Passados alguns dias do anúncio de que o presidente Lula e o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, conseguiram negociar um acordo com o Irã para que o enriquecimento do urânio extraído do país se desse em solo estrangeiro (na Turquia), o mundo pôde presenciar as reais intenções dos EUA.
Mais uma vez, os americanos mostraram que agem unicamente levando em conta seus interesses hegemônicos, de controle e presença militar no mundo, interesses de grande potência econômica, não a paz, nem relações diplomáticas positivas.
Foi negociado o primeiro passo de um possível acordo dos iranianos com a OIEA (Organização Internacional para Energia Atômica) e os EUA, Rússia e França. Mas, dias depois, os EUA revelaram sua intenção de seguir com o pedido de sanções ao Irã no Conselho de Segurança da ONU. Teerã se comprometeu com o que os americanos queriam, como foi possível constatar na carta enviada por Barack Obama a Lula 15 dias antes do encontro com o primeiro-ministro iraniano, Mahmoud Ahmadinejah.
Na correspondência, Obama afirma que o envio de 1.200 quilos de urânio de baixo enriquecimento diminuiria as tensões no Oriente Médio e abririam espaço para negociações. Mas depois os EUA agiram de maneira incoerente com o teor da carta.
O interesse dos EUA parece ser desestabilizar o governo do Irã, hoje o principal entrave a seus interesses econômicos e petrolíferos. Sanções do Conselho de Segurança contra o Irã repetiriam o erro do embargo ao Iraque em 1990. Os EUA são hoje um império em decadência, principalmente, porque não conseguem lidar com a nova realidade de um mundo em rearranjo de forças, um mundo multipolar. Nessa nova configuração, as principais questões são solucionadas com a participação de um número maior de nações.
No caso iraniano, Brasil e Turquia são distanciados o suficiente do conflito para assumirem o papel de mediadores. Por isso, o esforço turco-brasileiro é bem visto no exterior como importante passo para a paz. No Brasil, a nova conjuntura não é assimilada pela oposição, apoiada pela grande mídia e pela visão de que nosso país ocupa papel secundário. Ignoram que só a abertura de novos e arejados canais de diálogo pode evitar o acirramento na questão do Irã.
Mas ignoram, principalmente, que o mundo está em transformação. Deixar de lado o protagonismo brasileiro, exercido com êxito pelo presidente Lula e pelo chanceler Celso Amorim, é fazer nosso país retroceder. É levar o Brasil aos tempos de tão grande submissão aos EUA. Hoje, nossa diplomacia é feita com calçados.
O autor, José Dirceu, é advogado e ex-ministro da Casa Civil