Geral

Rua online acolhe manifestação social

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 6 min

Oriunda das comunidades virtuais, dos fóruns de debate e das redes de relacionamento, a Internet tornou-se mais um espaço público capaz de viabilizar interação, informação, organização e mobilização popular. Sem a mesma perspectiva de fronteiras do mundo real, não se propõe a substituí-lo, mas a complementá-lo. De mãos dadas com as reivindicações de rua, também tem poder para se fazer ouvir por meio de manifestações que, de modo semelhante, tomam ‘avenidas’ - mas neste caso online.

Um dos exemplos mais recentes dessa força é o projeto Ficha Limpa, resultado de mobilização da sociedade civil, que conseguiu juntar 1,6 milhão de assinaturas em torno da causa. Parte delas, pela rede. O documento sobre a vida pregressa dos candidatos políticos foi protocolado em setembro de 2009 na Câmara e já valerá para as eleições deste ano. A expectativa, inclusive, é que a Internet seja palco de discursos e contra-discursos, ataques e contra-ataques relativos ao pleito.

Mas a disputa de 2010 deve trazer um ingrediente mais picante. Scott Goodstein, um dos principais responsáveis pela campanha via Internet e celular de Barack Obama, auxiliará na estratégia online da campanha de Dilma Rousseff à presidência.

Especialista em novas plataformas, entre elas comunidades e redes sociais na web, Goodstein re-escreveu as regras de como atingir os eleitores, arrecadar dinheiro, organizar voluntários, monitorar e moldar a opinião pública durante o processo que elegeu o primeiro negro como presidente dos Estados Unidos. Daí o alarde em torno de seu nome.

Concreto

Se o online será bastante trabalhado no Brasil, o offline não menos. O corpo a corpo não deve faltar. Que o digam os comícios. Antes de comparecer a um dos seus, o também candidato à presidência José Serra (PSDB) deve aproveitar a madrugada para abastecer seu microblog pessoal, com postagens curtas, em tom informal. Quando esteve à frente da União Nacional dos Estudantes (UNE), lutou contra a ditadura, assim como fez Dilma Rousseff (PT). Em Mianmar, cuja população ainda é acometida pela ditadura, a Internet tem sido utilizada como ferramenta para driblar a censura imposta por Than Shwe, há 18 anos no poder.

Mas o campo político está longe de ser predominante na rede. Milhares de outros assuntos são capazes de mobilizar internautas. Questões sociais, que afetam principalmente a sensibilidade, estão entre elas. Muitas outras, nada filantrópicas, também. É o caso do sucesso ‘Cala boca, Galvão”.

O movimento foi deflagrado após o show da abertura da Copa do Mundo na África do Sul, quando o locutor Galvão Bueno alcançou o primeiro lugar entre os assuntos mais comentados do Twitter em escala global. Quase na sequência, o ‘Dia sem Globo’, que convocou os internautas a boicotarem a emissora, ocupou a oitava posição nos trending topics nacionais.

Mas a rede pode ser acionada para assuntos de tom local. Em Bauru, por exemplo, a postagem de um relatório num site reacendeu as discussões sobre a eutanásia canina em caso de leishmaniose. Já a possibilidade da implementação de limite de horário para adolescentes permanecerem na rua à noite resultou na comunidade intitulada “Toque de Recolher – Tô fora”.

Essa rede mobilizou jovens que se posicionaram contra a medida. Suas vozes também foram apresentadas por diversas entidades, em audiência pública realizada recentemente no município. Os argumentos, inclusive, foram levados em consideração pelo promotor da Vara da Infância e Juventude, Lucas Pimentel de Oliveira.

Mas há quase 20 anos, eram as vias de asfalto o principal palco de jovens estudantes. Conscientes ou não, os caras-pintadas tomaram as ruas para reivindicar o impeachment de Fernando Collor de Mello, primeiro presidente eleito pelo voto direto após 21 anos de ditadura militar. Os embates ideológicos, polarizados entre direita e esquerda, ainda estavam na ordem do dia.

Cala a boca, Galvão

O biólogo de Bauru André Rodrigueiro foi mais um dos brasileiros que se envolveram, direta ou indiretamente, na campanha ‘Cala Boca, Galvão’. No YouTobe, ele assistiu ao vídeo que transformou o locutor numa espécie de ave em risco de extinção.

Diante das dúvidas dos usuários estrangeiros do Twitter, que perguntavam “quem é Cala Boca, Galvão”, brasileiros criaram uma resposta falsa. Afirmaram que o significado de “cala boca” é “salve” e que Galvão seria a tal ave.

“Acho bem interessante a criatividade das pessoas em fazer esse tipo de vídeo, como também acho legal a manifestação. Acho o nome ‘Cala Boca, Galvão’ meio agressivo, mas como a maioria das pessoas que eu conheço, também não gosto dele”, diz Rodrigueiro.

Acostumado a acompanhar as mais variadas informações na rede, o biólogo acredita que ela também seja palco para discussões sérias das mais variadas naturezas. “Sem contar que é cômodo, ninguém precisa sair de casa para participar”, conclui.

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Internet também possibilita politização

Por ser mais um meio de contato, a Internet também é capaz de politizar, na opinião da professora e pesquisadora Maria Cecília Martha Campos, coordenadora do curso de comunicação social da Universidade Paulista (Unip). De acordo com ela, se as ruas estão menos ocupadas por militantes, a responsabilidade não é da rede.

“A desmobilização social é anterior, pois é também uma questão ideológica. As bandeiras não estão aí desfraldadas. As causas sociais estão, mas mobilizam pela sensibilidade”, diz Maria Cecília, para quem a desmobilização, até mesmo na Europa, é imensa frente ao que foi no passado recente. Exemplo são as ruas da Grécia tomadas pela população em greve geral por conta da crise econômica do país.

“Já vinha sendo apregoado até pelas esquerdas que a crise do movimento revolucionário era a crise da direção revolucionária. Isso não significa, no entanto, que a bandeira do socialismo tenha perdido seu sentido”, comenta. Segundo Maria Cecília, de forma geral, as reivindicações atuais são pontuais, com pouca contrapartida ideológica como motivação.

“A Internet é um instrumento que se oferece para o tipo de mobilização que hoje é possível. E vem sendo utilizada politicamente”, destaca. Para ela, a televisão foi para John Kennedy o que o Twitter foi para Barack Obama. Para questões pontuais, inclusive, a Internet possibilita uma rápida mobilização.

A professora exemplifica a situação com uma recente propaganda televisiva de uma operadora telefônica. O anúncio mostra integrantes de uma mesma comunidade que conseguem salvar uma árvore prestes a ser cortada por intermédio de torpedos.

“Como são redes de interesses comum e as pessoas conhecem suas afinidades, é fácil mobilizar, é só dar o ‘start’. Antigamente, a UNE tinha isso. Mesmo antes da Internet existia essa possibilidade. Havia uma rede de contatos, com códigos porque estávamos na ditadura, mas que num instante mobilizava o Brasil inteiro’, recorda.

Atualmente, no entanto, o contexto mudou, avalia Maria Cecília. Distantes das bandeiras ideológicas, os partidos de massa passaram a trabalhar com meios de comunicação de massa, em detrimento do corpo a corpo, afirma a professora.

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