Cultura

Banho de natureza

Karla Beraldo
| Tempo de leitura: 4 min

Para José Carlos Brandão, 63 anos, o poeta deve escrever sobre aquilo que conhece bem. Homem “nascido e criado na natureza” - como gosta de dizer -, para o ex-morador da fazenda Matão, no município de Dóis Córregos (SP), não poderia haver temática mais recorrente em sua poesia do que esta: a terra.

Segunda publicação do escritor dedicada inteiramente ao tema - a primeira foi “Presença da Morte” (1991) -, “Memória da Terra” será lançada hoje à noite, a partir das 19h30, no Automóvel Club. Na ocasião, Brandão ainda falará sobre sua poesia e o vídeo “Matão, raízes” será exibido.

“Escrevi poemas telúricos porque vivi no Matão e, ali, aprendi a amar a terra. Aprendi com a terra que conheci”, comenta sobre o sexto livro, de certa forma iniciado há 48 anos, quando o autor escreveu seu primeiro poema. Nele, Brandão descreveu sobre a figueira que ainda hoje há em frente à casa de sua infância.

“Este livro que entrego aos leitores é o melhor que posso dar de mim, em técnica e esforço. Começou a ser escrito naquele primeiro poema, a partir do qual fui tateando o caminho que se estende até hoje, pesquisando, aprendendo aos poucos. É obra de uma vida”, resume.

Reescrito, “A Figueira” está entre os 100 poemas que integram “Memória da Terra” e é um dos poucos no qual o poeta faz uso de sua memória. “Optei por cantar a terra no presente. Não pretendo recriar o passado. Por isso, ‘Memória da Terra’ não traz lembranças da infância, mas imagens que tentam reinventar aquele ambiente que conheci, valorizar o contato do homem com a terra. É um grito em favor ao meio ambiente”, afirma. Para Brandão, o homem moderno não tem intimidade com a natureza e desconhece suas raízes.

“Por conta da correria, virtualidade e artificialismo das relações, o homem contemporâneo é um desenraizado. E não apenas em relação à natureza, mas também à sua rua, bairro”, alerta. “Um dos nossos principais desafios é resgatar nossas origens e nos voltarmos para o que temos de mais humano: os sentimentos”, acredita.

Membro da Academia Bauruense de Letras, Brandão publicou seu primeiro livro “O Emparedado”, em 1975.

Morador de Bauru desde 1993, o poeta mantém ainda o blog de textos e fotos “Poesia Crônica” (poesiacronica.blogspot.com). A publicação de “Memória da Terra” contou com o patrocínio da Lei de Incentivo à Cultura de Bauru.

• Serviço

Lançamento de “Memória da Terra”, de José Carlos Mendes Brandão, hoje, às 19h30, no Automóvel Club (praça Rui Barbosa). Evento aberto a toda comunidade, com entrada gratuita.

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Para escritor, poemas são feitos de imagens

Simples, clara, visual. É assim que José Carlos Brandão define a sua poesia da terra.

É por meio de um exercício contínuo de associação de imagens que o poeta diz criar seus textos. “A poesia não é feita para expressar nada, nem para ser explicada, mas para criar imagens”, afirma. Com a exceção de alguns poemas mais antigos, a maior parte de “Memória da Terra” é composta, segundo o escritor, de imagens do agora. “Criei imagens vivas, do aqui e agora. Como vi e senti no momento presente”.

Além de “Memória da Terra”, “O Emparedado” e “Presença da Morte”, citados anteriormente, Brandão é ainda autor de “Exílio” (1983), considerado melhor livro de poesia daquele ano pelo Prêmio “José Ermírio de Moraes”; “Presença de Morte” (1991), vencedor da quinta edição da Bienal Nestlé de Literatura; “Poemas de Amor” (1999) e “O Silêncio de Deus” (2009).

Brandão também já recebeu prêmios por poemas inéditos pela Off-Flip (Feira Literária Internacional da Paraty) - que chega a sua oitava edição em agosto - e pelo Nacional de Poesia “Cassiano Nunes”, da Universidade de Brasília.

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Sabedoria

Uma roça vermelha cresce do meu peito.

Sem palavras eu canto com o sol no horizonte

A cor e o cheiro da grandeza única da terra.

Eu tenho uma semente morrendo e renascendo

Na minha alma, no sangue, entre os calos

Com que conheço a língua porosa da terra.

Tenho um conhecimento perfeito das coisas.

Os homens que conhecem não precisam conhecer.

Eu sei quanto o mundo me pertence.

Estou todo molhado de penas e cantos.

Os meus olhos estão parindo estrelas.

Eu plantei na montanha a árvore dos galos.

Sou paisagem no olhar de antes do caos.

O meu moinho mói o universo com doçura.

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