São Paulo -A 14.ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, que ocorreu ontem, entre 10h e 20h, teve intenções políticas. Com o tema “Vote contra a homofobia”, a manifestação repudiava senadores, vereadores e candidatos que são contra gays. Porém, no fim, a maioria que estava lá foi mais para badalar, beijar, ver e ser visto. E a política acabou em segundo plano. Nenhum dos principais pré-candidatos ao Palácio do Planalto foi visto na parada.
Neste ano, a parada gay de São Paulo foi menos colorida que o habitual. Encontrar a tradicional bandeira do arco-íris não foi tarefa fácil. As espalhafatosas drag queens eram vistas, mas não em qualquer lugar. Pessoas fantasiadas - cueca de couro, peruca Tina Turner ou roupa aperta de oncinha -, essas também eram vistas apenas aqui e acolá.
Não que a 14.ª edição da parada gay tenha sido esvaziada ou desanimada. Pelos cálculos dos organizadores, 3,5 milhões de pessoas encheram as avenidas Paulista e da Consolação dançando atrás de trios elétricos - 400 mil a mais que no ano passado. A Polícia Militar não fez contagem.
Neste ano, porém, a organização decidiu que os trios elétricos seriam monocromáticos. E pediu a gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais, simpatizantes e curiosos que comparecessem igualmente sem cor.
Observada do alto, a parada poderia ser confundida com uma grande micareta ou uma festa de Ano Novo.
A razão foi política. A parada deste ano quis chamar a atenção para os brasileiros que são assassinados por causa da orientação sexual. A militância gay defende que o Congresso aprove um projeto de lei que transforma a homofobia em crime, da mesma forma que o racismo. A parada gay de São Paulo é considerada a maior do mundo.
Longe da política, a maioria dos que estavam por lá tinham o mesmo objetivo: se jogar, dançar. E beijar muito. Havia até quem dava bitocas só para chamar atenção, aparecer em fotos - e não estava nem aí para as pretensões políticas do evento.
Muitos (na maioria, jovens) se divertiam beijando “gente de todos os sexos” com o pretexto de fazer uma foto para recordação. E escolhiam, para aparecer, os que consideravam mais chamativos ou atraentes.
“Beijei os ‘boy’, as ‘mina’, as drag e até os ‘traveco’”, conta a atendente de telemarketing Larissa de Cássia dos Santos, 22 anos. Ela foi com um grupo de amigos de Santana, na zona norte, onde mora. Todos riem demais depois de beber “muita chapinha” (vinho barato).
Larissa mostra as fotos que fez, no visor da câmera, uma com a drag Teila Thompsom, “com h”, que vestia uma roupa de “cristais” roxos e amarelos.
“Todo mundo gosta de fazer foto comigo, mas agora apareceram essas ‘descabeçadas’ pedindo pra beijar. Deus me livre, ainda se fosse ‘um bofe maravilhoso’”, diz Teila, que é bancária e acabou beijando Larissa e os amigos dela “só pra me deixarem em paz”.
Um pouco acima, na rua da Consolação, outro grupo se embola no chão às gargalhadas, enquanto tiram fotos de si mesmos em uma espécie de “beijo múltiplo”. O estudante Cleber Matias, 19 anos, se fotografa beijando todos os amigos e amigas do grupo, que inclui lésbicas, gays e heterossexuais.
A atendente Sabrina Oliveira, 18 anos, conta em tom de façanha que beijou “até um bombeiro”. No “portifólio” da balconista Cinthia Batista, 18 anos, ela aparece beijando “freiras”, “marinheiros” e “motoqueiras”. Naquele momento, ela não sabe dizer sua orientação sexual. “O que é isso, tio?”
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Projeto está parado
São Paulo - Em tramitação desde 2006 no Congresso, o projeto de lei que torna crime a homofobia já foi aprovado na Câmara e agora precisa ser votado pelos senadores para entrar em vigor.
A criação de um crime específico para coibir a homofobia é discutida desde 2001. Depois de ficar três anos parado no Senado, uma versão enxuta do projeto foi aprovada pela Comissão de Assuntos Sociais, em novembro passado. Ainda assim, o projeto continua parado.
O projeto torna crime a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero, equiparando a situação à discriminação de raça, cor, etnia e religião.
