Quem não consegue ficar a noite toda sem passar pelo banheiro tem de suportar entre duas e quatro horas sem urinar para colher a amostra a ser analisada em laboratório. O tempo é necessário para aumentar a concentração de tudo o que foi filtrado pelo rim. Deste modo, é possível detectar aumento de células, cristais e proteínas, por exemplo, informa a hematologista Soraya Farid Hassan, médica responsável pelo laboratório da Associação Hospitalar de Bauru (AHB).
De acordo com ela, quando o objetivo é identificar uma infecção urinária, o paciente se submete à urocultura. “O exame identifica o agente e o antibiograma. Vai testar com qual antibiótico esse agente é sensível ou resistente, para orientar o médico na conduta terapêutica. Neste caso, é melhor colher no laboratório”, informa a hematologista.
A recomendação tem fundamento. No local, o paciente é orientado sobre como fazer uma limpeza prévia antes de colher o material. Se não for cuidadoso, seu exame corre o risco de ser contaminado com uma bactéria externa e apresentar resultado que difere do real.
A situação fica mais complicada quando o paciente é um bebê. Neste caso, será instalado um saco coletor, que será substituído a cada meia ou uma hora para evitar o risco de contaminação do recipiente. “Geralmente coloca-se o saco coletor e o nenê não faz xixi rapidamente. Tem de fazer tudo de novo. Tirar, fazer a antissepsia (limpeza) e colocar de novo”, destaca. Por conta da dificuldade, em muitos casos o exame tem de ser repetido.
Teste de gravidez
Dependendo do teste de gravidez adquirido na farmácia, a mulher pode descartar uma gestação, embora seu óvulo tenha sido fecundado. Isto porque o resultado de exames comumente comprados em drogarias depende da quantidade de hormônio (gonadotrofina coriônica) que a interessada libera pela urina.
Se a gravidez é recente, talvez a molécula ainda não tenha sido produzida em quantidade suficiente para positivar o exame. “Já o exame de sangue consegue identificar a gravidez de mês mais um dia. Como cada mulher tem a data de seu ciclo menstrual, se não menstruou no dia esperado, geralmente com um dia a mais já é possível detectar”, informa a hematologista.
Na AHB, para o teste, usa-se o Beta HCG sanguíneo, capaz de detectar a presença do mesmo hormônio excretado na urina. “A quantidade que precisamos é bem pequena. O de farmácia precisa de um tempo maior”, explica a médica.
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Especialistas: coletas são vulneráveis
O exame de urina, especialmente aquele capaz de identificar eventuais infecções, é ainda hoje um dos mais vulneráveis. Se o paciente não tiver consciência de quão cuidadoso deve ser para colher o material, pode contaminar o frasco e alterar o resultado aguardado.
“Fazemos um comparativo da análise microscópica dessa urina e da presença da bactéria. As duas informações não podem se contradizer. Às vezes, pelo próprio tipo da bactéria que foi encontrada, já sabemos se houve uma contaminação”, informa Adriana Feltrin, farmacêutica bioquímica supervisora do laboratório de análises clínicas do Hospital Estadual de Bauru (HEB).
Moderno e bem equipado, o laboratório esbarra justamente na análise do material enviado pelas unidades básicas de saúde dos municípios da região. Se a coleta é exigente com o paciente, também o é com quem transporta o material.
“Procuramos orientar essas pessoas e oferecer cursos que as capacitem, para que saibam, por exemplo, a temperatura correta para transportar esse material e até a quantidade de gelo descartável que deve ser posto dentro da maleta. Hoje temos um pequenos manual de transporte”, explica .
Mas não são em todas as situações que se é possível detectar se a amostra está adequada. “Não tenho como saber a alimentação do paciente no dia anterior, nem se ele fez o preparo adequado. Hoje se investe muito em exames, mas é preciso investir na conscientização dos pacientes”, afirma.
É o caso de um novo kit para identificar sangue oculto nas fezes. No lugar de se fazer uma análise química, passa-se a uma imunológica. Embora a tecnologia venha para ajudar, a participação do paciente ainda é fundamental. No do exame batizado como ‘urina 24 horas’, que analisa as proteínas expelidas pela pessoa, se ela perder apenas uma diurese, pode ter o resultado alterado.
