Política

‘Contaminação’ por chumbo desaparece

Nélson Gonçalves e Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 8 min

A “contaminação” por chumbo no aterro sanitário está sendo sepultada pela administração municipal com a apresentação de laudo contratado junto à empresa Bioagri Ambiental atestando que as coletas realizadas nos poços de monitoramento do local, em maio passado, não apresentaram problema. O laudo contradiz análise solicitada pela própria empresa municipal no final de 2009, quando a Emdurb surgiu com uma coleta com níveis de chumbo 40 vezes acima do normal.

A história da suposta e misteriosa presença de chumbo nos poços de monitoramento do aterro sanitário contém ingredientes de interesse comercial, de disputa política e de problemas de gestão na Emdurb. Em 19 de novembro de 2009, sob a administração do atual assessor de gabinete e homem de confiança do prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) Rubito Ribeiro, a Emdurb realizou coletas da água dos poços de monitoramento do aterro e encaminhou o conteúdo para análise junto ao laboratório da Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos.

Próximo do Natal, o relatório apresentou que estas amostras coletadas pela própria Emdurb continham níveis de chumbo até 40 vezes acima do normal. A esta altura, Rubito Ribeiro já se preparava para deixar a presidência da Emdurb. Em janeiro deste ano, Nico Mondelli Júnior foi escalado pelo prefeito para ocupar a cadeira de Rubito, tomou conhecimento do laudo de São Carlos, mas o conteúdo não foi revelado até o início de março passado.

Neste período, enquanto tentava compreender as razões do “aparecimento” súbito de chumbo no aterro, Nico confirmou ao JC a tal contaminação. Diante da notícia, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) fez seu papel e realizou novas coletas no aterro, divididas em duas etapas, em março e abril.

Advertido dentro do próprio governo de que a história da “contaminação” poderia desvendar interesses e sob o risco de ver a licença para funcionamento do aterro cair, Nico Mondelli foi aconselhado a contratar empresa especializada.

Ainda neste enredo, o presidente da Emdurb pediu que o Departamento de Água e Esgoto (DAE) realizasse análise em seu laboratório. A autarquia recebeu as amostras da química Flávia Souza, que conquistou o posto de gerente de resíduos sólidos e ambiental da Emdurb durante o episódio.

O relatório do DAE menciona presença de chumbo, mas dentro do tolerável, embora com indicadores próximos do imponderável. Mas, a decisão política do comando da autarquia foi de não apresentar o relatório à Emdurb. O material provocaria inevitável confronto com análise realiza pela Cetesb, até hoje não entregue. O caminho foi de evitar a colisão.

Além disso, técnicos da autarquia perceberam que, assim como aconteceu com a coleta realizada no final de 2009, a cargo de Mateus Pereira das Neves (que deixou a Emdurb em abril passado), a análise não responderia quais procedimentos foram utilizados para o recolhimento do material. Por razões de segurança, o DAE exigia realizar a coleta com seu próprio pessoal.

Na semana passada, a Emdurb protocolou o relatório do laudo contratado junto à empresa Bioagri Ambiental na Cetesb. Não há nada que desabone o trabalho da empresa. Nele está escrito que em 11 poços de monitoramento não há contaminação por chumbo. Em um único ponto o produto aparece, mas em nível muito baixo.

Oficialmente, a Emdurb se limita a informar que “as águas dos poços de monitoramento do aterro sanitário de Bauru apresentaram o resultado da coleta, onde ficou confirmado que a água não está contaminada por chumbo, conforme divulgado pela mídia no início do ano”.

A empresa municipal diz que já esperava o resultado negativo. “A Cetesb também realizou coleta de amostras das águas para análise, mas

este resultado ainda não saiu. Quanto ao resultado da Bioagri Ambiental, a Emdurb comunicou oficialmente e enviou cópias dos laudos à CETESB para conhecimento”, acrescenta.

Coleta suspeita?

A química da Emdurb Flávia Souza admite que a dúvida original em relação à suposta contaminação por chumbo no aterro está na coleta realizada no final do ano passado. “A coleta da água aconteceu em meados de maio e a técnica usada foi a de baixa vazão, que é a mais adequada para este método. ´N´ fatores podem prejudicar a análise anterior (de novembro de 2009), como o frasco, os preservantes que estavam nele e o tempo em que estes frascos permaneceram aqui até serem levados a São Carlos e até o transporte do material”, disse.

Souza argumentou que até a Cetesb decidiu trocar de método na coleta de água do aterro. “Eles disseram que não concluíram o laudo das coletas já realizadas porque há necessidade de coletar de novo. A Cetesb acha que o melhor método é o de baixa vazão, que nós contratamos com a Bioagri. Eles usam uma bombinha que usa um gás que dá pressão na água e a traz para cima. A Cetesb não usou este método na coleta anterior. Fez pela forma manual”, argumenta.

