Internacional

Viúva de Saramago evoca Jorge Amado na cremação do escritor


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Lisboa - A viúva de José Saramago, a jornalista espanhola Pilar del Río, evocou o escritor brasileiro Jorge Amado (1912-2001) ao transmitir uma mensagem aos amigos e familiares que acompanharam, na manhã de ontem, a cremação do marido no cemitério do Alto de São João, em Lisboa. De acordo com relato do editor de Saramago, Zeferino Coelho, Pilar contou uma história segundo a qual o romancista baiano, que era amigo de seu colega português, teria se preocupado mais com os jornais, para saber as notícias do mundo, do que com a eventual queda do avião em que estava e que estava passando por uma pane.

Segundo Coelho, a intenção de Pilar foi lembrar que Saramago também tinha, até o fim da vida, essa atenção permanente com as coisas que aconteciam no mundo e ao seu redor. Saramago, morto na última sexta-feira, na ilha Espanhola de Lanzarote, foi velado anteontem e ontem em cerimônia aberta ao público e que teria contado com a passagem de cerca de 20 mil pessoas, de acordo com a polícia municipal de Lisboa.

A cerimônia de cremação do corpo do escritor português terminou por volta das 9h30 (horário de Brasília). Quando a fumaça começou a sair da chaminé do crematório, as pessoas aplaudiram demoradamente e gritaram o nome do escritor. Várias se emocionaram e foram às lagrimas. Muitas centenas de pessoas acompanharam a cerimônia, do lado de fora do crematório, além de autoridades e um batalhão de jornalistas, cinegrafistas e fotógrafos de Portugal e do mundo todo.

Funeral

Mais cedo, sob aplausos e homenagens de cerca de mil pessoas que aguardavam do lado de fora da Câmara Municipal de Lisboa, quase às margens do rio Tejo, o corpo de José Saramago seguiu em lento cortejo para o cemitério do Alto de São João, onde foi cremado. Na solenidade reservada que marcou o encerramento do velório, Saramago foi homenageado por familiares, amigos e pelos governos de Portugal e da Espanha, representado pela vice-presidente daquele país, Maria Teresa Fernández de la Vega.

Uma das polêmicas nas quais o escritor, que tinha 87 anos, envolveu se referia à avaliação de que Portugal acabaria anexada à Espanha, formando uma federação ibérica. Mesmo após sua morte, Portugal e Espanha “disputam” o direito de receber suas cinzas, já que ele se mudou para a ilha espanhola em 1993, após romper com parte da elite política de seu país.

“Todos nós nos sentimos órfãos de sua figura querida e de suas palavras confortadoras”, disse a vice-presidente da Espanha. “Ele não tinha fé em Deus. Mas, se existe, Deus certamente tem fé nele”, disse a ministra da Cultura de Portugal, Gabriela Canavilhas, arrancando um riso da viúva.

Pilar e a filha única de Saramago, Violante, ficaram de mãos dadas em parte da homenagem. As duas demonstraram muita emoção e, ao final, foram à sacada da Câmara atirar um cravo às pessoas. No caixão, havia no peito do escritor dois cravos, símbolos da revolução que derrubou do poder o salazarismo. “Como escreveu um amigo a Pilar: ‘Não há palavras. Saramago levou-as todas’”, encerrou Canavilhas.

Na chegada ao cemitério, milhares de pessoas fizeram um corredor de aplausos e flores, que eram jogadas sobre o caixão. Carregada por militares, a urna foi embalada na bandeira portuguesa. Várias pessoas carregavam nas mãos livros do escritor.

Ainda não houve declaração oficial sobre onde ficarão as cinzas do escritor. Há a possibilidade de elas serem divididas entre a aldeia de Azinhaga (cerca de 100 km de Lisboa), onde ele nasceu, e Lanzarote, já que o escritor havia manifestado que gostaria de ter suas cinzas depositadas sob uma oliveira na propriedade que morava desde os anos 90.

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