Bairros

Copa do Mundo muda clima dos bairros

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

Pode reparar. Há cinco dias do início da Copa do Mundo de Futebol, muita coisa está diferente nos bairros da cidade. As cores, das mais diversas tonalidades, que antes animavam a cidade foram impiedosamente substituídas pelo bicolor verde e amarelo. A rivalidade, que há alguns dias parecia reinar entre as torcidas dos times que disputam o Campeonato Brasileiro, também parece ser coisa do passado, já que foi rapidamente substituída por um ameno clima de confraternização.

O motivo para tal mudança é claro e aparente: a Seleção Brasileira, cinco vezes a melhor do mundo, entra em campo no próximo dia 15 em busca de mais um título. E, com ela, vai o coração de milhares de brasileiros.

Para José Carlos Marques, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru e líder do Grupo de Estudos em Comunicação Esportiva e Futebol (Gecef), a mobilização dos brasileiros em torno do campeonato é algo natural, já que o País é reconhecido mundialmente pela prática do futebol e referência na exportação de atletas.

“O futebol é um espelho de nossa sociedade e, por isso, o valorizamos tanto. Em poucas coisas o brasileiro se sente superior a outros países e o futebol é uma dessas. A Copa desperta o orgulho e cria uma identidade nacional”, explica ele, que também é doutor em ciências da comunicação pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP).

Além do orgulho brasileiro, o fator cultural também pode ser apontado como grande influência e co-responsável por tal paixão pelo esporte praticado com a bola nos pés. Isto porque, devido ao histórico de vitórias da Seleção Brasileira nos mundiais, as pessoas passaram a associar o esporte a sentimentos bons, como a alegria, a euforia e à expectativa correspondida.

De acordo com a psicóloga esportiva Susy Fleury, que já atuou em grandes times de renome nacional e também na Seleção Brasileira, a paixão pelo futebol é algo estimulado desde a infância e, por isto, tão presente na cotidiano dos brasileiros.

“As crianças nascem e já têm um time escolhido pelo pai e ou pela mãe. Na medida em que crescem, passam a jogar nos campinhos, presentes em quase todos os bairros das cidades. Este estímulo é responsável pela identidade nacional do brasileiro com o esporte”, avalia Susy. Além disso, a psicóloga aponta que essa identidade permite abrir muitos caminhos no Exterior.

Mas Susy alerta que, embora positivo, tal comportamento precisa ser dosado, já que, em excesso, pode causar frustrações. “O segredo do sucesso é o caminho do meio. Se o Brasil perder, o torcedor tem de estar preparado para encarar a situação”, pondera.

____________________

Jeitinho brasileiro

Embora os brasileiros deixem transparecer a paixão pelo futebol, também são bastante críticos com relação ao assunto. A constatação é de José Carlos Marques, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru e líder do Grupo de Estudos em Comunicação Esportiva e Futebol (Gecef).

“Pelo menos duas seleções disputam com o Brasil a supremacia como país do futebol, caso da Itália e a Argentina. Mas agem bem diferente de nós com relação às suas equipes. Nestes países eles têm uma certa devoção pelo time, um respeito. Já no Brasil não, temos um espírito crítico e uma desconfiança nata”, avalia José Carlos.

E se o apoio à Seleção, no Brasil, é diferenciado, o que dirá da forma de jogar futebol? Para grande parte dos torcedores e da imprensa, a supremacia da seleção canarinho tem de ser garantida: não basta vencer as partidas, é preciso jogar o futebol-arte.

“O brasileiro incorporou ao futebol questões científicas da cultura popular. Por conta disso, o jeitinho brasileiro é muito valorizado no esporte. A malandragem, a ginga, o drible e os passes esteticamente perfeitos são como uma garantia de nossa supremacia. Uma afirmativa de que somos os melhores do mundo”, argumenta José Carlos.

____________________

Torcida organizada

Se depender da animação da comunidade Bento Cruz, situada no Centro da Cidade, o caneco está garantido para a Seleção Brasileira neste mundial. Isto porque a Copa ainda nem começou e o clima de festa já reina entre os moradores da quadra 11 da rua Manoel Bento Cruz e adjacências.

Para viver o campeonato e torcer pelo Brasil, há cerca de um mês a comunidade começou a montar um esquema especial, que inclui desde o local onde vão assistir aos jogos até o que irão degustar enquanto rola a partida.

“Tudo começou na Copa de 2002, que aconteceu no Japão. Eu e minha esposa sentimos um desânimo geral das pessoas, já que os jogos foram realizados de madrugada. Foi quando decidimos mudar o clima e convocamos os amigos para curtir com a gente”, lembra o dentista Tito Pereira.

Depois da ideia do casal, o número de adeptos da torcida organizada só aumentou e atualmente totaliza uma média de 100 pessoas. Para Tito, a comunidade pode ser co-responsável pela vitória ou derrota do time na África do Sul.

“Temos de fazer nossa parte cuidadosamente. Na última Copa, por exemplo, nos sentimos um pouco culpados pela perda do campeonato. É porque sempre estouramos pipoca e, naquele ano, não fizemos. Acho que deu azar”, argumenta ele, que revela que este ano cogitaram a hipótese de reunir os torcedores em um clube, mas decidiram que seria melhor não arriscar.

Entre superstições e muita torcida, Tito aponta que os jogos da Seleção são apenas mais um pretexto para criar um clima de união entre os moradores da comunidade Bento Cruz.

Comentários

Comentários