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Provas para provar o vazio!

Marcelo Gonçalves Rodrigues
| Tempo de leitura: 4 min

"Hoje é dia de prova." Parece até que a professora se transforma num bicho devorador de cabeças. Só de pensar já começo a ficar diferente. Não consigo ter fome e quando como não mastigo direito. Meu coração bate rápido e forte. Minha boca fica seca e sem gosto. Estou com muito medo. Tenho frio na barriga e vontade de ir ao banheiro. Da última vez fui muito mal na prova. Para piorar a professora disse que eu era preguiçoso e que assim não dava mais.

Eu até entendo a matéria. Até sei fazer as coisas que a professora pede na aula. Mas na prova, ah, na prova tudo fica estranho e chato. Parece que não confiam que eu sei fazer e me colocam diante de um “juiz” para mostrar que sou bom aluno. Porém, esse “juiz” me sufoca. Não me deixa falar, não dá tempo para eu pensar.

É muito engraçado porque sempre falam na minha escola que é importante ajudar o nosso coleguinha. Só que não entendo, na prova tudo muda. Não posso olhar para o meu amigo que precisa de ajuda. Eu até queria chamá-lo para se sentar ao meu lado e juntos tentarmos fazer a prova, pois, coitado, acho que ele não entendeu direito a matéria. E acho que nem eu entendi. O tema da prova é moral e cívica. Só que não tive tempo de estudar isso. Passei a semana ocupado. Cuidei de meu irmão mais novo; fiz companhia ao meu avô que está doente; limpei a casa para minha mãe; ajudei meu pai a separar materiais recicláveis, enfim, não tive tempo para estudar moral e cívica. Tirei zero. Será que esse zero é o que vale a minha inteligência?”

Se pensarmos bem, amigo leitor, quem nunca se sentiu desvalorizado, injustiçado numa avaliação? Quem nunca se sentiu um completo ignorante diante de um simples papel cheio de perguntinhas? Afinal, todos nós bem sabemos que não é nada cômodo ser testado. Quem tem o direito de determinar/julgar o que é importante numa prova? Você já deve ter se perguntado alguma vez e com razão o porquê de ter que estudar todo um conteúdo e na prova cair uma pequena parte dele? E quando caem detalhes que muitas vezes o professor não falou em aula? Para que, então, estudar tudo? Por que o professor não trabalha em aula aquilo que ele julga relevante para o saber?

Mas é no mistério que se estabelece o poder. A prova é a hora mais esperada por muitos professores. E para muitos alunos é a hora do pesadelo. A prova denota uma total relação de poder, de dominação de uma classe detentora do suposto “saber” sobre outra classe em busca dele. O cruel da história é que a vítima não se apropria do saber por meio da prova. O que fica provado é que ninguém lucra nesse processo de falsa aprendizagem.

O aluno procura escrever exatamente o que o professor quer ler. Virou a politicagem do não desagradar. Não há espaço para a crítica. A produção do pensar, do questionar é podada. E isso é problemático. A escola substitui cada vez mais o diálogo e a leitura pela utilização de testes e provas. Os primeiros incitam o monólogo interior. Enquanto que os testes/avaliações tendem a ser vazio, sem forma e que podem ser apropriados pelo indivíduo numa olhadela, sem necessidade de contato com o outro. É algo que visa à aparência e não a formação de um sujeito crítico.

A prova é semelhante aos testes de inteligência. Ambos fazem uma objetificação, uma coisificação do sujeito. Tanto um como outro ditam o que é inteligência, o que é sabedoria. Pouco importa a realidade do estudante. Quando ele esta na sala de aula é obrigado, como num passe de mágica, a esquecer dos problemas de casa, ignorar dificuldades afetivas e parentais e pensar somente na aula. Absurdo? Há quem ache isso normal, e pior, defenda até a morte.

Como o aluno encontrará o valor do “x” se a escola perdeu o seu valor? Como ele saberá a função do “y” se os estudos para ele não têm função? Doa a quem doer, mas a escola tem se esforçado e muito para ser cada vez pior e desagradável. Há uma linguagem empresarial nas escolas, os professores são subalternos de alguém que muitas vezes não tem noção alguma de educação e ensino. Cabe ao professor cumprir ordens. Dá ânsia! A punição corporal cessou, mas a moral permanece. A coerção tem sido a principal ferramenta pedagógica.

A figura do chapéu de burro ainda está viva nas escolas. A cartilha do caminho suave é basicamente: exponha os alunos “lentos” ao ridículo; revele suas “inadequações” para eles mesmos e para os outros os chamando em testes orais; devolva seus trabalhos cheios de comentários escritos em vermelho e com notas baixas para que outros alunos vejam à medida que passam os trabalhos de frente para trás. Sente- os no fundo da classe. Use- os como exemplos do que acontece com alunos fracassados. E aí amigo leitor aceita uma provinha?

O autor, Marcelo Gonçalves Rodrigues, é estudante de psicologia na Unesp Bauru e educador social no Lar Escola Rafael Maurício

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