Pesca & Lazer

História de Pescador: Pescaria macabra


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Lá vamos nós de volta ao piscoso rio Paranapanema. Foi lá em Salto Grande, local de grandes aventuras anteriores que não nos saem da memória! Pra variar, novamente eu e meu companheiro inseparável, o Sidão. Levamos uma infinidade de iscas, farelo, massas diversas, caramujo, queijo, salsicha e minhoca.

Na chegada ao rio, uma surpresa. O comentário geral entre os pescadores era de que nada daqueles "engôdos" para atrair os peixes surtiriam o mínimo efeito. É que lá na região apareceu um tal de "Tonhão", pescador experiente que passou a usar somente sangue coagulado como isca, principalmente para fisgar as belas piaparas.

Foi isso mesmo o que vocês leram: sangue coagulado! Já imaginaram que nojo! Credo! Mas como fomos lá para pescar, para não perdermos a viagem, topamos. O esquema era o seguinte: buscar no matadouro da cidade dois baldes de sangue de boi e deixá-los bem tampados até que ocorresse a coagulação; uma coisa tétrica e repugnante. Após dois dias de espera, lá fomos nós.

Apoitamos o barco a 5 metros da margem, à sombra de frondosas paineiras floridas. A tenebrosa isca jazia nos baldes, em cujas bordas se viam as manchas de sangue, lembrando mais um cenário de crime passional do que propriamente uma pesca.

Convém explicar que após o processo de coagulação o sangue se transforma numa "geleia" vermelha, cheia de fibras que permitem sua fixação no anzol. O manuseio é terrível, desafiando o melhor dos estômagos. O cheiro, então, é medonho, insuportável!

O que um pescador não faz para ver o seu samburá cheio, não é mesmo? Comer, nem pensar. Os sanduíches ficaram intactos. O dia foi findando num crepúsculo de inenarrável beleza. Os matizes do sol poente coloriam as águas do rio de um dourado mesclado de rosa, lindo! Até esquecemos da malfadada isca.

A noite chegou sem que tivéssemos fisgado um só peixe. Continuamos tentando. O breu da noite era assustador e as poucas estrelas que luziam no firmamento pouco ajudavam para amenizar aquela escuridão assustadora.

Num dos arremessos de sua carretilha, Sidão sentiu uma puxada rápida e resmungou: "- Ué, a linha parece que foi puxada antes de cair na água!". "- Nossa, a minha também!", gritei em seguida. Sem explicação, tiramos ao mesmo tempo de nossos anzóis dois enormes e medonhos morcegos!

Mirando a lanterna para o alto das árvores pudemos ver, assustados, centenas deles sobrevoando o barco à espera de nosso arremesso. Foi o tal do sangue coagulado que os atraiu. Guiados pelo zunir da chumbada e pelo infeliz cheiro da isca, abocanhavam-na em pleno voo!

Saímos do rio mais rápidos do que o Nilmar da Seleção, ao mesmo tempo em que elogiávamos a mãe do Tonhão, coitada! Acho que se por lá ficássemos mais tempo nos veríamos frente à frente com o Conde Drácula!

Pescar com sangue, nunca mais, não é, Sidão?

Fernando Lucilha Júnior é pescador e contador de histórias.

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