A relação entre quatro importantes obras da literatura portuguesa - “Memorial do Convento” e “A Caverna”, de José Saramago, e “Vícios e Virtudes” e “Sem Nome”, de Helder Macedo - está descrita no estudo recém-lançado pela bauruense Marisa Corrêa Silva. Fruto do pós-doutorado da pesquisadora nos Estados Unidos, o livro estuda de que maneira os dois escritores trabalham em seus textos com o oposição entre sagrado e profano.
No decorrer de “O Percurso do Outro ao Mesmo: Sagrado e Profano em Saramago e em Helder Macedo” (Editora Arte e Ciência), Marisa traz as diferenças e peculiaridades desses dois autores, que abordam os conceitos acima de maneira extremamente distintas.
“No Saramago, por exemplo, a oposição é clara, estruturante da própria obra: o povo é o sagrado e o profano é o poder. Já em Macedo, essa oposição vai se desmantelando. Então, tudo que eu conhecia sobre o sagrado e profano desmoronavam e as teorias tradicionais não davam conta de analisar esse processo”, explica a autora em passagem por Bauru, sua cidade natal e onde o livro deve ser lançado em breve.
Para lidar com esse desafio, Marisa optou então por estudar o materialismo lacaniano de Slavoj Zizek, que é a releitura que esse filósofo faz da obra de Lacan, aplicando-a à filosofia política e aos estudos culturais.
“Sempre gostei muito de leituras comparadas porque você acaba aprendendo muito sobre as diferentes obras. E escolhi Zizek porque ele faz filosofia com as coisas mais incríveis, era uma questão de tempo para o seu pensamento ser aplicado na literatura”, justifica Marisa, professora do departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM).
De maneira sucinta, o pensamento do filósofo ao qual Marisa se refere diz respeito ao resgate dos valores humanos proposto pelo que se passou a chamar de “nova esquerda”.
De acordo com as conclusões da professora, as obras de ambos os autores configuram-se projetos humanistas, que procuram entender o homem inserido no mundo atual, globalizado e massificante, onde os valores individuais precisam ser resgatados.
Enquanto Saramago estaria mais ligado ao materialismo histórico, para o qual as decisões estarão sempre nas mãos dos que detêm o poder, Macedo enquadra-se no materialismo lacaniano.
“São dois autores de esquerda no sentido de valorizar o humano e lutar pela igualdade. Declaradamente comunista, Saramago traz em sua obra a valorização do homem do povo, a figura da pessoa simples; em contraponto, é irônico e sarcástico com as pessoas que representam o poder”, explica a professora.
“Já o Macedo tem uma visão política menos maniqueista. Na prática política existem absolutos, o certo e o errado, o que devemos recusar e aquilo pelo qual devemos lutar, mas a medida que entra na prática as fronteiras vão ficando borradas”, completa.
Marisa Corrêa é mestre em Comunicação e Poéticas Visuais pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, doutora em Letras pela Unesp de Assis, com pesquisa na Universidade de Coimbra, e pós-doutora pela Rutger’s - The State University of New Jersey.