Tribuna do Leitor

Eles não morreram,OS mataram!


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Ficou no ar a ausência da presença ou a presença da ausência? (Padre Beto já nos indagou isso e agora repito). Fico me questionando até onde o Estado não tem culpa se deram um cargo de agente penitenciário a um cidadão que aos dezoito anos teve o primeiro diagnóstico de depressão (informação dada por sua mãe ao JC).

O local de trabalho já é propício a oxidar o psicológico de uma pessoa estável, imaginem de um homem bipolar e depressivo. Até que ponto ninguém poderia ter evitado? Estado, família... Porém, ele se recusou a iniciar um tratamento para não abrir mão da cervejinha no final de semana. Assim como Alexandre, meu pai-avô não abria mão de sua cervejinha diária antes de voltar à labuta durante a tarde, entretanto, não apresentava risco algum para a sociedade e não deixava de tomar qualquer medicamento para que o lazer estivesse em primeiro lugar.

Além disso, quero frisar que a cervejinha do fim de semana do assassino do meu avô era tomada no bar da minha família (Bar do Português), onde minha tia (Paula) e os demais funcionários se dirigiam a ele como “gen-tleman”. Inúmeras vezes os Mendes e amigos respeitaram o homem que mais tarde tornou-se o monstro do Higienópolis.

Por pelo menos quarenta anos meu avô tinha a mesma rotina, e os dias sem a cervejinha eram exceções. Um dia atípico, sombrio, ele foi fazer o que estava mais que acostumado e não voltou. Não voltou para ouvir o “te amo” de todo dia e o “dorme com Deus” de toda noite. Eu e minha família permanecemos de mãos atadas, sem a risada, a presença e o brilho do Zé do Açougue.

Sinto a inutilidade e o medo diante da fraca e falha Justiça brasileira. Será que poderemos andar pelas antigas ruas do bairro sem correr o risco de, ao virar a esquina, ter de enfrentar o autor da sexta-feira sangrenta? Alexandre desestruturou três famílias; a minha, a de Maurício e a dele. Além de abalar muitas outras.

Por toda minha vida ouvi dizer que Deus é o único que pode tirar a vida de alguém e cada dia que passa vejo mais pessoas brincando de ser Ele. Um assassinato não se supera. Apenas podemos conviver com o fato de que meu avô, assim como o Maurício, não morreram, foram mortos. A mídia mostra tragédia nas metrópoles e isso parece tão distante, mas tudo está mais perto do que podemos imaginar.

A desgraça alheia vira “espetáculo” e assistam a isso como um conselho, uma prevenção, pois as coisas não acontecem apenas na casa do vizinho. Peço que aproveitem todos os segundos, detalhes ao lado de seus amores. Fale, abrace, ria, olhe; pois eles podem sair e não voltar para ouvir seu adeus.

Mariana Mendes

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