A mídia mundial vive, nesta primeira década do século 21, um fantástico desafio a partir das tecnologias emergentes e seus frutos, tais como o jornalismo em tempo real, a televisão interativa, a realidade virtual, os sistemas multimídias e as redes mundiais de dados. Estes novos caminhos têm impacto direto na estratégia das empresas de comunicações e na vida de seus profissionais. Aquelas necessitam passar por mudanças radicais, estes precisam cada vez mais entender que as novas tecnologias são hoje ferramentas comuns em nossas atividades.
No Brasil ainda estamos atrasados em relação às novas tecnologias da informação. No domingo passado, o meu artiguete deixou de ser publicado porque, no lugar onde me encontrava não havia internet. Estava num ponto de pesca em outro Estado, onde os moradores sequer tinham televisão e a única ligação com o mundo era um rádio de pilhas. Para mim foi bom porque nem sofri com a derrota da seleção brasileira de futebol. Enquanto aguardava a comiseração de algum peixinho que se dispusesse a morder a isca do meu anzol fiquei pensando sobre a importância da informação. Para alguns parece ser o combustível que move o mundo. Para o "seu" Constante, o ilhéu, não tinha importância nenhuma. Os peixes que ele e sua mulher comem não vêem televisão e sua roça de milho e mandioca também não carece de saber que o goleiro do Flamengo é acusado de matar a ex-amante. Ele cura ferida braba com ervas do próprio entorno. Chá de folhas de "espinha de santo" é tiro-e-queda para lombrigas, diarréia e dores estomacais.
As pessoas que têm uma vida prosaica e dependente apenas dos frutos da terra e das águas são exceções num universo de 6 bilhões de pessoas. Quem lida com informação ganha enorme poder perante a maioria preocupada as últimas novidades de uma sociedade em sobressaltos. Profissionais jornalistas são transformados em falsos deuses, que tudo podem. Como o cyberpunk imaginado pelo escritor William Gibson para designar aqueles aventureiros que entram em banco de dados para fuçar a vida alheia. No século passado dizia-se que os profissionais das redações sofriam da enfermidade do chumbo, pela convivência com as oficinas das linotipos. Pois hoje, a nova enfermidade das redações chama-se arrogância. Muito fácil usar o teclado do computador, como uma metralhadora, liquidando a tudo e a todos. O jornal, a televisão, os serviços de informação on-line, com seus novos ritmos, parecem elevar o profissional à condição do todo-poderoso dono da verdade, dando-lhe fama e uma falsa proteção. Tornam-se atores dos acontecimentos quando deveriam ser simplesmente servidores da informação. Escrevemos para o público e não para os nossos editores.
Participei recentemente de um encontro de jornalistas onde se discutiu os novos e velhos desafios éticos e morais para o profissional da imprensa. A qualidade da informação multimídia - com todas as influências sociais que podem gerar em ritmo veloz - depende menos da tecnologia do que dos profissionais. Foi o que ficou claro nos debates. Em outras palavras, de nada adiantará as empresas de comunicação investirem intensamente apenas nas tecnologias, pois o ciberespaço que se abre com elas só representará de fato um avanço competitivo se houver um investimento igual em recursos humanos. Eles são a grande diferença. Os Dungas existem não só no futebol. Nada contra quem ousou negar entrevistas exclusivas à TV Globo. Falo dos ataques "dunguistas" de alienação, vaidade e arrogância que existem nas redações. A única defesa que as empresas sérias têm é o investimento constante em seus profissionais, tanto no momento da contratação dos novatos quanto na permanente reciclagem dos profissionais mais experientes.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC