Ele fugiu de casa para ser artista de circo
Imagine o brilho nos olhos de um garotinho de cidade pequena que vai ao circo pela primeira vez. Esse mesmo brilho foi o responsável pela fuga de casa do gaúcho Paulo Sérgio Rodrigues, o Palhaço Rogerito, na época ainda com oito anos de idade. Ele bolou um plano e saiu de casa para ser artista de circo. Alguns anos mais tarde, entrou para a equipe circense mais famosa do Brasil, viveu e se apresentou por quatro anos nos picadeiros e palcos europeus e voltou ao país, mais especificamente a Bauru, por amor. Na cidade, passou por dificuldades ao tentar ingressar no mercado de trabalho, até que se estabeleceu como palhaço.
Contado assim, até parece enredo de filme. Mas foi exatamente essa a trajetória de Rogerito. “Nasci para ser um artista de circo. Nunca pensei em fazer outra coisa. A paixão pela arte foi tanta que não hesitei e fugi de casa em busca desse sonho quando percebi que minha família não permitiria sua realização”, relembra.
No picadeiro da pequena companhia Montreal, ele cresceu e poliu seu talento, depois apresentado por sete anos no circo Beto Carreiro. Especialista em globo da morte, Rogerito atuou por quatro anos em países europeus como a Itália, Grécia e França, onde sofreu um acidente e precisou parar com as apresentações.
Já noivo de uma bauruense que conheceu com a trupe de Beto Carreiro na cidade, ele voltou a Bauru e passou por maus momentos em busca de emprego. “Não é fácil estudar quando se trabalha em circo”, afirma.
Contudo, foi do próprio talento que veio a solução. Hoje, ele trabalha como palhaço, dá aulas de circo em escolas e apresenta o Rogerito Circo Show. Confira a história completa do palhaço Rogerito na entrevista abaixo.
Jornal da Cidade - O que o levou a fugir de casa para acompanhar um circo?
Paulo Sérgio Rodrigues (Rogerito) - A magia, o encantamento e a vontade de estar em um picadeiro. Eu morava em uma cidade de cinco mil habitantes no Rio Grande do Sul e tinha 8 anos de idade quando vi um circo pela primeira vez. Nasci em uma família pobre e minha mãe não tinha dinheiro para o ingresso. Chamei meus amigos para “furar a lona” do circo. Todos eles conseguiram, mas quando chegou a minha vez, o segurança apareceu. Não consegui entrar e fui, chorando, para a porta do circo. Um cara perguntou se algum moleque queria vender doces. Como eu já sabia fazer contas, peguei a bandeja com geleias e entrei no circo. Fiquei encantado quando o espetáculo começou.
JC - Naquele momento descobriu o que queria ser?
Rogerito - Ver o trapézio e os malabaristas foi algo mágico para mim. Não sai mais dali. Duas horas antes do espetáculo do dia seguinte começar, eu já estava lá. Cheguei, vi a criançada treinando saltos acrobáticos e percebi que eu sabia fazer aquilo tudo.
JC - Vivia dando piruetas?
Rogerito - (Risos) Fui um garoto muito arteiro. Do lado da minha casa havia uma descascadora de arroz e a palha depositada no terreno, transbordava e caia no quintal de casa. Eu adorava brincar de dar salto mortal lá. Era pior que macaco, muito bom de salto mesmo. Bom, os meninos do circo me chamaram para brincar e mostraram as piruetas que sabiam fazer. Ah, na mesma hora eu mostrei o que também fazia e eles ficaram espantados, ainda mais porque eu disse que aprendi sozinho. O filho mais velho do dono do circo viu e perguntou se eu queria ir embora com eles.
JC - E você já encantado com aquela vida...
Rogerito - Nem acreditei. Os dias passavam e eu não saia de lá. Até que, no último dia de estadia, o dono do circo foi falar com minha mãe (meu pai estava trabalhando como agricultor em outra cidade). Com muito custo, minha mãe fez uma autorização de punho e fui embora com o circo. Na próxima cidade, depois de três dias, um batalhão foi atrás de mim: minha mãe, meu pai, o conselho tutelar, um monte de policiais... Meu pai chegou da lavoura e foi me buscar. Meu mundo caiu quando precisei voltar para casa.
JC - Mas o sonho não acabou.
Rogerito - Apanhei muito quando cheguei em casa, mas ficava sempre antenado sobre onde o circo estaria. Já sabia para qual cidade ir e esperei meu pai voltar para casa com dinheiro. Eu sabia onde minha mãe guardava o dinheiro. Lembro-me de pegar apenas cinco cruzeiros e deixar a maioria lá, caso minha mãe precisasse. À noite, arrumei minha mochila, arremessei-a da janela e pulei uma altura de cerca de cinco metros. Meu radinho que estava na mochila quase me quebrei todo (risos). Fui para a rodoviária e quase precisei voltar para casa.
JC - Não venderam a passagem?
