Nossa sociedade está doente, nossas crianças perderam o direito de ficar em sua casas, com sua família, brincando em seus quintais, seja lá como for, grandes, pequenos, ricos ou pobres. Perderam o direito de sentir o calor da pele de seus pais. Nossa sociedade está doente, uma criança desenha a escola ou a creche quando lhe pedem para desenhar sua casa, desenha a professora no dia das mães, o tio da portão ou da perua no dia dos pais, valorosos profissionais mas nunca substitutos de quem um dia se desafiou a ser pai e mãe.
Nossa sociedade está doente, pois acredita que a escola vai resolver tudo, ela se engana, a escola não pode tudo, pode muito, pode desenvolver seu objetivo principal, ensinar para as futuras gerações o conhecimento culturalmente construído, essa é a função da escola, mas nunca substituir a família e sem as relações familiares sucumbiremos.
Nossa sociedade está doente, alimentada por valores apodrecidos, joga na escola e nos professores a cura para seu estado terminal. A escola dentro dessa sociedade insana adoece também, a escola está cansada, arrasta-se diante da imensa responsabilidade que a doentia sociedade lhe impõe goela abaixo.
A sociedade doente, não reflete mais, não para e busca soluções para seus males, apenas impõe e ameaça. Ela não sabe que o tempo da escola é outro, não é o tempo do comércio, dos bancos e do capitalismo canibal que se instalou e é vendido como verdade absoluta: as mães precisam trabalhar, legítimo, mas precisam também com assiduidade ficar com seus filhos. O tempo da escola é o tempo da delicadeza, tempo da infância, das relações afetivas, da construção do vínculo de amor e respeito.
A escola, diferentemente de outras instituições, precisa respirar, parar, fazer uma pausa para refletir, pensar suas práticas e procurar uma luz no fim do túnel.
Alguns argumentos virão de que no recesso escolar a criança pequena fica mais vulnerável, pois aumentam as situações de risco. Então, nos finais de semana também, a noite também, como vamos resolver? Criando internatos sem férias?
"Só se faz um país com professor...". diz a música. e concordo plenamente, por isso tenho pena, tenho pena do país, estado ou cidade que deu as costas para seus professores, não lhes ouvindo mais, não escutando seus argumentos reais e legítimos. Jogando nesse profissional responsabilidades além do que ele pode com qualidade responder.
Tenho pena de uma sociedade que não sabe o que fazer com seus filhos, com seus pequenos, com seus rebeldes e jovens inquietos sedentos de afetos, pois não se encaixam nesse modelo de sociedade que como nos ensina Rubem Braga: "Assim matamos por distração muitas ternuras..."
Catia Luciana Ryal Dias