Os casos que chegam ao Pronto-Socorro Central (PSC) de Bauru são divididos em quatro níveis, de acordo com a prioridade de atendimento: vermelho para os casos de emergência, amarelo para os de urgência, verde a idosos e gestantes e azul para os que podem ser atendidos nas Unidades Básicas de Saúde. Somados a algumas bandeirinhas e a discretas camisas por baixo dos jalecos, os dois níveis intermediários eram o pouco do verde e amarelo que foi visto no PS durante o jogo entre Brasil e Chile, na tarde de ontem.
Porém, se a decoração não era das mais animadas, a torcida - formada por funcionários e pacientes - compensava. Apesar da situação, todos arrumavam um jeitinho para assistir ao jogo que classificou o Brasil para as quartas de final da Copa. Regina Maura, auxiliar de enfermagem, levou uma televisão de 14 polegadas para o Hospital.
“Não é um telão, né? Mas dá para a gente assistir. Comprei essa antena, mas a imagem está bem ruim. Pelo menos consigo ouvir os lances”, conta. A imagem estava ruim, porém, foi improvisada uma palha de aço na ponta da antena para melhorar o sinal.
Com mais de 30 anos de profissão na área de saúde, o enfermeiro supervisor, Benedito da Silva, já se acostumou com essa rotina. “Essa é a profissão que escolhemos. Já perdi muita decisão de Copa do Mundo. Tento sempre ficar ligado no que acontece, mas não tem jeito: o trabalho vem em primeiro lugar”.
Fluxo de pacientes
Minutos antes do jogo começar, havia cerca de 30 pacientes aguardando atendimento. No intervalo, o número já havia caído pela metade. Segundo o enfermeiro Benedito da Silva, é normal o fluxo diminuir em dias de jogos importantes.
“Só vem os casos graves, como os acidentes e os ataques do coração. Aqueles que podem esperar, acabam vindo outra hora”.
Ele ainda afirma que a média de espera para atendimento em dias normais é de duas ou três horas, mas em dias de jogo da Seleção Brasileira, essa média cai para cerca de uma hora.
Na hora do gol
Após perder o primeiro gol do Brasil, Benedito da Silva passava em frente à televisão no exato momento do segundo gol. “Ufa. Fazia tempo que não conseguia ver um gol da Seleção na hora em que ele é feito. Esse eu tive sorte de ver”, comemora.
Toda vez que a rede adversária é balançada, o PS “esquece” discretamente a lei do silêncio. “Comemoramos de forma tímida, mas comemoramos. Não podemos fazer bagunça, mas comemorar baixinho pode”, brinca a auxiliar de enfermagem Maria Helena Dutra Pereira.
Já a maioria dos pacientes, devido à situação, somente corre para a frente da televisão no momento em que o narrador grita o gol. O autônomo e xará do goleiro do Brasil, Júlio César Ferreira, não é um desses. Ele sofreu uma torção e precisou assistir ao jogo inteiro ao lado das enfermeiras.
“Preferia ver em casa, fazendo um churrasquinho. Mas, não teve jeito. Tive que ver aqui mesmo”. Quando questionado sobre o que sentiu no momento em que percebeu que não veria o jogo em casa, Júlio César pronunciou uma palavra que não podemos reproduzir.
A diarista Rosana Ravagnan foi acompanhar a mãe, que estava com falta de ar. Ela também afirma que queria ver o jogo em sua casa, mas enxerga vantagens em estar no PS. “É até bom eu ver o jogo aqui. Se eu ficar nervosa e passar mal, já sou socorrida aqui mesmo”.
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Comemoração com cautela
Quando o jogo acaba com a vitória da Seleção Brasileira, é hora de comemorar, certo? Errado. É nessa hora que o trabalho no PS se intensifica. O enfermeiro supervisor Benedito da Silva explica que os piores casos ocorrem após o jogo.
“O pessoal fica feliz e começa a comemorar. É nesse momento que muita gente passa da conta e acabam ocorrendo os acidentes. O que mais aparece aqui são acidentes de moto”, afirma.
Ele aconselha a população a ter calma na comemoração e ser cautelosa, principalmente, no trânsito. “Eu entendo que é difícil se conter. Também sou torcedor e sei como é bom comemorar. Mas a população precisa ter bom senso e tomar cuidado’, adverte.
A exemplo do Pronto-Socorro, outro órgão público que não encerrou o atendimento para o jogo foi o Poupatempo. Porém, a demanda foi pequena. A administradora do local, Nádia Bicarato, afirma que poucas pessoas utilizaram os serviços, situação semelhante aos jogos anteriores do Brasil.
A baixa procura possibilitou aos funcionários assistirem ao jogo. “Dividimos os funcionários em duas turmas que se revezam. Uma assiste ao jogo na área externa, que tem um telão. A outra fica na área interna e vê por aparelhos de televisão”, explica.
Ela complementa que, ao final, acaba sendo gostoso, pois “na área do telão é permitido trazer pipoca, cornetas, etc. E, por fim, todo mundo vê o jogo reunido e torce junto”.