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Copa do Mundo: Historiador relembra Copas inesquecíveis

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 6 min

Aos 83 anos, o apaixonado por futebol Luciano Dias Pires acumulou um acervo infindável de histórias que recuperam o ambiente em Bauru durante os Mundiais.

Na terceira Copa do Mundo, promovida em 1938 na França, pairava um ar pesado de conflito de nações que viria no ano seguinte com o início da Segunda Grande Guerra. Aos 11 anos de idade, Pires aguardava com ansiedade o início do Mundial. “Principalmente pelo fato do meu Corinthians estar representado pelo ponta direita Lopes, como titular da Seleção Brasileira, e de Brandão, na qualidade de centro-médio reserva”, cita o historiador.

Eram tempos de audição de Copa do Mundo pelas ondas do rádio. O pai de Pires vendia aparelhos de rádio da marca Cacique e Pilot em sua gráfica, na quadra cinco da rua 1º de Agosto, defronte ao antigo Hotel Central. O historiador bauruense recorda-se que poucos possuíam o eletroeletrônico na cidade e o pai instalou um autofalante na frente da loja para a retransmissão dos jogos do Brasil. A narração, recorda-se Pires, era de Gagliano Neto, locutor sensação da época. “Naquele 1938, Bauru vivia o mesmo ambiente dos dias atuais, visto o entusiasmo em torno da seleção brasileira”, compara.

Pires cita que o centroavante Leônidas da Silva brilhou na estreia do Brasil contra a Polônia por 6 a 5. O Brasil abriu 3 a 1, cedeu o empate 4 a 4 e venceu ao fim. “Eu estava em companhia de outros amigos, na vesperal do Cine Bauru. A cada gol do Brasil, o filme era interrompido aparecendo na tela o placar e o nome do marcador do gol brasileiro. Era uma loucura dentro do cinema, com adultos e crianças festejando ruidosamente”, conta.

A segunda partida foi contra a Thecoslováquia com um empate em 1 a 1, inclusive na prorrogação do primeiro jogo. Pires comenta que a Fifa marcou um segundo jogo para 24 horas depois. O bauruense comenta que Leônidas jogou contundido e o time brasileiro entrou com nove reservas para poupar jogadores visando a batalha contra a Itália. O Brasil venceu por 2 a 1 a Thecoslováquia. O historiador bauruense comenta que Leonidas não pôde enfrentar a Itália e a derrota por 2 a 1 foi inevitável. “Nesse jogo teve o comentado pênalti de Domingos da Guia que, chutando a canela do centroavante italiano Piola, decretou nossa derrota”, relembra.

“Nos meus 11 anos, sofri com a queda do Brasil na Copa de 38 e me lembro perfeitamente do ambiente que reinava em Bauru naquele dia, principalmente o meu pai, com o qual nem consegui falar direito após o jogo, visto o nervosismo que tomou conta dele naquela fatídica tarde”, relembra. O Brasil ficou com a terceira colocação superando a Suécia por 4 a 2. Pires diz que a delegação brasileira foi recepcionada com festa no Brasil.

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Brasil campeão sem ser

Na única Copa do Mundo em que o Brasil sediou, em 1950, a certeza do título perseverou até o gol da virada uruguaia, marcado por Alcides Ghiggia, aos 34 minutos do segundo tempo. Luciano relembra que, como a vitória sobre os uruguaios era certa, no dia da final no Maracanã foi mantido o calendário esportivo em Bauru.

No mesmo horário que a Seleção Brasileira disputava o inédito título Mundial, Bauru vivia o clássico local entre Noroeste e Bauru Atlético Clube (BAC), pelo campeonato da segunda divisão de profissionais. Enquanto o jogo corria no estádio do BAC, atualmente um supermercado, os alto falantes retransmitiam o jogo do estádio Mário Filho, no Rio de Janeiro.

Era o dia 16 de julho, para a tristeza dos 205 mil torcedores, oficialmente informados no site da Confederação Brasileira de Futebol, enquanto que Pires crava que eram 250 mil acompanhando a final no Maracanã. Ele dividia sua torcida como espectador do clássico local nas arquibancadas e como ouvinte da narração do jogo da Seleção e que passou para a história do futebol como Maracanazo. Foi um dia de dupla decepção para o jovem Luciano Dias Pires, de 23 anos. BAC 1 a 0 no Norusca, gol de Gino Bacci.

Pires cita que, na Copa de 50, aconteceu a maior zebra de todos os Mundiais, até então, com a derrota da Inglaterra para os Estados Unidos, em Belo Horizonte, por 1 a 0. Os americanos nada entendiam de futebol e surpreenderam aqueles que eram considerados intocáveis e contavam com amplo favoritismo para a conquista do título. Pires comenta que no empate de 2 a 2 com a Suíça, no Pacaembu, o selecionado brasileiro foi vaiado e, após a partida, o treinador Flávio Costa foi agredido por um torcedor nos vestiários.

Vingança em 70

Pires considera a rivalidade Brasil-Itália uma das grandes recordações das Copas: “Durante muitos e muitos anos, não saía da minha memória a derrota para a Itália, por 2 a 1, na Copa de 1938”. “Em 1970, no México, veio a desforra, com os 4 a 1 sobre o selecionado italiano. Assim, decorridos 32 anos (1938-1970), pude comemorar e devolver, com juros, aqueles 2 a 1 do Mundial da França”, comenta.

Pires vivenciou as diversas caminhadas do selecionado brasileiro no período do rádio e da TV. “Guardo ao longo desse tempo recordações que jamais desapareceram de minha memória”, finaliza.

Réplica da Jules Rimet

Em 1970, ano da conquista do tricampeonato Mundial, em Bauru foram realizados os XXXV Jogos Abertos do Interior, durante a gestão do prefeito Alcides Franciscato. Na oportunidade, a prefeitura lançou um concurso entre os jornalistas que representavam jornais de São Paulo.

Na época, Dias Pires era redator do Diário de São Paulo e do Diário da Noite, jornais de Assis Chateaubriand. Conseguindo divulgar nos jornais o evento esportivo, Pires foi premiado com uma réplica da Taça Jules Rimet, troféu conquistado de forma definitiva pelo Brasil ao vencer a Copa de 1970.

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Uma ‘Copa’ durante a Guerra

O historiador Luciano Dias Pires relembra que, em 1939, ainda durante a Segunda Grande Guerra, a imprensa brasileira noticiava que a Fifa iria enviar ao Brasil uma comitiva para avaliar as possibilidades do país sediar a Copa programada para 1942, pois acreditava-se que o conflito mundial não se estenderia como ocorreu até 1945. A entidade máxima do futebol suspendeu a visita ao Brasil e, como se sabe, o mundo ficou sem os Mundiais de 1942 e 1946.

No início de 1945, os exércitos dos Aliados dispersavam o que restou das forças militares do ditador alemão Adolf Hitler. Os generais norte-americanos, ingleses, russos, franceses e de outros exércitos, para o entretenimento dos soldados, resolveram realizar uma pequena “Copa do Mundo”, formando selecionados com os soldados de diferentes exércitos.

Pires explica que o torneio foi vencido pelo 5º Exército Americano reforçado por quatros militares brasileiros, integrantes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) e jogadores profissionais no Brasil. O lateral do São Cristóvão, Bidon, o meia Perácio, da Seleção Brasileira de 1938, o ponta esquerda do Corinthians, Walter e um goleiro que ficou na reserva (seu nome é desconhecido). Assim, em plena Segunda Grande Guerra, uma espécie de Copa do Mundo aconteceu e quatro soldados brasileiros colaboraram pela conquista do título.

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