobrenatural” e, Felipe Melo de “patricinha” – a que não gosta de ser chutada. Expressão machista que lembra Nelson Rodrigues, o dramaturgo: “toda mulher gosta de apanhar, mas existem as exceções...” Michel Bastos foi o único que não reclamou. Fez um gol de falta espetacular contra o Zimbábue, talvez graças a velocidade que ela atinge com o menor atrito com o ar. Houve também a defesa do Kaká que preferiu beijá-la para que a imagem percorresse o mundo. Com o mesmo dinheiro que ele ganha do fabricante não falta quem se disponha a comê-la aos pedacinhos, e sem sal. A Adidas, patrocinadora da Fifa batizou-a de “jabulani” que, na língua Bantu issiZulu, um dos onze idiomas da África do Sul significa celebrar, ou felicidade.

O torcedor espera que essas objeções não sirvam de desculpas para derrotas. Acho que ninguém vai dar pelota para a qualidade do objeto. Bola é bola. Todas são redondas. Quer mais é vê-la no fundo das redes do adversário. Estranho esse receio dos jogadores brasileiros, já que todos eles começaram no fundo de quintal chutando lata de massa de tomate, para depois evoluir à bola de meia. No meu tempo de criança a bola desejada era a “de capotão”. No campinho perto de casa aparecia o Riquinho com sua n° 5, a Lamborghini das bolas, a mesma usada pelos profissionais. A cessão assegurava o seu lugar no time. A gente o colocava na ponta esquerda onde ele corria, corria, bufava e reclamava que não lhe davam passes. O nome do grande craque sãopaulino Canhoteiro era mencionado para convencê-lo de que jogar na ponta, pelo contrário, era um privilégio. Uma vez meu pai me levou para ver um treino no Canindé. Canhoteiro divertia os torcedores nos intervalos, fazendo aquilo que o Robinho faz hoje com a bola, mas utilizando um limão. Depois deixava o limão de lado e repetia as embaixadas e aquele lance de jogar para cima e aparar na nuca. Mas com um pires. Durante o jogo Canhoteiro corria com a bola entre as pernas. Os adversários não conseguiam desarmá-lo, a não ser com faltas. Nunca vi outro igual.

Outro grande craque do futebol brasileira chamava-se Heleno de Freitas. Dizia que a bola deveria ser tratada como uma mulher. Com carinho. Dono de um estilo elegante recebia o balão no peito como se estivesse abraçando a mulher amada. Era um sujeito bonito, alto, tão estiloso como problemático. Foi o maior goleador do Botafogo nos anos 1940. Exigia camisas e calções feitos sob medida e passados minutos antes de entrar em campo com os cabelos penteados com brilhantina, cutículas feitas e unhas esmaltadas. No calção havia um bolso para o pente. Instrumento útil para repor o penteado em caso de cabeceio. Era advogado, boêmio, boa vida, galã, mas intratável. Os companheiros o chamavam de Gilda, por causa do filme com Rita Hayworth. Jogou no Boca Juniors, na Argentina. A maior transação do futebol brasileiro durante décadas. Dizem que Eva Perón se encantou a ponto de manter um romance secreto com Heleno. Em Barranquilla, na Colômbia, onde também jogou, há uma estátua de bronze em sua homenagem. Brigou em todos os lugares por onde passou, foi expulso dezenas de vezes. Quando vaiado baixava o calção e chacoalhava o pênis para a torcida. No final da carreira foi contratado pelo Santos e nunca apareceu para jogar. Morreu num asilo de loucos em Barbacena onde ficou anos internado. Todas as noites dormia abraçado a uma bola murcha, sua fiel companheira e a única capaz de embalar os seus sonhos, e alimentar os delírios finais.

O autor, Zarcillo Barbosa,é jornalista e colaborador do JC

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