Passados quase oito anos do desaparecimento do administrador de empresas Nelson Olyntho Machado, a família dele decidiu oferecer uma recompensa para quem fornecer informações sobre a localização de seus restos mortais. Embora o corpo jamais tenha sido encontrado, três pessoas foram condenadas pelo homicídio do empresário, em um caso que entrou para a história jurídica do Estado de São Paulo.
Durante a fase de investigações, a polícia chegou a realizar escavações com um trator em uma área rural de Agudos, onde o corpo supostamente teria sido enterrado, e fez buscas em uma lagoa próxima, mas sem sucesso. Mesmo sem nenhuma esperança de achá-lo com vida, a ex-mulher de Machado, Célia Maria Dalben, explica que os filhos e irmãos dele precisam enterrar o corpo do parente para, assim, poderem seguir mais tranquilamente com suas vidas.
“É um sentimento que não se acalma, não há um ponto final. Tem épocas em que a gente pensa menos sobre isso, outras mais, mas é algo que incomoda o tempo todo. Precisamos enterrar o corpo para encerrar esse ciclo difícil”, comenta. A família, no entanto, não divulgou o valor a ser pago para quem oferecer pistas concretas que apontem o local onde o corpo de Machado possa estar.
Célia conta que, a cada nova história de desaparecidos que ganha os holofotes da imprensa, toda a dor pela perda e o incômodo por não saber onde o empresário está são revividos. Em Bauru, o caso semelhante mais recente é o da vendedora Fernanda Tripodi, 26, anos, desaparecida desde 17 de dezembro do ano passado. A principal suspeita da família e da polícia é que ela tenha sido morta por seu companheiro, Roberto Carlos Fagundes, 42 anos, que é considerado foragido da Justiça.
Angústia
No mês passado, em âmbito nacional, o sumiço da modelo Eliza Samudio, 25 anos, ex-namorada do goleiro Bruno, do Flamengo, novamente fez vir à tona a angústia de oito anos sem respostas da família de Machado, que tem dois filhos (Flávia, 32 anos, e Murilo, 29 anos). “Quando apareceu a notícia de que a advogada Mércia (Nakashima, encontrada morta em uma represa de Nazaré Paulista-SP) estava desaparecida, o Murilo chorou muito. São histórias iguais e toda a comoção da nossa história particular volta com força. É complicado”, considera Célia.
Segundo a ex-esposa, a esperança de encontrar o corpo do empresário está no círculo de amizades dos três condenados pelo crime. “Acreditamos que pessoas próximas tenham ficado sabendo onde o corpo foi e está escondido. Já que os réus não quiseram falaram, decidimos oferecer essa recompensa para ver se alguém decide falar o que aconteceu. É impossível que ninguém saiba”, observa.
Além do sofrimento pela incerteza, os filhos de Machado também enfrentam dificuldades para usufruir da herança do pai, já que a família ainda não conseguiu obter a certidão de óbito do empresário. “Está tudo estacionado. O Murilo é o curador e responde pelos bens do pai, mas nada foi passado para eles ainda. Ele não tinha seguro de vida e, felizmente, nossa maior preocupação não é com o dinheiro. Queremos o corpo por uma questão sentimental e psicológica, mesmo”, aponta Célia.
Segundo o filho caçula, Murilo Olyntho Machado, a família permaneceu calada durante todos estes anos para não prejudicar o trabalho da polícia e da Justiça. Mas, diante da dificuldade em localizar os restos mortais do empresário, resolveu procurar a imprensa. “Talvez, se tivéssemos feito um barulho maior na época do desaparecimento, como a gente vê nos casos de hoje, o corpo tivesse sido encontrado. Mas como isso não aconteceu, decidimos falar, mesmo depois de tantos anos”, pontua. Quem tiver informações comprovadas sobre a localização do corpo deve ligar para o disque-denúncia da Polícia Civil, pelo 181.
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Eventual encontro de cadáver não muda sentença, dizem especialistas
Segundo especialistas consultados pelo JC, caso o corpo do administrador de empresas Nelson Olyntho Machado seja encontrado, é improvável que a sentença dos três réus seja modificada, já que os três foram condenados por homicídio, mesmo sem a localização dos restos mortais da vítima. Uma eventual revisão na pena só ocorreria se novas informações surgissem com o aparecimento do cadáver, como evidências de um suicídio ou participação de outras pessoas no crime, ou se o empresário surgisse vivo.
Como os réus já foram julgados, as buscas pelo corpo, que ficaram sob responsabilidade da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Bauru, foram interrompidas. Só serão retomadas, segundo o delegado Carlos Alberto Gomes da Rocha Silva, caso haja uma denúncia contundente quanto ao paradeiro do empresário.
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Crime brutal
O administrador de empresas Nelson Olyntho Machado desapareceu no dia 8 de agosto de 2002, quando tinha 52 anos. Ele foi visto, pela última vez, entrando em um carro com os três acusados do crime próximo de seu escritório, localizado na avenida Getúlio Vargas. Apesar de um deles, Marcelo Gabriel Ferreira, ter confessado que seqüestrou Machado e que viu ele sendo espancado pelos outros dois até ficar desacordado, não há informações públicas de que ele realmente tenha morrido.
Ferreira afirmou, em depoimento, que Reinaldo Pereira de Brito, ex-cunhado de Machado, e Fabiano Aparecido Cardoso pretendiam enterrar o empresário em uma cova já aberta no meio de um cafezal. O motivo para o crime seria uma briga familiar. Machado teria ajudado sua irmã, que era casada com Brito, a sair de Bauru.
O casal estaria passando por um momento turbulento. A irmã de Machado acusava Brito de agressões e espancamentos. Brito teria feito ameaças a Machado porque queria saber sobre o paradeiro de sua esposa.
Além de homicídio qualificado, Brito foi acusado de ocultação de cadáver e, por ter sido apontado como o mentor do crime, foi condenado a 20 anos e três meses de reclusão em junho de 2008. Antes, em março de 2005, Cardoso foi sentenciado a 16 anos e um mês de reclusão por ter matado o empresário, com a ajuda dos dois comparsas, mediante espancamento, socos e pontapés, após seqüestrá-lo. Em outubro de 2006, Ferreira foi condenado à pena de 12 anos de prisão, pena menor que os demais por ter sido absolvido da acusação de ocultação de cadáver.