Recentemente, o sistema educacional de Bauru foi alvo de uma polêmica: as creches devem entrar em férias em julho? Alguns pais e promotores públicos defendem que não, pois criaria um problema por não haver onde deixar as crianças nesse período.
Após a discussão, a Secretaria Municipal de Educação anunciou que as atividades seriam paralisadas somente cinco dias - sendo de hoje a sexta para as Escolas Municipais de Educação Infantil (Emeis) e de 19 a 23 de julho para as Escolas Municipais de Educação Infantil Integrada (Emeiis). Para a Defensoria Pública do Estado em Bauru, essa diminuição no tempo do recesso não é suficiente, e as Emeis e Emeiis não deveriam ficar fechadas um dia sequer.
Já a psicóloga educacional Ângela Ferreira Domingues afirma que, nas férias, o correto seria a criança descansar em outro ambiente. “Nas férias, o ideal é não ficar nas creches. A criança precisa ter um novo ambiente para descansar. Ir para uma praça, zoológico. Ela precisa desse tempo livre para ter um fôlego a mais no restante do ano. Sem isso, o rendimento da criança pode ser prejudicado”.
Contudo, a psicóloga argumenta que as crianças não podem, em hipótese alguma, ficar sozinhas em casa, sem a supervisão dos pais. Assim, se mesmo nas férias a única possibilidade forem as creches, deve-se pensar em uma rotina diferenciada. “É melhor ficar na creche do que a criança ficar em casa sem um acompanhamento. Além de perigoso, ela pode ficar deitada o dia todo, no computador, etc. Se ela ficar na creche, o período das férias tem que ser realmente de descanso. Durante o ano, precisa-se de resultados. Nas férias, não. Esse tempo deve ser totalmente recreativo”, explica.
Desgaste
Maria da Silva (a entrevistada preferiu utilizar um nome fictício por temer problemas futuros) é professora de uma creche em Bauru. Ela concorda com a psicóloga e ainda afirma que a falta do período de férias traz um desgaste para os alunos e também para os professores. “Muitos pais não dão conta de uma criança, imagine 25. É um desgaste mental muito grande. Precisamos parar um pouco para descansar”. A professora conta também que as crianças sentem falta do convívio da família. “A rotina da creche acaba sendo cansativa. Na parte da tarde, principalmente, vemos que as crianças já querem suas mães. E isso acaba deixando as crianças carentes e chorosas”.
Baseada em sua experiência, Maria afirma que muitos pais ficam em casa e somente deixam as crianças na creche para não precisar cuidar. “Algumas vezes, ligamos na casa dos pais e eles estão lá. Dizem que estão mandando currículo e procurando trabalho. Percebemos que eles só deixam os filhos na creche para transferir a responsabilidade. E isso é muito triste”, conta.
Para ela, as mães que trabalham também têm a possibilidade de passar as férias com seus filhos. De acordo com a professora, “o cronograma é passado no começo do ano. As famílias sabem quando haverá as férias. Se elas forem conscientes, podem se programar para passar esse tempo com seus filhos”.
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O outro lado
O outro lado de toda essa discussão é que existem também aquelas mães que sabem da importância de passar o período de férias com seus filhos, mas realmente, não conseguem conciliar isso com o trabalho. É o caso de Fernanda Ribeiro, 25 anos, que é mãe de Vinícius, de 5.
Ela trabalha como pesquisadora de documentos e explica que não poderá passar as férias de julho com seu filho, pois já fez esse procedimento no começo do ano. “Agora, não posso tirar mais férias. Eu me programei e fiz isso em janeiro. Peguei meus dias de folga para ficar junto dele. Esse mês não poderei mais fazer o mesmo”. Fernanda conta que o recesso na creche, mesmo que pequeno, irá atrapalhar bastante e já procura soluções para o problema. “Eu terei que deixá-lo na casa da avó. E ela mora em outro bairro. Fica bem difícil para mim, mas é o único jeito”, conclui.
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Qualificação profissional
Além dos malefícios que a falta das férias pode trazer aos alunos, há um decréscimo no processo de qualificação do ensino. Para a diretora da Escola Municipal de Educação Infantil Integrada (Emeii) Márcia Andaló Mendes de Carvalo, Sandra Ângelo Rodrigues, esse período de cinco dias não é suficiente para capacitar os profissionais envolvidos.
“Hoje, não ficamos apenas com as crianças. A creche deixou de ser assistencialista. Agora, nós participamos do seu desenvolvimento e da educação. E os professores precisam se preparar para isso. O período de férias seria para profissionalizar o professor e o auxiliar de creche. Com a diminuição desse período, essa capacitação não será possível”, explica.