Brasília - Nas eleições deste ano, os candidatos ao Senado estão preparando uma safra de suplentes que ameaça ampliar o cordão dos políticos de legitimidade questionável em atuação na Casa. São parentes de candidatos, empresários financiadores de campanha, líderes religiosos e até “suplentes profissionais” escalados para assumir em caso de licença, morte ou renúncia dos titulares que forem eleitos nas urnas.
O ex-governador do Amazonas Eduardo Braga (PMDB-AM) concorre a uma vaga no Senado com a mulher, Sandra, na suplência. O ex-governador do Tocantins Marcelo Miranda (PMDB) escolheu o pai, Brito Miranda. O senador Mão Santa (PSC-PI) fez uma troca: a atual suplente, sua mulher Adalgisa, abriu espaço para a filha Cassandra.
O senador Gilvam Borges (PMDB-AP) também mudou de parente: o irmão Geovani, que assumiu a vaga de senador por três vezes, foi substituído na chapa por outro irmão, Geová. Governador cassado e agora candidato a senador, Cássio Cunha Lima (PSDB-PB) inscreveu um tio, Ivandro.
Escândalos
A escolha de suplentes com base em critérios pouco justificáveis não é novidade e seus efeitos são bem conhecidos. A atual legislatura, marcada por sucessivos escândalos, chegou a ter, entre os 81 senadores em exercício, nada menos que 20 suplentes.
Chama a atenção, porém, o fato de a prática ter se intensificado, justamente depois de uma legislatura que produziu casos como o dos atos secretos revelado pelo jornal “O Estado de S. Paulo”. A prática, perpetuada pelo desinteresse dos parlamentares em mudar as regras, é apontada como uma das razões da fragilidade do Legislativo.
Se Netinho de Paula (PC do B-SP) for eleito, por exemplo, a ex-ministra Matilde Ribeiro pode virar senadora, nem que seja por alguns meses. Segunda suplente do candidato, Matilde pediu demissão do cargo de ministra da Igualdade Racial em 2008 por envolvimento no escândalo dos cartões corporativos do governo federal.
A legislação eleitoral diz que cabe ao candidato indicar seus dois suplentes. São nomes que pouco aparecem durante a campanha, mas ganham prestígio e benesses quando viram titulares. Quem assume recebe, além do mandato, todos os benefícios de um senador, inclusive plano de saúde vitalício se ficar mais de seis meses no cargo.
Célebre pelos cabelos longos e pela atuação na tropa de choque do governo, o suplente Wellington Salgado foi um dos principais financiadores de campanha do titular do mandato, Hélio Costa (PMDB-MG). Salgado ocupou a vaga quando Costa se tornou ministro das Comunicações. Neste ano, outros empresários tentam repetir a trajetória.
O deputado Ciro Nogueira (PP-PI), que vai tentar o Senado, inscreveu como suplente João Claudino, dono de um patrimônio de R$ 623 milhões. De olho na reeleição, Romeu Tuma (PTB-SP) escolheu o empresário do ramo educacional Antonio Carbonari Netto, cujos bens somam R$ 46 milhões. O suplente da chapa de Romero Jucá (PMDB-RR), Sander Salomão, declarou um patrimônio de R$ 49,3 milhões.
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Eterno
Brasília - Há ainda a turma dos “suplentes profissionais”: Neuto de Conto (PMDB-SC), ACM Júnior (DEM-BA) e Fernando Ribeiro (PMDB-PA). Os dois primeiros já assumiram as vagas dos titulares, enquanto Ribeiro é o eterno suplente de Jader Barbalho (PMDB-PA).
Em Mato Grosso do Sul, há o “suplente cruzado”. Dagoberto Nogueira (PDT) escolheu a petista Gilda Santos, mulher de Zeca do PT, candidato a governador. No Paraná, o suplente de Ricardo Barros (PP) é José Richa Filho, irmão do candidato a governador pelo PSDB, Beto Richa.
Envolvido no escândalo do mensalão em 2005, que o levou à renúncia do mandato de deputado, Paulo Rocha (PT-PA) indicou Pastor Leodato Marques (PP) para uma das suplências. O senador João Ribeiro (PR-TO) optou pelo Pastor Amarildo (PSC) e seu colega de Senado Marcelo Crivella (PRB) inscreveu o Pastor Monteiro de Jesus (PRB), vereador de Barra do Piraí. Crivella sonha em disputar a Prefeitura do Rio em 2012. Se ganhar, a vaga do Senado será do suplente.
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Envolvida no caso dos cartões
corporativos é suplente de Netinho
Brasília - Afastada do comando do Ministério da Promoção da Igualdade Racial no início de 2008 por conta do uso indevido do cartão corporativo do governo federal, Matilde Ribeiro pode retornar à política através de uma suplência do Senado.
Muito ligada ao PT paulista, ela ocupará a vaga de segunda suplente na chapa encabeçada pelo cantor Netinho de Paula (PC do B-SP), dentro da coligação montada pela campanha petista que terá o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) como candidato ao governo paulista, além de Marta Suplicy (PT-SP) como outra postulante ao Senado.
Em janeiro de 2008, o jornal “O Estado de S. Paulo” revelou irregularidades dentro do governo com a má utilização dos cartões corporativos. Muitos servidores usavam o cartão para bancar gastos pessoais ou desnecessários.
Matilde foi a campeã entre os ministros no total de gastos com o cartão oficial em 2007, totalizando cerca de R$ 170 mil em despesas. Entre esses gastos, mais de R$ 110 mil se referiam apenas a aluguéis de carros. Houve até uma compra no free shop no valor de R$ 461,16.
Depois da revelação do problema, o governo federal decidiu alterar as regras para utilização do cartão corporativo, aumentando suas restrições, inclusive para ministros de Estado.