Saúde

Problemas devem ser a base do ensino da medicina

Por Redação | *Com informações da GP Comunicação
| Tempo de leitura: 5 min

A humanização da medicina é um dos grandes desafios dos tempos atuais. E um dos caminhos para se alcançar esse ideal está na adoção pelas universidades de métodos ativos de ensino/aprendizagem como o PBL (problem based learning) já conhecido no Brasil como ABP (aprendizagem baseada em problemas). Isto é o que defendem os professores Hissachi Tsuji e Rinaldo Henrique Aguilar da Silva, da Faculdade de Medicina de Marília, autores do livro “Aprender e Ensinar na Escola Vestida de Branco – Do Modelo Biomédico ao Humanístico” (Editora Phorte), que acaba de chegar às livrarias de todo o País.

A ABP é bastante evoluída em países como Canadá e Estados Unidos, e é utilizada hoje em mais de 350 escolas de medicina espalhadas por todo o mundo. Apesar disso e dos ótimos resultados alcançados, muitas instituições brasileiras ainda resistem em implantar essa metodologia.

“Temos atualmente cerca de 40 cursos de medicina no Brasil que já adotaram esse processo”, conta Tsuji. “Diferentemente do método tradicional, na ABP desde o primeiro ano o estudante vivencia o cenário prático da profissão”, acrescenta.

O modelo vigente na maioria das escolas médica é o biomédico, no qual a ênfase recai sobre a doença e suas causas, sem dar importância ao portador, ao ser humano. “A identificação das necessidades de saúde deve ser percebida e aprendida na prática, juntos aos pacientes, e não em livros”, contrapõe Tsuji.

Na ABP, o professor atua mais como um catalisador do processo de construção do conhecimento. São definidas as tarefas levando-se em conta o nível de complexidade e autonomia do estudante exigida para cada série.

“O estudante aprende a pensar, a reconhecer lacunas de conhecimentos, a formular perguntas inteligentes e a proceder à busca de informações necessárias para responder as dúvidas que consequentemente vão surgir durante a prática. Esta é a grande diferença entre a ABP e o método tradicional”, explicam os autores no livro.

Perfis

O livro chama a atenção para um ponto crucial: “Existem estudantes preocupados com os aspectos humanos, que conseguem enxergar além da tarefa. A missão dos professores é não atrapalhar essas pessoas no desenvolvimento das suas qualidades humanas. Frequentemente, os professores atrapalham e atrapalham muito, pois contribuem para atrofiar a sensibilidade, a delicadeza e a capacidade dessas pessoas em se colocar no lugar do outro”, indica a obra.

É comum, quando se faz a anamnese de um paciente, o médico só levar em consideração as queixas corporais, como, por exemplo, náusea, dor, dispneia, sudorese e palidez. Isso, em determinado caso, aliado aos exames laboratoriais, pode significar um diagnóstico de infarto agudo do miocárdio.

Porém, quando se deixa o paciente relatar livremente seus problemas, é possível levantar dados psicossociais que tornam a anamnese muito mais abrangente, permitindo inclusive que o médico identifique as questões emocionais que possam ter contribuído no desencadeamento da doença.

Outra diferença entre a ABP e o método tradicional de ensino é que, ao invés de aplicar prova e conceder nota, são realizados exercícios de avaliação cognitiva e de prática profissional. O resultado é expresso em critérios, que podem ser satisfatórios ou insatisfatórios.

Para cada tipo de exercício de avaliação os estudantes terão duas oportunidades de recuperação naquelas questões consideradas insatisfatórias. Precedendo a recuperação os estudantes são reunidos em sala para discussão das questões do exercício de avaliação.

Os estudantes recebem prescrição individual e orientação nas questões consideradas insatisfatórias. Assim, o exercício de avaliação é um momento privilegiado de aprendizagem e não um acerto de contas entre professores e estudantes.

• Serviço

“Aprender a Ensinar na Escola Vestida de Branco”, de Hissachi Tsuji e Rinaldo Henrique Aguilar da Silva. Editora: Phorte. Páginas: 240. Preço sugerido: R$ 44,00.

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Sobre os autores

Professor de endocrinologia e metabologia, doutor e mestre em medicina pela Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp) e mestre profissional em efetividade em saúde baseada em evidências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Hissachi Tsuji foi diretor de graduação da Faculdade de Medicina de Marília (Famema) entre 2004 a 2009.

Professor de bioquímica, pós-doutorando em ensino da saúde pela Unifesp, Rinaldo Henrique Aguilar da Silva é também doutor e mestre em genética humana pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), além de especialista em administração e gestão acadêmica pela Fundação Pedro Leopoldo, de Belo Horizonte.

Tsuji e Silva participaram da implementação, em 1997, da ABP na Famema – Faculdade de Medicina de Marília. A turma que ingressou nesse ano foi avaliada após cerca de cinco anos da formatura. “Realizamos entrevistas com os médicos em seu local de trabalho. Também ouvimos pacientes e chefes das unidades de saúde visitadas. O resultado foi que nos deparamos com profissionais melhor preparados e preocupados com a pessoa, e não só com a doença, ou seja, médicos mais humanos”, resume Tsuji.

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Na prática

O programa Saúde na Família é um bom exemplo de como a ABP (aprendizagem baseada em problemas) pode ser efetivada na prática, explicam os professores Hissachi Tsuji e Rinaldo Henrique Aguilar da Silva, da Faculdade de Medicina de Marília, autores do livro “Aprender e Ensinar na Escola Vestida de Branco – Do Modelo Biomédico ao Humanístico”.

Como o Ministério da Educação orienta as universidades a firmarem contratos com as secretarias de saúde, os estudantes podem vivenciar o dia a dia de programas como o da Saúde da Família. Em duplas, visitam as famílias, ouvem suas queixas e retornam para a unidade de saúde, onde em grupos discutem o problema té encontrarem uma explicação científica satisfatória.

Por meio desse processo, os estudantes identificam o que sabem e o que não sabem (lacuna de conhecimentos ou dúvidas). As dúvidas são transformadas em questões de aprendizagem que devem ser pesquisadas na literatura.

Assim, os conteúdos das disciplinas a serem estudadas são escolhidos pelos estudantes para preencher as suas necessidades, uma vez que no currículo integrado e orientado por competências profissionais a sua elaboração se baseia nas tarefas e a implementação é feita por meio do processo ativo de aprendizagem.

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