Em uma marca inédita desde que Bauru atingiu o nível de desenvolvimento de uma cidade de médio porte, o trânsito da cidade não registra nenhuma morte há 53 dias. O índice é o mesmo de localidades com cerca de 30 mil habitantes e não tem precedentes na história recente do município. Para a Polícia Militar (PM), o principal motivo para a redução nos números é a intensificação da fiscalizações a veículos e motoristas.
De janeiro até ontem, sete pessoas haviam perdido a vida por conta de acidentes dentro da área urbana, ante as 19 que morreram no primeiro semestre de 2009 e as 14 vítimas fatais registradas no mesmo período de 2008. Em contrapartida, a crescente onda de violência em Bauru já soma 25 assassinatos no ano, sendo seis deles apenas nos últimos 13 dias.
Com isso, a tendência apresentada nos últimos anos, de que as ocorrências de trânsito superam os homicídios como a principal causa de morte não natural na cidade, está sendo revertida em 2010. Em todo o ano passado, 32 pessoas morreram em decorrência de acidentes e 28 foram vítimas de homicídios.
Neste ano, a última vítima fatal no trânsito foi uma idosa, que não resistiu aos ferimentos depois de ser atropelada no dia 10 de maio. Segundo o tenente Roberto Trujillo Júnior, comandante do Pelotão de Trânsito da PM em Bauru, o atropelamento é a principal causa de morte na zona urbana em acidentes envolvendo veículos.
“E, neste caso, em 90% dos casos a vítima é um idoso. Ele já tem uma mobilidade e um nível de atenção mais limitados e o condutor que não tem prudência e cuidado acaba atropelando mesmo”, explica.
Segundo o especialista em trânsito Marcos Serra Negra Camerini, um veículo que trafega a uma velocidade de 50 quilômetros por hora percorre, em média, seis metros até frear totalmente. Se estiver circulando a 80 quilômetros por hora, seguirá por uma distância de 20 metros até conseguir parar.
“As pessoas precisam entender que as limitações que existem são baseadas em estudos de engenharia de trânsito. Nada é proibido à toa”, afirma, salientando que o longo intervalo sem mortes em Bauru não dá o aval para que as pessoas relaxem ao volante.
Ele explica que o fluxo seguro de veículos depende da obediência ao limite máximo de velocidade, da atenção dispensada pelo motorista e das boas condições de manutenção do automóvel. Caso um pedestre distraído atravesse a via, as chances de evitar atropelamentos ou colisões com outros veículos são muito maiores.
Direção defensiva
Por na prática as noções de direção defensiva, assimiladas durante o curso exigido para aquisição da Carteira Nacional de Habilitação (CNH), também são fundamentais para prevenir as mortes no trânsito, conforme explica Camerini. “Um condutor não habilitado não tem controle do carro e não foi treinado para antever o que pode acontecer na via e reagir antecipadamente a qualquer imprevisto. Para poder dirigir, ele precisa estar atento o tempo todo, não falar ao celular e observar tudo o que acontece a sua volta”, pontua.
Ciente deste perfil de motorista incauto, a polícia, segundo Trujillo, aumentou as fiscalizações através de bloqueios em pontos específicos da cidade, conseguindo flagrar e autuar um grande número de motoristas sem habilitação, com os documentos vencidos ou falando ao celular enquanto dirige. “São típicas negligências do condutor que provoca esses acidentes. O motorista que não passou pelo curso de direção defensiva para ser habilitado, por exemplo, não tem perícia suficiente para agir quando se depara com uma pessoa idosa atravessando a rua”, exemplifica.
De acordo com o comandante, nunca as operações da PM foram tão intensas e o resultado de quase dois meses sem mortes é fruto direto deste trabalho. “Nós não temos registro de um intervalo tão longo como este sem nenhuma vítima. É algo inédito e o nosso trabalho vai continuar, mas vale destacar que o objetivo não é multar os motoristas. A multa é apenas um consequência das infrações que eles cometem”, pontua.