Comerciante nato e homem amante da vida
Comerciante e mascate. Assim “seo” José Salomão gosta de ser chamado quando o assunto é profissão. Um senhor de semblante risonho, palavras doces e histórias encantadoras. Um avô que qualquer um gostaria de ter. Aos 80 anos de vida e muita experiência, sua principal lição: “Dirija sempre um olhar e um sorriso às pessoas, seja quem for. Não há nada mais lindo e importante no mundo”.
Comerciante por herança e por dom, “seo” José Salomão cresceu na antiga “Casa dos Noivos”, tradicional loja da Batista de Carvalho cuja especialidade era vestir e preparar noivos que seguiam a pé da loja até a Catedral da Praça Rui Barbosa. Depois, com a venda da loja, dedicou-se à Cooperativa de Consumo dos Ferroviários da Noroeste do Brasil, onde cresceu e viveu aventuras.
Há 40 anos como diretor da Luso, o comerciante também trabalhou na rede Santo Antônio de Supermercados e no setor imobiliário da cidade. Amante de uma boa conversa e especialista na arte de fazer amigos, ele conta sua trajetória profissional, fala sobre prazeres da vida, família e respeito ao idoso. Confira os principais trechos da entrevista que ele concedeu ao Jornal da Cidade.
Jornal da Cidade - De onde veio a paixão pelo comércio?
José Salomão - Praticamente nasci dentro da loja de meu pai, a “Casa dos Noivos”, que ficava na quadra 2 da Batista de Carvalho. Ele me ensinou a ter paciência e carinho com as pessoas. Muitos pensam que comércio é apenas venda, mas é preciso fazer do cliente um amigo em primeiro lugar. Essa relação se perdeu. No meu tempo pensávamos em atendimento antes da venda. Perguntávamos de onde o cliente veio, como estava a família. Sempre com sorriso e bom olhar, coisas fundamentais na vida. Hoje é difícil ver isso. Minha avó dizia que eu não nasci chorando e sim sorrindo. Acho que Deus me passou isso para ser um bom comerciante, com respeito, honestidade e carinho com as pessoas.
JC - Acredita que nasceu para o comércio?
José Salomão - Sim. Uma parte aprendi com meu pai, outra nasci com ela. Ser comerciante é uma coisa, e querer ser é outra. Vejo que muita gente quer ser comerciante, mas não nasceu com essa profissão. Nunca deixei de ser comerciante. Estou sempre vendo alguma coisa com os amigos, como um conselheiro. Gosto de dizer que o comércio é uma escola. É Como um metro, onde você começa com 10 centímetros e chega aos cem. Ao atingir um metro, você se torna um bom comerciante. Já fui até mascate. Para mim, o comércio é algo deslumbrante que possibilita a comunicação entre as pessoas. Em um único dia você transforma a sua personalidade em várias, de acordo com cada cliente. E é nessa hora que o comerciante precisa mostrar suas qualidades com jogo de cintura.
JC - Vendeu muito de porta em porta?
José Salomão - Sim. Saía com meu pai aos domingos para visitar sítios, fazendas e cidades pequenas. Aos 12 anos de idade eu já era mascate. Lembro-me de uma fazenda chamada Val de Palmas que tinha cerca de 200 famílias. Meu pai me acordava às 4h, dava-me um café árabe bem forte que ele fazia e íamos com uma Baratinha 29 até a fazenda. O percurso era pequeno, mas demorávamos umas duas horas para chegar. Colocávamos as malas nas costas e percorríamos todas as casas vendendo.
JC - E a “Casa dos Noivos”?
José Salomão - Ah, é uma história muito bonita. Havia um cômodo no fundo da loja onde minha mãe vestia as noivas. A cada vinte dias, mais ou menos, saia um casamento da loja do meu pai. As pessoas da zona rural vinham se vestir na loja. Minha mãe fazia o vestido e arrumava a moça. Os noivos e os padrinhos saiam prontos da loja e iam a pé para a Catedral. Era aquele cortejo. Até a igreja e cartório meu pai deixava pago. Arrumávamos tudo. Até que meu pai precisou vender a loja.
JC - Precisou?
José Salomão - Sim. Quando eu tinha 15 anos, ele ficou doente e apareceu a Cooperativa de Consumo dos Ferroviários da Noroeste do Brasil. A estrada de ferro, para atender seus funcionários de Bauru até Corumbá, no Mato Grosso do Sul, montou uma loja de secos e molhados e precisava de uma loja de tecidos e sapatos para vestir aquela gente. Não sei como foi, mas meu pai vendeu o estabelecimento para a cooperativa. Porém, os compradores disseram que somente comprariam a loja se meu pai me deixasse trabalhar com eles. Eles perceberam que eu já tinha noção de comércio. Topamos e a primeira loja foi montada na rua Cussy Júnior.
JC - Deve ter sido um desafio levando em conta sua pouca idade.
José Salomão - Assumi a responsabilidade de montar lojas para atender os cerca de seis mil funcionários da estrada de ferro que tinham uma caderneta e compravam na cooperativa. Meu maior desafio foi descobrir um modo de atender as pessoas que viviam ao longo da estrada de ferro. A parte do Mato Grosso estava desabitada e faltavam recursos. Era rio e mato. Como iríamos instalar as filiais?
JC - Qual foi a solução?
José Salomão - Na época não tínhamos como construir lojas naqueles lugares, então, tivemos a ideia de montar um vagão loja. Era uma locomotiva com um vagão dormitório, um cozinha e duas lojas, uma de tecidos e outra com sapatos e acessórios. Atendíamos o povo na linha do trem. Cada viagem durava três meses. Eram mais de cem turmas atendidas no caminho.