Rogerito - Exato. Eu era muito pequeno. Porém, era muito esperto. Encontrei um homem deitado em um banco da rodoviária e pedi para ele comprar um bilhete em troca de um cruzeiro. Deu certo. Quando o ônibus chegou, eu me enfiei no meio dos adultos e entreguei a passagem ao cobrador que deve ter achado que eu estava acompanhado. Cheguei na cidade de destino e tive a sorte de ver um carro do circo anunciando a estreia. Colocaram-me no carro com a ameaça de voltar a São Sepé. Contudo, os dias se passavam e eu ia ficando.
JC - Viveu quantos anos naquele pequeno circo?
Rogerito - Cerca de seis anos. Comecei a treinar e uns três meses depois já estava apresentando acrobacias. O circo foi crescendo e eu aprendendo cada vez mais. Quando estava com 13 anos, comecei a treinar o globo da morte, também já era o palhaço bochechinha. Nunca tive salário. Ganhava presentes, roupas, dinheiro para tomar sorvete, mas só. Aos 14 anos, fiz uma fita cassete com minhas apresentações e mandei para o circo do Beto Carreiro. Duas semanas depois, um empresário veio me assistir e me contratou. O pessoal do circo não gostou, mas fui embora.
JC - E sua família?
Rogerito - Pensava neles, mas estava feliz da vida ali. Porém, antes de ir para Santa Catarina, disse ao empresário do Beto Carreiro que precisa ver minha mãe. Ele me deu dinheiro, voltei para São Sepé e descobri que minha mãe não morava mais na cidade. Quando estava na rodoviária, encontrei uma amiga da família que me disse onde eles estavam morando. Peguei outro ônibus e fui até a entrada do sítio onde estavam. Precisei andar 20 quilômetros até a casa. Era noite e a estrada de terra, deserta. Nunca passei tanto medo. Quando minha mãe abriu a porta, desmaiou. Meu pai não sabia se me abraçava ou a socorria.
JC - Perdoaram você?
Rogerito - Mostrei muitas fotos do meu trabalho, contei tudo a eles e entenderam que nasci para ser artista. Depois do reencontro, fui para Santa Catarina e fiquei por sete anos na empresa Beto Carreiro.
JC - De onde vem Rogerito?
Rogerito - Na verdade, quando comecei a trabalhar no picadeiro, eles acharam meu nome feio. Então me chamaram de Rogério. Depois, já mais velho e no globo da morte do circo do Beto Carreiro, uma assessora de imprensa do circo me chamou de Valentino Roger, por causa do Valentino Rossi. Pegou. Todo mundo me chama de Roger, até em casa.
JC - O que o trouxe a Bauru?
Rogerito - O amor (risos). Há seis anos batemos o recorde mundial do globo da morte com seis motos, em São Paulo. De lá, vim com o circo para Bauru, mas já estava com o passaporte carimbado para ir embora do País. Aqui, conheci a Marcela, minha noiva. Ela foi em todos os espetáculos para me ver e não se aproximou porque achou que eu fosse casado. O circo foi para Marília, ela me achou no Orkut e deixou um recado me parabenizando pelo trabalho e pela esposa e filho. Isso aconteceu porque ela me viu com a babá e o filho de um amigo meu. Achei a moça muito bonita e expliquei que era solteiro. Ela foi até Marília me ver. Ficamos juntos e nos apaixonamos.
JC - Você foi para o exterior?
Rogerito - Seis meses depois. Antes disso, nos encontrávamos toda semana. Fiquei quatro anos entre a Grécia, Turquia, França, Irã e Itália. Namorávamos por cartas e Internet. Foi quando precisei voltar.
JC - Precisou?
Rogerito - Passei mal no globo da morte e o médico disse que precisava parar. Fiquei em coma por três dias. No circo é difícil estudar, parei sem completar o primeiro grau. O que fazer fora do globo, algo que adorava fazer?
JC - E o que fez?
Rogerito - Voltei ao Brasil há um ano. Entreguei currículos em tudo quanto é canto. Mas circo não assina carteira de trabalho. Até que arrumei um emprego de motorista de caminhão em uma loja de construção. Nunca tinha trabalhado com serviço pesado. Fiquei dois meses nesse emprego até ter a ideia de montar um espetáculo de circo, o Show do Rogerito. Foi difícil, mas depois da primeira festa as coisas foram se ajeitando. Hoje, tenho o Rogerito Circo Show, trabalho como palhaço e mágico no Giraffas e dou aulas de circo em escolas. Também estou com um projeto na Casa da Criança. Estou amando trabalhar com os pequenos. Ensino o que aprendi no circo.
JC - Você ganhou dinheiro?
Rogerito - Sim. Poupei um pouco, mas mandava bastante dinheiro para a família e também gastava muito. No exterior, os artistas são mais valorizados. O público prestigia e os salários são maiores. Ganhei o Festival do Circo de Marcelli, em 2008, e o Leão de Ouro de Lyon, em 2009.
JC - Hoje, qual é o sonho do menino que fugiu com o circo?
Rogerito - Tenho um projeto chamado “Escola Circo Bairro”. Minha ideia é montar um circo-escola e levá-lo para os bairros mais carentes de Bauru. Quero tirar as crianças da rua através do circo, assim como aconteceu comigo.