Uma luz amarela foi acesa em Bauru quanto aos índices de poluição do ar por ozônio. Benéfico quando está a 25 quilômetros de altitude, mas extremamente tóxico quando próximo da Terra, a concentração de gás na região alcançou, no ano passado, quase o nível máximo dentro do patamar considerado padrão pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).
Desta maneira, a atmosfera desta área está em vias de saturação pelo poluente, conforme classificação da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), divulgada nesta semana. Além de Bauru, estão nas mesmas condições as regiões de Araraquara, São José do Rio Preto, Araçatuba e Jaú. Apenas Marília e Presidente Prudente não estão saturados e São Paulo e demais regiões do Estado estão saturadas, variando de nível entre sério a moderado.
Segundo Carlos Eduardo Komatsu, gerente do Departamento de Qualidade Ambiental da Cetesb, a legislação vigente prevê que a concentração de ozônio admissível na atmosfera é de até 160mg/m3 e Bauru está em vias de saturação porque chegou a 90% deste índice. “O indicado é que continue do jeito que está. Mas é um dado preocupante porque, se aumentar a emissão de gases, é possível que a situação se agrave e passe a ser classificada como saturada”, frisa.
Mas essa classificação, embora ainda indique que a região esteja dentro do padrão de qualidade do ar, não livra seus habitantes dos males que o ozônio pode causar. Nesse sentido, Komatsu lembra que qualquer nível de poluição, por menor que seja, nunca é inofensivo. “O valor padrão protege a maioria da população, mas não dá para dizer que o ar de Bauru não causa nenhum efeito maléfico”, revela.
Entre os possíveis prejuízos à saúde, a alta concentração do gás pode provocar tosse seca, cansaço e até mesmo tumores nos pulmões e mortes prematuras de pessoas que já tenham doenças respiratórias. “Mas, é claro, a maior probabilidade de isso acontecer é nas áreas de maior saturação do poluente. Aqui em Bauru, pode-se dizer que seria algo raro”, comenta o engenheiro químico Carlos Alberto Ferreira Rino, do Instituto Brasileiro de Estudos Ambientais e de Saneamento (Ibeas) de Bauru.
Oscilação
Mas, ao contrário de outras partículas poluentes, os níveis de ozônio não apresentam uma constante de crescimento, salienta Komatsu. Por depender de variáveis como as condições climáticas, é uma substância cuja presença sofre variação frequente no ar ao longo do ano e mesmo durante um único dia. Para se ter uma ideia, ontem, por exemplo, a concentração em Bauru chegou ao pico de 84mg/m3 entre 13h e 15h, patamar considerado regular, mas chegou a uma média classificada como boa às 9h, de 4 mg/m3.
Essa oscilação ocorre, segundo Komatsu, porque o ozônio é um poluente secundário. Ou seja, não é emitido diretamente de uma fonte, como o escapamento de um veículo, mas se forma pelas reações entre os óxidos de nitrogênio e compostos orgânicos voláteis, quando há incidência de radiação solar. “O período mais quente do dia é quando há mais concentração de ozônio. À noite, praticamente não há”, explica.
O que se sabe, no entanto, é que, quanto maior a concentração de indústrias e automóveis - principais emissores de gases na atmosfera, mais frequentes são as altas concentrações de ozônio, já que ele precisa dessas fontes poluentes para se formar. Por esse motivo, na avaliação do engenheiro químico do Ibeas, seria importante começar a repensar os modelos atuais de consumo, sob pena de a cidade ultrapassar o nível padrão de qualidade do ar.
“Uma maneira de diminuir a emissão de gases é instalar catalisadores nos veículos, cuja quantidade aumenta a cada ano nas cidades. Já as indústrias podem dispor de equipamentos de controle da poluição. Mas a condição ideal, que depende de uma série de políticas públicas, seria dar preferência ao transporte público e outras formas alternativas de transporte”, pondera Ferreira Rino.
Ozônio também é bom
Embora seja um gás tóxico se presente na troposfera (mais perto do solo), o ozônio é essencial para proteger a Terra dos raios ultravioleta emitidos pelo Sol. Segundo a bióloga Jaqueline Coelho Negrini, da CBC Ambiental, a camada de ozônio, localizada a 25 quilômetros de altitude, funciona como uma barreira contra a radiação solar e conserva a temperatura do globo em níveis compatíveis com a vida.
“Mas, devido ao aumento do buraco desta camada, estamos acompanhando uma série de fenômenos recentes da natureza, como o descongelamento das geleiras e temperaturas elevadíssimas nos centros urbanos, que em determinadas épocas se transformam em ilhas de calor”, comenta.