JC - Muitas aventuras?
José Salomão - Uma vez, próximo ao Rio Paraguai, em Porto Esperança, ficamos dois ou três dias sem descer do vagão. Houve uma enchente e o rio ficou em cima da linha. Havia jacarés, sapos e cobras por todos os lados. Se colocássemos os pés fora do vagão pisávamos nos bichos. Eram milhares de jacarés. Onças passavam ao nosso lado. Não passamos dificuldades porque sempre levamos água potável e comida suficientes. As estações eram pintadas de branco. Em outra ocasião, a locomotiva andava, andava e eu não via nenhuma estação. Isso porque procurava pela cor branca e estavam pretas de tantos pernilongos e mutucas. Para comer, era preciso jogar um véu sobre os alimentos.
JC - Nunca ficou doente?
José Salomão - Não ficamos doentes por causa das vacinas contra malária, febre amarela... Ah, nossa locomotiva também era responsável por levar medicamentos aos funcionários. Fiquei no emprego até montar a última filial. Quando terminei a última loja, cheguei a conclusão que era hora de descansar. Com o crescimentos das cidades aquele trabalho deixou de ser tão necessário. Foi quando fui convidado pela rede Santo Antônio de Supermercados para organizar e gerenciar uma das lojas, até inaugurei duas ou três delas.
JC - Sempre no comércio...
José Salomão - No comércio a gente não cansa de ver os amigos, as pessoas, mas sim de fazer a mesma coisa. Comecei muito jovem e vi que precisava me aposentar. Mas não parei de trabalhar. Fiz uma parceria de sucesso com o Roberto Rufino no setor imobiliário da cidade. Fiz grandes amigos na época do Bolsão Imobiliário. Às vezes passo em frente a uma loja linda por fora e imagino se por dentro é a mesma coisa. Será que as pessoas atendem bem os clientes? Cada um nesta vida tem um ideal, uma estrada. Gosto muito de viver no meio de gente. Admiro as pessoas. Nunca achei uma pessoa ruim ou feia. Cada um tem sua beleza e agradeço a Deus por conseguir ver isso. Quero fazer um amigo toda hora, a cada minuto. Não tenho livro de cabeceira. Eu deito sobre meu travesseiro e faço meus planos, penso sobre quem devo perdoar ou pedir perdão, o que devo fazer, a quem devo ajudar...
JC - Esse é o segredo para chegar tão lúcido e saudável aos 80 anos?
José Salomão - Um deles. Quando me levanto, meu melhor amigo é o espelho. Converso cinco minutos com ele e pergunto quem eu sou e o que devo fazer.
JC - E o que ele responde?
José Salomão - Que a coisa mais linda do mundo são os olhos e os sorrisos, o amor e o carinho. Coloque sempre na sua cabeça que não existe pessoa ruim. Nós é que fazemos as pessoas ruis. Deus nos deu um mundo tão bonito, aproveite desse mundo que ele lhe dá a todo momento. É gostoso sorrir para uma pessoa, respeitar seu próximo...Olhe para a vida positivamente. Acabo de falar com meu espelho, coloco uma música e faço 40 minutos de alongamento. Sempre digo que em todas as casas deveria haver música, flores e frutas. São três coisas coloridas que ajudam o espírito e cabeça.
JC - O senhor também é diretor da Luso, certo?
José Salomão - Lá já fui de tudo, menos presidente. Menos presidente porque o presidente senta muito. Gosto de estar sempre andando. Para você ter ideia, tomo café em pé. Ser ativo ajuda a viver mais e melhor. Então, há 40 anos sou diretor da Luso, não tão atuante como antes, mas ela é a minha segunda casa. Em cada canto da Luso eu tenho um tijolinho e não esqueço disso. Minha casa, a casa do meu filho e a Luso são três coisas que tenho.
JC - Família...
José Salomão - Tenho 57 anos de casado e conheço minha esposa há 62 anos. Nunca tivemos uma briga. Sempre fomos honestos um com o outro. Nunca minta. Brinque, sorria...Todos os dias eu preciso dar um susto em minha esposa, e dou (risos). Já me perguntaram se não tenho medo de matá-la com essa mania, mas não matei em 57 anos (risos). Gosto de tirar sorrisos das pessoas como de você, agora. Agradeço a Deus a cada segundo por ter uma família. O primeiro passo para ser um bom pai de família é mostrar exemplos corretos e dar muito amor. Esse mundo só vai melhorar se voltarmos a reunir as famílias no Natal. Minha esposa é linda. A mulher de um modo geral é bela porque ela gera a vida, embala os filhos. Tenho uma família linda e colorida. Posso fazer um pedido à população?
JC - Claro, qual é?
José Salomão - É sobre o idoso. Você só pode falar sobre determinado assunto quando já viveu, já passou por isso, do contrário, você não sabe nada. Eu vejo, principalmente no comércio, pessoas que vêm de fora, que não podem andar, são idosas ou deficientes e não têm sequer uma cadeira para sentar. Quero pedir aos proprietários de lojas, grandes supermercados, que instalem um cantinho para o idoso descansar, sentar...O idoso não precisa de uma revista ou um presente, mas sim de um olhar, um carinho, respeito. Outro dia entrei em uma farmácia linda e perguntei se a moça tinha uma cadeira. Não tinha. Ela me ofereceu um banquinho redondo e alto. Não quero uma cadeira de ouro para os idosos, mas ao menos uma cadeira para que ele possa sentar e se sentir gente. Respeito, esta é a palavra que quero pedir.