Bairros

Várzea: celeiro de craques do futebol

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Começa o jogo no Campinho do Mary Dota. É o time dos ‘Amigos do João Vitor’ contra os ‘Amigos do Vitor Hugo’. Mal tem início a peleja e Adriano Imperador já parte para o ataque. Passou por um, dois, três. A terra está fofa demais, mas ele não se intimida. Olha o cruzamento na área, quem é que sobe? Ronaldo... Digo, Vitor Hugo aparece para cabecear. E é Gooooollllllll!!! Ele abre o placar: ‘Amigos do Vitor Hugo’ 1 a 0!

Apaixonados por futebol e acalentando o sonho de um dia entrar para o time de estrelas que formam os grandes clubes, todos os dias centenas de meninos deixam suas casas rumo aos campinhos de várzea espalhados pelos diversos bairros de Bauru.

No lugar da grama, a terra. Os pés também não calçam chuteiras de marcas renomadas como as que usam os grandes boleiros, mas, na verdade, para eles isso pouco importa, já que o acessório não é item fundamental para a realização do jogo. Para dar um toque de realidade e ficar um pouco mais próximo do sonho, estes meninos também trocam de nomes. O Vitor Hugo, por exemplo, é chamado pelos amigos de Ronaldo. No time dele também tem Robinhos, Adrianos e Messis.

O que pouco gente sabe é que esta brincadeira descontraída e descompromissada que anima as tardes da molecada é um dos principais ingredientes para a formação de craques do futebol. Para João Fernando Gonçalves, coordenador de futebol do Esporte Clube Noroeste e responsável pelas categorias de base do time, as várzeas são fundamentais no processo de maturação do atleta.

“É nos campinhos dos bairros, construídos de forma precária, que os meninos dão seus primeiros dribles. A existência destes lugares é essencial para a aquisição de habilidades e coordenação motora. É na várzea que os futuros profissionais aprendem o principal ingrediente do futebol: a alegria de jogar”, analisa.

Para João Fernando, a fase que compreende a idade de 6 a 12 anos deve servir de estímulo à visão de que o futebol é uma grande brincadeira. Neste período, as crianças devem se divertir naquilo que fazem, sem cobranças e pressão por parte dos pais.

“O futebol brasileiro tem exatamente a alegria como característica. E de onde vem a alegria senão das várzeas? O garoto que joga bem, sem medo e se diverte fazendo isso tem mais chances de ser bem sucedido. A cobrança por resultados deve começar após os 13 anos”, explica.

Na opinião do jornalista Leonardo de Brito, colunista do JC, fundamental é a palavra que melhor define os campinhos de várzea. Isto porque, segundo ele, a informalidade que inicia os garotos no futebol é um estímulo ao jeito arte de jogar, regulamentado apenas pela criatividade.

“O progresso inibe a imaginação dos garotos. Hoje, desde pequenos, eles vão para as escolinhas para aprender a jogar. Lá ficam centrados em esquemas táticos. Queira ou não, o futebol não é o mesmo que o apresentado pelos craques que aprenderam a jogar nas várzeas, com toda a malandragem e criatividade característica do brasileiro”, define Leonardo.

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Função social

A cada mil garotos que passam por uma peneira em um time de futebol, apenas dois têm características de um boleiro de alto nível. Tornar-se jogador de um time renomado pode ser considerado mais difícil que passar em um vestibular de medicina, tamanha a concorrência. Porém, mesmo na condição de sonhadores, todos estes meninos já aprenderam valores mais importantes, que não são trazidos pela fama ou pelo sucesso.

“O futebol tira os garotos da ociosidade, disciplina, ensina a trabalhar em grupo e promove a solidariedade e a fraternidade”, enumera José Carlos Batata, titular da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel).

Ciente de tal importância, a Semel mantém atualmente 2.300 crianças, entre garotos e garotas, de 7 a 17 anos, em suas escolinhas de futebol. O objetivo é disseminar a importância da prática de esportes.

“Hoje em dia está cada vez mais complicado a prática de futebol nas várzeas, por conta do progresso e o do avanço incontido da marginalidade. Por isso, as escolinhas são fundamentais. Atualmente a prefeitura disponibiliza professores e os dez estádios distritais da cidade para a prática”, explica o secretário.

Mais informações sobre as escolinhas municipais de futebol pelos telefones (14) 3232-4343 e 3232-4721.

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