Um dia depois de um adolescente morrer após receber alta do Hospital de Base, outra família acusa negligência médica no atendimento de saúde de Bauru. Desta vez, um bebê de apenas 3 meses que estava internado no Hospital Estadual para tratar de uma meningite faleceu poucos dias depois de ser transferido da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para a enfermaria da unidade.
Segundo parentes, Sara Camilly de Lima Silva já estava curada da doença e permanecia no hospital em observação, apenas para o tratamento de um fungo que surgiu por conta de uma perfuração feita para a passagem de um cateter. Na última segunda-feira, no entanto, a menina sofreu parada cardiorrespiratória em decorrência de asfixia por ter aspirado leite, que invadiu seus pulmões.
Antes disso, conta a mãe, Solange de Lima Silva, 20 anos, a criança teria chorado ininterruptamente por cerca de duas horas e meia. “Ela ficou gemendo o dia inteiro, depois começou a chorar sem parar. A gente pediu a presença de um pediatra às 16h, mas só apareceu uma médica às 19h30. Mesmo assim, ela não foi ver o que estava acontecendo com a minha filha”, relata.
O pai da menina, Fábio Santana de Lima, 26 anos, conta que tentou convencer as enfermeiras inúmeras vezes sobre o estado grave da filha. “Mas elas mandaram eu colocar a chupeta na boca dela que ela iria parar de chorar”, acrescenta a mãe.
Enquanto a pediatra, que já estava no hospital, não ia até o quarto em que Sara estava, Solange aferiu a temperatura do bebê com um termômetro particular. Quando apalpou o peito da criança, sentiu os batimentos fracos de seu coração.
“Em seguida, ela já começou a abrir a boquinha para tentar respirar. Ela já estava morrendo e eu saí desesperada pedindo ajuda. Nessa hora, todo mundo veio, mas já era tarde demais”, conta.
Sara estava tendo sua primeira parada cardiorrespiratória. Logo depois, teve uma segunda e, já socorrida pela equipe da UTI pediátrica, não resistiu. “Um dia antes, os médicos tinham dito que ela já estava bem, completamente fora de risco de vida. Entregamos a vidinha dela na mão do hospital e tive de sair com ela de lá, dentro de um caixão”, lamenta Fábio, que mora com a esposa em Pompéia, mas veio a Bauru por encaminhamento da Santa Casa de Marília, em busca de um atendimento de melhor qualidade para a filha.
Morte suspeita
Associada à demora no socorro, a suspeita dos pais de Sara é que as enfermeiras tenham dado ao bebê quantidade de leite muito superior ao recomendado. Segundo Fábio, na manhã em que morreu, a menina tomou, através de uma sonda, 40 mililitros de leite, como costumeiramente vinha fazendo nos últimos dias. Ao meio-dia, ingeriu mais 26 mililitros, mas às 14h, a dose foi aumentada para 80 mililitros.
“Ela regurgitou tudo quando esse último leite foi dado, mas a enfermeira falou que era normal. Às 16h, a enfermeira veio com mais 80 mililitros de leite e a nenê regurgitou de novo. A gente pediu para chamar a pediatra desde essa hora e, mesmo depois que a minha filha começou a chorar, ninguém veio ver como ela estava, até a hora em que ela teve a parada cardíaca”, relata.
Depois de enterrar a filha, Fábio e Solange voltaram a Bauru, ontem, para prestar queixa no Plantão Policial. O boletim de ocorrência foi registrado como morte suspeita e um inquérito para apurar o caso deverá ser instaurado.
Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa do HE informou que, assim como todos os óbitos ocorridos na instituição, o de Sara passará por análise da sua Comissão de Verificação de Óbitos. Em caso de dúvida sobre as condições em que ocorreu a morte da paciente, o setor de auditoria do hospital será acionado para aprofundar a análise, apurar possíveis falhas e tomar outras providências.
Ainda segundo a assessoria, os registros médicos apontam que a criança recebeu todo o atendimento necessário e que a pediatra que atua na enfermaria também era responsável por outros atendimentos em andamento na mesma unidade, como a uma criança politraumatizada.
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Polícia instaura inquérito para apurar morte de adolescente
A Polícia Civil de Bauru instaurou, ontem, inquérito para apurar as circunstâncias em que ocorreu a morte do adolescente Daniel Costa de Oliveira, 17 anos, seis horas depois de ele receber alta do Hospital de Base (HB). De acordo com o delegado titular do 1º. Distrito Policial (DP) de Bauru, Dinair José da Silva, a tia e tutora do garoto, diretora estadual do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), Suzi da Silva, já foi ouvida e, nos próximos dias, outros parentes, enfermeiros e o médico que atendeu o paciente também deverão prestar depoimento.
O delegado ainda aguarda a divulgação do laudo do Instituto Médico Legal que deverá detalhar a causa da morte de Daniel, preliminarmente identificada como insuficiência cardiorespiratória aguda. Também irá solicitar informações a equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), acionada quando o adolescente voltou a passar mal, além de requerer a ficha clínica do atendimento prestado no Pronto-Atendimento do HB e oficiar o Conselho Regional de Medicina (CRM).