“O resultado final já não vai ser o mesmo. Pode ser o limiar entre o normal e o anormal. Se o paciente não passar essa informação, vai ter o laudo prejudicado”, sintetiza Adriana.
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Testes com os músculos e nervos não exigem nenhum preparativo
As pessoas com suspeita de problemas em músculos e nervos podem se submeter, eventualmente, a exames como o eletroneuromiografia ou potenciais evocados, realizados em Bauru. De nome complicado, eles também investigam medula, tronco cerebral e encéfalo de crianças e adultos. No entanto, não exigem qualquer preparativo anterior ao teste.
Como se fosse um eletrocardiograma, o exame analisa estímulos elétricos por meio de eletrodos. “Vamos escolhendo o local onde o eletrodo será colocado conforme a suspeita da doença. O paciente pode ter uma fraqueza numa perna, uma dor, um formigamento”, explica José Antônio Garbino, médico especialista em neurofisiologia clínica.
De acordo com ele, assim como os distúrbios sensitivos, as dores crônicas de diferentes tipos e até perdas de sensibilidade também são avaliadas por meio do estudo das funções neurológicas periféricas e centrais. No caso dos potenciais evocados, problemas visuais e auditivos são pesquisados.
“Colocamos um fone no ouvido, os eletrodos na cabeça e acompanhamos. No visual, o paciente olha um xadrez e a luz vai mudando. Vemos o quanto que está a mielização do cérebro”, explica o médico.
Com a eletroneuromiografia, eletrodos são introduzidos nos músculos e as respostas são analisadas. Neste caso, se o paciente estiver com a mão gelada, ela será aquecida no consultório. Outro cuidado diz respeito à parte do corpo que será submetida à análise. Se estiver com creme, por exemplo, passará por uma assepsia com álcool para não atrapalhar a fixação dos eletrodos.
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Exame acompanha o trajeto da glicose
Há paciente que permanece até duas horas num laboratório para fazer o exigente exame de curva glicêmica, que acompanha os caminhos da glicose no organismo. Antes, no entanto, a pessoa tem de se submeter a uma dieta.
“Às vezes, o paciente tem uma dieta regular e muda por conta do exame. É como se tapeasse o exame, que será falso”, explica Flávia Cristiane de Lima, biomédica e responsável técnica pela Associação Hospital de Bauru (AHB).
De acordo com ela, a maneira como a curva glicêmica deve ser feita pode ser determinada pelo médico. Em caso negativo, a AHB utiliza a forma clássica, com cinco coletas de sangue – incluindo o momento em que o paciente chega em jejum.
Após a primeira coleta, com o estômago vazio, em toda as outras o paciente consome um concentrado de glicose, num suco, por exemplo, sendo que a concentração é determinada pelo médico. “O organismo então libera a insulina, responsável por ‘pegar ‘essa glicose e’ jogá-la’ dentro da célula. A glicose é a energia que o organismo utiliza. Se o indivíduo tem uma intolerância, pode fazer isso no início e depois para. Não tem condição de metabolizar tudo aquilo”, explica a hematologista Soraya Farid Hassan, médica responsável pelo laboratório da AHB.
Interpretações
Com acesso à Internet, o paciente pode não apenas ter acesso às explicações que justificam os preparos exigidos em cada exame como também querer interpretá-lo. Neste caso, corre risco de incorrer em equívocos.
“Medicina não é uma ciência exata e o paciente sempre vai para o pior diagnóstico. Não pensa no mais simples. Às vezes olha o resultado, mas não tem os critérios para analisar o que pode ter acontecido até chegar lá”, adverte Soraya Farid Hassan, médica responsável pelo laboratório da Associação Hospitalar de Bauru (AHB).
A hematologista ressalta que os exames são chamados complementares justamente porque vão complementar o raciocínio clínico do médico. “Todos eles visam descartar ou confirmar essa possibilidade. O médico é quem deve interpretá-los”, reitera.