Ao mesmo tempo em que a imprensa vem dando notícias eufóricas sobre o crescimento econômico, também divulga os obstáculos existentes no caminho. É assim que um encontro recente de engenheiros em Curitiba produziu manchetes como estas: “País perde US$ 15 bi com má formação de engenheiro” e “Sem oferta, indústria ‘caça’ engenheiro.” Mas não são só engenheiros que faltam, faltam técnicos e operários qualificados para as vagas que vêm sendo criadas. E também não são só eles que saem da escola mal preparados. Os muitos anos em que o País vem patinando no seu desenvolvimento desestimularam a qualificação profissional e agora tem que concentrar forças para não perder a oportunidade encontrada de um crescimento sustentável. Esse foi o recado dos engenheiros reunidos em Curitiba aos candidatos a presidente.
O problema da falta de engenheiros e técnicos começou a chamar a atenção na década de 1960, com a arrancada da industrialização do País. Quando, em 1966, fizemos o relatório que o prefeito dr. Nuno de Assis entregou à comissão nomeada pelo governador Laudo Natel para estudar a viabilidade da criação da faculdade de engenharia de Bauru, hoje da Unesp, apontamos esse fato para justificar a necessidade desse instituto superior em Bauru. Com dados do relatório anual do Senai, de 1965, mostramos que os engenheiros existentes no País representavam apenas 0,40% da mão de obra industrial e os técnicos de nível médio 0,39%, não chegando juntos a 1%, quando deveriam representar no mínimo 4%, sendo 1% de engenheiros e 3% de técnicos. O mesmo relatório apontava que enquanto nos Estados Unidos e países da Europa havia cerca de 3 técnicos por engenheiro, aqui no Brasil era o contrário, havia 2 engenheiros para cada técnico. Mas não era que houvesse engenheiros em excesso, pois o número de engenheiros por milhão de habitantes era 10 vezes menor que nos países citados. É que a falta de técnicos era ainda maior.
Em artigo publicado na Revista da Indústria, naquela ocasião, o ilustre professor da Escola Politécnica de São Paulo Vicente Chiaverini comentava que a carência de engenheiros era maior que a apontada nos estudos sobre o assunto. Isso porque, dizia ele, na percepção dos empresários, quando tecnicamente a empresa precisasse de 3 engenheiros, 2 bastariam. Se precisasse de 2, um seria suficiente e se precisasse de um bastaria contratar um técnico. Essa percepção mudou bastante, em parte devido às mudanças tecnológicas e à globalização, e em parte devido às deficiências na formação, que fazem as empresas exigirem candidatos com mais escolaridade do que seria necessário se o ensino fosse de melhor qualidade.
Quando a fábrica de bombas submersas da Ebara se instalou no distrito industrial de Bauru, em 1975, do Japão vieram um engenheiro e um técnico, cada um com função no seu nível. Esse fato mostra que é possível ter um bom emprego com formação no nível médio, desde que seja bem feita. Não é necessário todo mundo virar engenheiro. O trabalho se distribui hierarquicamente desde o braçal, cuja escolaridade mínima é o ensino fundamental, até o intelectual com escolaridade acima da graduação. Hoje, infelizmente, criou-se a meta ilusória de ter um diploma universitário, para depois ir trabalhar em atividade para a qual a preparação até a oitava série seria suficiente, se fosse bem feita. Dessa forma, estamos formando uma república de bacharéis subempregados. Para remediar a situação as empresas estão investindo em treinamento, através do que ficou conhecido como ‘universidade corporativa’. No início da industrialização as empresas importavam engenheiros e técnicos da Europa, hoje elas mandam os seus engenheiros e técnicos para serem treinados tanto na Europa como nos Estados Unidos e nos países asiáticos. A situação de dependência do exterior continua, o que é grave nesta época de globalização.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras