Articulistas

A Copa da chatice

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

A Copa do Mundo chamou mais a atenção por fatores extra-campo do que pela performance dos jogadores. O polvo Paul é que merecia a taça por ter acertado todos os principais resultados. A jabulani foi grande objeto de discussões. Maradona garantiu à televisão e aos jornais o espetáculo que precisavam. Terminada a contenda, o beijo do goleiro Casillas na namorada-repórter completou com um toque idílico as comemorações da Espanha vencedora. Para nós, brasileiros, meros assistentes, a Copa foi uma chatice. A Seleção terá quatro anos para se renovar. Vamos enfrentar a Copa das eleições que promete ser tão chata quanto. Nem de comício o povo quer saber. O encontro com as multidões tem sido adiado pelos candidatos à Presidência. Em Bauru Dilma contentou-se com alguns apertos de mão em correligionários arrastados para o calçadão da Batista. Mesmo no Rio a aglomeração em volta do palanque não passou de mil pessoas mais interessadas no lanche grátis e os cinquentinha para carregar “pirulito’.

O Congresso Nacional sofre de uma enfermidade crônica e sua renovação deixou de entusiasmar o eleitorado. As liminares concedidas pelo Supremo Tribunal Federal esfriaram a esperança na Lei da Ficha Limpa. Afinal, foram mais de 1,6 milhão de assinaturas e meses de negociações que praticamente obrigaram o Congresso Nacional a aprovar a lei. A expectativa da opinião pública brasileira era de inaugurar a fase de limpeza dos quadros da política brasileira.

O senador Heráclito Fortes (DEM-PI) e outros livraram –se dos efeitos da Lei da Ficha Limpa com medidas liminar. Ele foi condenado em segunda instância pelo Tribunal de Justiça de seu estado – portanto, por decisão coletiva - por conduta lesiva ao patrimônio público, quando era prefeito de Teresina. É acusado de usar publicidade institucional como promoção pessoal. Lula e Serra também aumentaram, em muito os gastos com publicidade institucional em ano de eleição. Resultado: a faxina ética da política teria que chegar aos escalões superiores. O próprio presidente da República desafia as leis ao fazer a apologia da sua candidata em cerimônias públicas.

É verdade que o pedido de liminar é um recurso previsto na lei. Nada impede que, no julgamento de mérito o requerente venha a ser derrotado e mandatos obtidos nas urnas possam ser cassados mais tarde, por inabilitação dos candidatos. Mas, não é só isso que interessa aos propósitos da Lei da Ficha Limpa. Interessa mais à nação a prioridade que deve ser dada pela Justiça aos processos e recursos que envolvem candidaturas possíveis de recusa. Contar com a morosidade desses julgamentos sempre foi o mais favorável dos recursos com que contaram os velhos espertalhões da política. Sentenças dadas por promoções pessoais com o dinheiro público, antecipação de campanha eleitoral não têm passado de multas ínfimas em relação aos milionários orçamentos dos candidatos, muitos deles com milhares de reais guardados sob o colchão.

O Brasil precisa de alguém como Balzac, que prestou um grande serviço a França no século 19 ao diagnosticar em “A Comédia Humana” as doenças da sociedade francesa. Aqui, as eleições se sucedem e a corrupção eleitoral continua por vontade de quem vota. Freud, na escrita de “Psicologia das Massas e Análise do Eu” (1920) dedica um capítulo inteiro a examinar a idéia de “alma coletiva”. Ele defendia que os membros da massa se apropriam do líder por meio de mecanismos de identificação com os ideais (paternos) que ele representa. Ao se identificarem com suas lideranças (rouba, mas faz), os membros das formações de massas se sentem dispensados de julgar aqueles nos quais se espelha. Daí a disponibilidade para aprovar atos de delinquência que nenhum dos seus membros, isoladamente, teria coragem de praticar. O curioso: a mesma massa que aprova os atos erráticos dos líderes e se abstraem dos mensalões, dólares na cueca e reais na meia, também é a única com o poder de destruir sistemas envelhecidos e fazer eclodir novas sociedades. Freud equipara a psicologia das multidões à do neurótico comum. Atribui aos fenômenos de massa o caráter universal das formações do inconsciente. O psicólogo francês Gustave Le Bon (1895), inspirador de Freud era mais radical ao desprezar as multidões e condenar sindicatos, a democracia em geral, os tribunais, o Congresso, o ensino público (celeiro de diplomados frustrados que se tornam presa fácil de líderes incendiários), a ponto dele colocar sob suspeita a sociedade moderna. Também não é bem assim... Ou será que é? Vamos esperar o mês de outubro.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

Comentários

Comentários