Enquanto a Cetesb decide se realiza ou não nova coleta e demora mais de dois meses para concluir o laudo anterior, a Estre Ambiental perde por mais algum tempo a oportunidade de disputar o maior filão de deposição de resíduos sólidos da região. O aterro de Bauru derruba a oportunidade, por mais algum tempo, do aterro em instalação em Piratininga receber o lixo daqui.

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Vereadores questionam comando

A dificuldade da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), presidida por Nico Mondelli Júnior, em atender solicitações dos vereadores, levou a uma discussão sobre sua posição diante do comando da empresa, na sessão de Câmara de ontem.

A questão foi debatida por vereadores da própria base de governo. A oposição aproveitou e também criticou a gestão da empresa. O vereador Roberval Sakai (PP) destacou que solicitou estudo sobre a fluência do tráfego de veículos na Rua Izzat Muhammad Saedh, no Núcleo Mary Dota. “A rua é muito estreita e, quando os moradores estacionam seus carros próximos às suas residências, fica difícil passar outro veículo. Fui com técnicos de tráfego da Emdurb até a rua, mas até agora nada. A solicitação foi feita em fevereiro de 2009 e há dois meses fiz nova cobrança”, criticou Sakai.

Pela falta de resposta à solicitação, o vereador questionou a direção da empresa municipal. “Quem está no comando da Emdurb hoje?”, lançou. Em resposta, Renato Purini (PMDB) informou que conhece a dificuldade de administrar a Emdurb - o vereador presidiu a empresa no início do governo Tuga Angerami – e avaliou que há momentos onde há um vazio de poder e existe dificuldade no cumprimento de promessas feitas pela direção.

Sobre quem está efetivamente no comando da Emdurb, Purini alimentou: “Acho que é o Nico (Mondelli)”. O colega da base de sustentação aproveitou a “deixa” e replicou: “Ele deve tomar as rédeas da Emdurb e ter o domínio próprio para executar as melhorias que Bauru tanto precisa”, completou Sakai.

Gilberto dos Santos (Giba), do PSDB, também questionou o presidente da empresa. “O Nico é um cara inteligente mas ainda não tomou as rédeas da Emdurb. Falta ao presidente pegar o comando”, afirmou.

A discussão sobre o jeito de governar a Emdurb inclui a manutenção da equipe montada pelo ex-presidente, Rubens Ribeiro Barros Filho, o Rubito. O prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) disse que Nico tem autonomia para montar sua equipe de trabalho. “A Janira (secretária da Cultura) está montando a equipe dela. Tem secretário que aceitou a equipe que estava de outros governos. Se ele (Nico) se sente bem com a equipe dele, não sou eu quem vai interferir”, alegou.

De acordo com Rodrigo, Nico contratou uma engenheira ambiental para tratar da questão do aterro sanitário e levou dois funcionários que atuavam com ele na Secretaria Municipal do Desenvolvimento Econômico. “O que temos que avaliar é o desempenho dele enquanto presidente da Emdurb”, reforçou. Outro vereador a criticar a Emdurb foi Amarildo de Oliveira (PPS).

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Moção pede 100 km/h

para ônibus em rodovias

O deputado estadual Pedro Tobias (PSDB) enviou uma moção de apelo ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, para que seja restabelecido o limite máximo de velocidade de 100 quilômetros por hora para veículos de transporte coletivo de passageiros. “Essa iniciativa mostrou-se de grande eficácia, reduzindo o tempo de viagem, com grande segurança para seus usuários, pois houve redução do número de acidentes. Esse resultado positivo se deve, em parte, à alta qualidade de nossas rodovias”, argumenta Pedro Tobias em seu documento, atendendo solicitação da população e empresários do ramo de transporte coletivo de passageiros de todo o Estado de São Paulo.

Por outro lado, o deputado entende que, após quase dois anos dessa autorização, ficou comprovado que os 100 Km por hora desvinculam os coletivos da velocidade praticada pelos enormes e pesados caminhões, pois não precisam mais acompanhá-los. O parlamentar bauruense também se baseia no aspecto social do incentivo ao transporte coletivo. “Vivemos em uma época em que o transporte coletivo constitui-se em uma das formas mais econômicas e sustentáveis para o deslocamento de pessoas, pois retira veículos das ruas e rodovias e contribui com o reequilíbrio do meio ambiente e do tráfego de uma forma em geral”.

Atualmente, há uma Resolução do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) limitando a velocidade máxima do transporte coletivo de passageiros para 90 quilômetros por hora, baseada na afirmação de que os caminhões também têm motores possantes, iguais aos dos ônibus. “Contudo, os ônibus, mesmo lotados, pesam no máximo 20 toneladas, característica que assegura o seu desempenho, principalmente quanto à velocidade e capacidade de frenagem. Já os caminhões trucados transportam até 60 toneladas”, salienta o deputado.

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