Se aprovada, a lei criará uma pena específica para cada tipo de discriminação, com prisão de cinco anos. O projeto tem oposição da bancada evangélica.
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Proibidos, ambulantes invadem evento
Vendedores não se intimidaram com proibição da prefeitura; 20 mil litros de bebidas foram apreendidos na Parada Gay
São Paulo - Apesar da proibição da Prefeitura de São Paulo da circulação dos vendedores ambulantes durante a Parada Gay, eles invadiram a avenida Paulista e comercializam desde comidas e bebidas, até enfeites de temas ligados à Copa do Mundo.
De acordo com a Guarda Civil Metropolitana, por volta das 18h, o balanço parcial indicava que mais de 20 mil litros de bebidas haviam sido apreendidos, entre cervejas, refrigerantes e vinhos.
Enquanto alguns vendedores tentavam ser discretos, outros nem se importavam com a fiscalização e carregavam isopores na cabeça, que podiam ser vistos de longe. O preço médio da cerveja vendida era de R$ 4,00, e as garrafas de vinho eram comercializadas a R$ 6,00.
Quando apreendido, o material comercializado pelos ambulantes é guardado em sacos plásticos lacrados e encaminhado para depósitos das subprefeituras. Se o vendedor apresentar nota fiscal do produto, poderá recuperá-lo a partir de hoje, após o pagamento de uma multa por desrespeitar uma determinação municipal.
Segundo o coronel da Polícia Militar Renato Cerqueira, responsável pelo policiamento da região, foram registradas 11 ocorrências em todo o evento, a maioria após discussões. Duas pessoas foram detidas sob suspeita de furto.
Cerca de 1.400 homens das polícias Militar e Civil fizeram a segurança do evento. A Guarda Civil Metropolitana disponibilizou outros 700 agentes.
Ao todo, 320 pessoas foram socorridas nos postos móveis de atendimento após consumirem bebida alcoólica em excesso, sendo que 15 foram encaminhadas para hospitais.
Trânsito
A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) começou a liberar um trecho da avenida Paulista após a passagem da Parada Gay. A pista estava bloqueada desde as 10h de ontem.
Segundo a CET, a liberação ocorreu por volta das 17h no sentido Consolação, no trecho entre a rua Brigadeiro Luís Antônio e a rua Peixoto Gomide. Logo após o desbloqueio, os veículos passaram a trafegar neste trecho da avenida. De acordo com informações da organização do evento, 3,5 milhões de pessoas participaram da festa.
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Bares cobram até R$ 3 pelo uso do banheiro
São Paulo - O gerente de um pequeno bar na rua Pamplona, Emanuel Pontes, estava animado com o movimento de ontem. Por causa da realização da Parada Gay na avenida Paulista, esperava aumentar em mais de 100% seu faturamento. “Em um domingo normal, ganho R$ 1.200,00. Hoje espero chegar a pelo menos R$ 3 mil”, afirmou.
Pontes implantou em seu estabelecimento um sistema de cobrança para utilizar o banheiro pelo valor de R$ 2,00. “Em outros anos, tivemos muita sujeira. Para controlar o pessoal, decidimos cobrar esse valor”, justifica a cobrança. Ele garante que nunca teve nenhum outro tipo de problema durante a Parada, fora a sujeira.
O gerente diz que a melhora no movimento é perceptível ao longo de toda a semana. “Você começa a ver clientes diferentes dos habituais”. Apesar de animado com a alta no faturamento, Pontes diz que fecharia o bar às 16h. “Quero ir pra casa. Preciso descansar também, né!?”, completa.
A reportagem pesquisou diversos comércios na região da Paulista e verificou que a taxa cobrada para o uso dos banheiros variava entre R$ 2,00 e R$ 3,00.
Existem a disposição do público 900 banheiros químicos espalhados durante todo o percurso, sendo que 70 deles adaptados para deficientes físicos. O ponto de maior concentração é em frente ao parque Trianon. No entanto, os banheiros estão muito sujos, e o forte odor de urina pode ser sentido à distância.
Sem dinheiro ou apertadas, muitas pessoas acabam urinando nas ruas. Algumas, improvisam e fazem xixi agachadas atrás de sombrinhas que abrem no meio da multidão.