O grande barato do churrasco é a mão-de-obra, que se autoproclama especializada, em cada fase de sua realização. Sinceramente, não tem graça contratar um profissional para “queimar uma carninha”, a não ser que um batalhão de choque seja convidado para comer um boi inteiro. Não falo de festas de aniversário imensas ou de comemorações grandes, como bodas e afins. Falo daquela vontade que dá de repente de juntar 5 ou 6 amigos para começar todo o cerimonial que irá culminar com a degustação da proteína assada com carvão.
“O que você quer comer?”, perguntava meu sogro, quando já estava decidido que o churrasco iria mesmo acontecer. E é lá mesmo, quando de um churrasquinho, que muitas demonstrações de várias facetas das pessoas começam a aparecer. Tem aquele que não move um músculo – dele – nem se as labaredas começarem a tomar conta do ambiente, ou mesmo se faltar sal grosso ou gelo. Ele não levanta a bunda da cadeira nem por decreto. E é o primeiro a reclamar da carne, porque está salgada, crua ou torrada e a cerveja, quente.
Mas churrasco é sinônimo de alegria. O time do Santos, que faz mais de 5 gols por jogo, comemora cada gol de cabeça com o gesto típico de “virar” o espetinho, que é semelhante ao de se jogar pebolim, porque o técnico garantiu um churrasco a cada gol de cabeça, fundamento considerado por ele um ponto fraco deste time que encanta a todos.
Também baforadas de gentilezas tomam lugar à mesa de um churrasco. Quando meu sogro perguntava o que eu queria comer, eu me sentia a melhor das pessoas e a mais valorizada do mundo. Além disso, quando o cara que está tomando conta da festa te chama de lado e oferece um osso de costela saboroso, porque sabe que você adora “tocar flauta”, isto é, roer o osso da costela, tudo parece conspirar para a paz e a fraternidade entre os homens. Diante destas gentilezas, o mundo realmente melhora e parece que as coisas um dia irão melhorar, apesar do noticiário diariamente nos desmentir.
Tem também os que adoram ajudar em tudo, mas não têm iniciativa. Esses são os melhores, porque a gente os põe pra mexer com o carvão sujo, descascar cebola para o vinagrete e lavar os copos e talheres quando é preciso. Não é maldade, porque alguém nesta vida tem que se libertar do orgulho e ajudar sem pensar no que vai ser depois - ou antes.
Quando estudantes de faculdade, o dinheiro sempre foi curto e os churrascos escassos. Ao chegar em casa de férias ou nos feriados, a mãe cozinhava todas as delícias possíveis para matar a “saudade” da comidinha dela. Os três amigos encanaram de namorar as três irmãs, cujo sogro os adotou quase como filhos. E era na casa delas que os caras ficavam a maior parte do tempo. O sogrão, com suas três filhas, tinha que aguentar três genros - ou futuros genros, como queiram - o dia inteiro em sua casa, e parece que não se incomodava com isso. Para provar que ele os queria bem à época, de tardezinha ele fazia uns espetinhos maravilhosos que matavam a fome dos marmanjos que, segundo ele, passavam fome nas repúblicas de estudantes respectivas: cubos perfeitamente cortados de lombo de porco, filé mignon, tomate, bacon e cebola.
Era esta a fórmula que os seduzia e seduziu a tal ponto, que os petiscos mágicos foram batizados de Espetinhos Cata-Genro.
Agora, já casados, em meio a sorrisos e piadas marotas, tais churrasquinhos com os espetinhos, cujo nome não carece de maiores explicações, acontecem sempre, e o sogro, ameaçando uma bronca que nunca veio, afirma toda vez que “jamais suas filhas precisaram desta empurrão”. E é a mais pura verdade.
O autor, Marcondes Serotini Filho, é ortodontista, cronista e autor dos livros “Os caçadores de tirisco” e “O Sonho: Crônicas Escolhidas”, pela Edicon