Cultura

O silêncio das flores


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Muitas vezes, imaginamos como seria a representação do paraíso na terra. Representação sim, pois não temos em nosso registro o que seja realmente o paraíso. Apenas imaginamos. Certo dia, de muito frio, conheci um lugar que lembrava as imagens do paraíso. Jardins, alamedas de palmeiras, muros de pedras, lago rodeado de granito, uma casa escondida no alto da montanha, tudo perfeitamente organizado. Era um dia de inverno.

Estava vivendo cheia de ilusões. Começo de vida. Espera da chegada da primeira filha. Na mesa onde sentei repousava um lindo arranjo de flores. Passei todo o tempo imaginando como aquelas flores iriam enfeitar a minha casa. Ao final do evento qual não foi a minha surpresa ao constatar que ninguém levava o arranjo que adornava as mesas. Fiquei frustrada. Talvez o que eu realmente quisesse era levar comigo um pouco daquele paraíso. Imaginei que ali as pessoas eram felizes. O lugar era mágico, bem cuidado, era suntuoso sem ser exuberante! Parece que escondia um segredo. Imaginei a sede, a rede na varanda, dias de sol, cheiro da chuva. Fantasiei ter um lugar daquele para ver minha filha crescer, correr. Imaginei tardes de silêncio e de alegria. Carreguei comigo aquela fantasia imaginária, e sempre que passava próximo daquele lugar, recordava minha fantasia e pensava o que teria sido feito daquele paraíso.

Passado alguns anos, retornei ao local. Tudo estava diferente. Não existia mais brilho. As cercas estavam sem reparos, as alamedas cheia de mato, tudo com ar de abandono. Saí para caminhar e, no lugar da ilusão que carregava, encontrei uma realidade e uma certeza: aquele lugar não abrigava mais o paraíso (ou eu havia mudado a minha idéia de paraíso). Ouvi as histórias da família, da ascensão à queda. Da falta de recursos para manter animais e funcionários. Mas a casa ainda estava preservada com móveis e objetos de arte e os proprietários ainda frequentavam o local. A capela ainda guardava imagens barrocas e uma pintura da via crucis maravilhosa.

Após alguns meses retornei ao lugar para ver o que restou. Agora tudo era abandono. A família, numa situação financeira difícil, depenou a casa, a capela e tudo o que tinha algum valor material, deixando apenas resto. Levaram móveis, peças de arte, tapeçarias, louças, pratarias, portal da capela, tudo o que eu não conheci. Só conheci o abandono. A capela agora escancarada não é mais um lugar sagrado.

Da casa-sede que um dia abrigou fantasias e festas, restaram somente paredes vazias que não contam mais histórias. No lugar de um painel de Portinari, um gancho e um vazio esquadrinhado pelo tempo. O jardim tornou-se mato. Restou somente o espaço físico e um segredo. Segredo que não conheci. Segredo de um tempo que passou, e de outro que virá.

No meu imaginário guardo ainda a lembrança de um dia de frio, que sonhei que aquelas flores pudessem enfeitar a minha casa e adornar minhas fantasias.

Flaviana Tannus é psicóloga e mestre em comunicação, Colaboradora de Ju Machado escritório de arte.

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