A sociedade está pagando um preço alto pelas falhas no atendimento às pessoas portadoras de transtornos mentais. Exemplos disso são as mortes dos comerciantes bauruenses ocorridas na última sexta-feira. Apesar da situação caótica a que chegamos, o governo e as autoridades da área de saúde não se manifestam a respeito do problema e fazem de conta que tudo vai bem com ao atual modelo de atendimento.
Para o Seessb (Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos e Serviços de Saúde de Bauru), o momento é oportuno para levar a sociedade a refletir sobre a precariedade gerada pelo abandono dos doentes, o descaso do governo pelos servidores que apresentam distúrbios mentais, a falta de hospitais e o atendimento desqualificado dos pacientes psiquiátricos feitos em hospitais gerais. Há 20 anos, teve início em Bauru a Luta Antimanicomial, cujo objetivo era a extinção de manicômios e a inclusão dos pacientes com transtornos mentais na sociedade.
Hospitais que prestavam atendimento desumano foram fechados em várias cidades do país e os doentes que tinham família voltaram para casa. Concordamos com o fechamento dos locais insalubres onde os pacientes eram tratados como animais. Mas esperávamos que um novo modelo de atendimento substituísse o antigo. Isso não ocorreu.
O governo aproveitou-se daquele momento para reduzir, ao mínimo, os recursos destinados ao atendimento psiquiátrico. As famílias, que levaram seus doentes para casa, não receberam nenhuma assistência e, em muitos casos, passaram a viver um pesadelo durante os surtos psicóticos dos pacientes.
Atualmente não temos hospitais para internação, os CAPs (Centro de Atenção Psicossocial) funcionam precariamente. Em vez de receberem tratamento adequado, alguns pacientes têm sido mantidos confinados, amarrados nos fundos das casas de seus familiares. Além disso, não existem leitos disponíveis nos hospitais gerais para atendimento de emergência e muito menos profissionais capacitados para atender esses pacientes. Na região de Bauru existe apenas um hospital localizado em Jaú, para atender a todos os pedidos de internação da região. É claro que o hospital não suporta a demanda. Diante disso, os doentes psiquiátricos estão vagando pelas ruas e a qualquer momento podem surtar e fazer vítimas como os comerciantes Maurício Yamanoi, 41anos, e José de Nazaré Mendes, 72 anos, o cartunista Glauco, os garotos mortos em Goiânia, entre outros. Nem sempre esses doentes são maltrapilhos que conversam sozinhos pelas vias públicas, ou usuários de drogas, ou se portam inadequadamente. Muitos trabalham e prestam serviços em mais diversas áreas, inclusive no setor público. Pesquisas apontam que policiais militares, agentes penitenciários e trabalhadores da área de saúde estão entre os que apresentam maior probabilidade de desenvolver distúrbios psíquicos. Estes trabalhadores, massacrado pelo estresse da profissão e pelas duplas jornadas de trabalho, aparecem no topo da lista dos portadores de alcoolismo, depressão, Síndrome de Burnout e de Pânico. O pior é que eles sequer estão sendo tratados e recebendo a-companhamento médico. Basta um surto e um motivo fútil para que estes envolvam suas famílias e a de outros em tragédias.
Não defendemos e não estamos aqui para justificar qualquer forma de violência. Queremos apenas alertar a sociedade para o grave problema que está sendo empurrado para de-baixo do tapete.
Muito antes da tragédia que vitimou os dois bauruenses, o Seessb já vem participando de um debate nacional organizado pela Federação de Trabalhadores da Saúde do Estado de São Paulo, que busca solução para o atendimento psiquiátrico no país. No último dia 23 de março, na Alesp (Assembléia Legislativa de São Paulo), uma Audiência Pública sobre o tema “Exercício da Cidadania e o Atendimento Psiquiátrico no Estado de São Paulo” reuniu profissionais e políticos de renome para discutir o assunto. Infelizmente, nosso representante político que também é médico não estava lá, como tantos outros que ignoram o debate sobre o problema. No mês passado a audiência se repetiu em Brasília. Mais uma vez o Seessb se fez presente. No entanto, não esperávamos que na nossa comunidade fosse registrado mais um caso que poderá servir de exemplo para o país. As duas audiências resultaram em documentos que reivindicam a adoção de políticas nacional e estadual de atendimento aos portadores de transtornos mentais, com participação dos hospitais psiquiátricos.
O documento propõe ainda a reavaliação do financiamento à saúde mental, e sua complementação pelo Estado e por municípios. O documento denuncia que as medidas governamentais que agora estão sendo tomadas são prejudiciais aos servidores desse setor, aos pacientes, a seus familiares, à sociedade e às instituições que deveriam estar preparadas para atender esse segmento da população.
Assim como a comunidade bauruense foi às ruas há 20 anos iniciando a Luta Antimanicomial, esperamos que ela participe deste debate. Isso é o mínimo que podemos fazer para tentar evitar tragédias semelhante à que tirou a vida dos dois bauruenses.
A autora, Inês Ferreira, é jornalista