Superproteção
Meu primeiro contato com o escotismo foi em 1954. Tinha 13 anos e residia nas casas populares do então bairro da Bacia do Macuco, em Santos. Havia um grupo escoteiro nas casas populares, fundado por militares (sargentos do Exército), que também residiam lá. Meu pai também era sargento.
A ideia precípua era dar uma formação para aqueles jovens pobres, estribando-se na disciplina militar embutida no escotismo, para forjar futuros cidadãos com espírito de patriotismo. A sede do grupo escoteiro ficava a uns 400 metros de minha residência. Eu acompanhava com interesse os exercícios praticados pelos escoteiros.
Já em Bauru, em 1982, eu (com 41 anos) e minha esposa (35 anos) participamos do escotismo. Aí fizemos o Curso de Adestramento Preliminar, dado pela União dos Escoteiros do Brasil, para adultos. Dois filhos eram escoteiros (com 9 e 11 anos).
O chefe do grupo escoteiro tinha organizado uma caminhada de Bauru a Piratininga. Eram 15 km pela estrada velha (de areia). Os escoteiros iriam sem mochilas, com alguns pais. Acompanhei meus dois filhos. Todos os participantes retornariam de carro, após um farto lanche.
Saímos às seis horas da manhã, em ponto. A temperatura estava amena, pois era inverno. Ao chegarmos em Piratininga nenhum dos escoteiros se queixou de cansaço exacerbado, mas um dos pais pediu uma reunião assim que chegamos em Bauru.
Ele disse aos pais que aquela marcha foi extenuante para seu filho. Não queria novas caminhadas. Não concordei. Meus filhos e outros meninos participaram sem maiores queixas, a não ser um cansaço natural. Ele insistiu no seu ponto de vista. A maior parte dos pais deu razão a ele. Não haveria mais marchas. Achei um absurdo. Assim, deixei o escotismo.
Baden Powell criou o movimento para estimular os jovens ao exercício físico sadio, entre outras coisas. A partir daí não estimulei meus filhos a continuarem no grupo escoteiro. Graças àquele pai superprotetor...
Gilberto Sidney Vieira