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Amor, paixão, possessão e morte... Qual o motivo?

Luciana La Fortezza com Da Redação
| Tempo de leitura: 3 min

“Ele matou por amor”. A frase, especialmente relacionada a Doca Street, conhecido nacionalmente por ter matado em 1976 a socialite Ângela Diniz, não faz qualquer sentido, nem mesmo para ele Quando Camões faz menção ao amor como “ferida que dói e não se sente”, “querer estar preso por vontade” ou “ter com quem nos mata lealdade”, escreveu o soneto no sentido figurado. Amor, na imensa maioria dos casos, nada tem a ver com relacionamentos que terminam em tragédia.

Eles, no entanto, continuam sendo registrados, sob olhares atentos (e às vezes sádicos) daqueles que os acompanham entorpecidos. Longe dos holofotes nacionais, somente neste ano o Jornal da Cidade publicou ao menos cinco casos de casais envolvidos em homicídio em Bauru e região, sendo a vítima o próprio companheiro ou ex-convivente. Na maior parte das vezes, quem morre é ela.

Para explicar a razões que permeiam as estatísticas, especialistas ouvidos pela reportagem apontam para várias direções. Seja resultado de predisposições biológicas, individuais, culturais, temporais ou circunstanciais, seja fruto de uma sociedade machista, pela possessividade do outro ou por comodismo de romper uma relação, enfim, independentemente para que lado siga, os mais diferentes e abrangentes argumentos são consonantes num ponto: difícil conceber o amor como responsável pela morte de alguém.

“Não é uma característica inerente em amar alguém. Em princípio, não se mata ninguém, muito menos a quem se ama, mas tudo pode acontecer, todas as combinações são possíveis. Pode haver pessoas que amam e matam. Os que amam e não matam. Os que não amam e matam”, comenta o psicólogo Sandro Caramaschi, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus Bauru. Outros entrevistados, no entanto, são menos complacentes com a possibilidade do amor figurar numa cena de tragédia.

Mistura fina

Em situações onde um mata o outro, após ou durante um relacionamento, normalmente o sentimento está difuso em outros, numa confusão com variados elementos. “Nós damos o nome de amor a sentimentos que não são verdadeiramente amor. Chamamos ciúme, inveja, medo de perder de amor. Damos o nome de amor a outros sentimentos que são embasados no medo”, reitera a terapeuta Dirce Katayama, que trabalha com treinamento de autoconhecimento.

Os conflitos pessoais, porém, não estão desvinculados do contexto social. Numa época em que o consumismo tornou-se uma espécie de doutrina a ser seguida quase cegamente, fácil compreender a razão pela qual as pessoas se apoderam de outras, como se fossem objetos.

“Será que não alimentamos de alguma forma esse tipo de atitude?”, questiona a psicóloga Ana Karina Barbosa. De acordo com ela, o imediatismo pregado atualmente é capaz de impingir a construção de algumas estruturas psíquicas necessárias para que a pessoa possa lidar com a realidade.

Nesse curso, a dor não é mais vivenciada como luto, um processo de sofrimento. É rapidamente substituída por medicamentos, compras, substâncias psicotrópicas, etc. Na busca pelo constante alívio pessoal, em muitos casos as pessoas deixam de enxergar o que está à sua volta.

“Não se vê mais o outro como indivíduo livre, com suas próprias vontades, mas como extensão dele. Não tem mais condição de diferenciar o que é dele e do outro porque está olhando apenas a própria face”, conclui Ana Karina. E na mitologia, Narciso morre de inanição ou de afogamento de tanto autocontemplar-se.

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Doca Street

Estigmatizado por muito tempo como gigolô e traficante, embora sempre tivesse trabalhado com o mercado de ações, Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street, matou com quatro tiros, em dezembro de 1976, a socialite Ângela Diniz.

Ele deixou mulher e filhos para ficar com ela, assassinada três meses depois. Suas lembranças e traumas de um dos mais famosos crimes passionais cometidos no País estão relatados no livro “Mea culpa”, lançado em 2006.

“Eu era um garimpador de paixão. Achava que a vida sem paixão não valia a pena. Sempre fui muito bobo com esse negócio de mulher, às vezes sofria muito”, comentou em entrevista à revista IstoÉ Gente. Na ocasião, disse ter se arrependido do crime.

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