Geral

Médicos e psicólogos não recomendam tais práticas

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 6 min

Para o Conselho Regional de Medicina (CRM), não é admissível o fato de alguém carregar a titulação de médico e abraçar práticas consideradas complementares no próprio consultório. “Tem que acatar a prática médica que é aceita pela comunidade médica científica”, explica Carlos Alberto Monte Gobbo, conselheiro do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp).

No entanto, reiki, passe e johrei ou mesmo frequência de brilho não são aceitas nesse universo. “São compreensíveis como manifestação da cultura popular, das crenças dos vários locais e que sejam praticados por pessoas de fé. É uma manifestação da cultura e da fé de cada povo” reitera.

Gobbo conta que o conselho foi consultado por um profissional com interesse em desenvolver atividade mediúnica fora do consultório, num centro espírita. Ainda assim, a prática não foi recomendada.

“Apesar de não infringir o rígido código de ética, é uma situação que causaria uma confusão muito grande na cabeça das pessoas, que não conseguiriam desassociar a pessoa do médico. Iriam procurá-lo com uma fé muito maior pelo fato dele ser um médico investido da mediunidade”, afirma o conselheiro. No consultório dele, especialmente em casos de pacientes acometidos por doença cuja medicina convencional não tem mais solução curativa, Gobbo não se importa que procurem métodos alternativos.

“Eu digo vá. Podem ir nos lugares onde o coração indicar, mas continuem fazendo o tratamento. Pode não estar dando um grande efeito, mas de alguma forma está segurando a doença e mantendo o indivíduo numa condição melhor. Não estimulo, mas também não desestimulo a procura por um auxílio, o amparo da fé ou qualquer outro tratamento alternativo, mas que mantenham o tratamento tradicional”, recomenda.

Respaldo científico

No caso da psicologia, apenas as práticas oficiais da profissão têm respaldo científico, por serem modelos construídos historicamente, informa Sandra Elena Sposito, coordenadora da subsede Bauru do Conselho Regional de Psicologia (CRP). Eles, no entanto, não contemplam as práticas alternativas.

“Existe sempre a tentativa de inserção de novas práticas de diversas naturezas. Oriundas de viés religioso (como o passe e o johrei), de cunho adivinhatório (como astrologia e búzios), além de outras que ainda estão numa posição de transição, que podem ser consideradas científicas em algum momento histórico (como reiki, terapia floral), mas ainda não são”, informa Sandra.

Na opinião dela, as de origem religiosa não têm chance de serem incorporadas à psicologia. “A base dessas práticas faz parte do credo religioso. É o caso da terapia de vidas passadas. Quem comprova cientificamente as vidas passadas? Já práticas do tipo reiki estão num momento de se consolidar para se tornar ou não ciência. Não sabemos o que vai acontecer com elas, mas enquanto não tiverem respaldo científico, não podem ser incorporadas”, observa.

A coordenadora do conselho frisa a grande responsabilidade dos psicólogos enquanto profissionais da saúde em lidar com o sofrimento físico ou mental do paciente. “Temos de dar o mínimo de garantias de resolutividade. Nossa posição não é de caça às bruxas, mas de cuidado com o usuário de nosso serviço.”

Johrei utiliza a ‘energia vital universal’

Segundo a Igreja Messiânica, o johrei não utiliza a energia humana, mas a energia vital universal. Uma sessão dura, geralmente, de dez a 30 minutos. Inicialmente, a pessoa que vai receber fica de frente para as mãos impostas de quem vai ministrar. Depois, ela volta suas costas para ela por um período maior. Por fim, permanece novamente de frente para o agradecimento final.

“O sentimento de gratidão a Deus é o que comanda tudo. Tem de agradecer porque tudo tem uma razão de Deus. A gente não passa pelas coisas por acaso. A Igreja Messiânica é espiritualista. Acreditamos em manifestações do mundo espiritual, reencarnação. Estamos hoje aqui para cumprir uma missão, que é ser instrumento de Deus para a concretização do paraíso terrestre”, explica Sandra Kamashiro Baraçal Alvarez, ministra da Igreja Messiânica de Bauru.

De acordo com ela, a doença também é uma oportunidade de purificação. Por essa razão, deve ser alvo de gratidão. Como o johrei objetiva a eliminação das toxinas do corpo físico, o adepto também deve preferir alimentos naturais livres de agrotóxico. Para os integrantes da Igreja Messiânica, a arte e o belo são outros quesitos importantes para o bem-estar físico e espiritual do homem.

“O johrei não é para cura, mas para fortalecer a espiritualidade das pessoas, seja numa dificuldade de doença ou problema de conflitos com pessoas, depressão, por exemplo”, adverte Sandra.

Conhecido por suas curas, Paulo Neto virá a Bauru

Conhecido como médium de cura, Paulo Neto virá novamente a Bauru, onde foi capaz de promover a cura de pessoas como a aposentada Elza Alves Correa, que sofria com um esporão no calcanhar. O problema a levou, inclusive, a um renomado especialista de outro município. Tudo em vão. À base de medicamentos, palmilhas, sapatos especiais e fisioterapia, não conseguia pisar com o pé afetado. Foi então que ela soube do espírita, que passaria pela cidade.

Por três sextas-feiras, participou de uma espécie de preparativo para a visita. Na quarta, foi curada. “Ele perguntou o que eu tinha, pediu para que eu tirasse o sapato. Orou, massageou meu pé. Depois falou para eu colocar novamente o sapato, ficar no dia seguinte em repouso e nunca mais senti qualquer dor no pé”, conta Elza, que tem afinidade com espiritismo, mas pouco frequentou centro espírita.

“O médium é apenas um instrumento. Quem executa são os espíritos. Isso sempre existiu. Jesus utilizou muito a cua espiritual. Mas não é só a imposição de mãos, o sopro também cura”, comenta o próprio Paulo Neto, oficial reformado do Exército.

De acordo com ele, por conta do efeito psicológico, existem pessoas que preferem o toque. Caso contrário, não acreditam que tenham recebido o tratamento. Na opinião dele, até mesmo ateus podem ser curados com o passe.

“As pessoas precisam de cura para despertar, é uma transmissão de energia. E os espíritos precisam do homem para ajudar. Não tem mistério. As pessoas se curam pela fé, pelo merecimento ou para despertar”, reitera o idoso de 79 anos e que há 27 anos realiza esse trabalho.

“O mérito não é meu, é do paciente”, ressalta. Ele conta o caso de uma moça, filha de um pastor evangélico, que foi curada de um câncer no nervo óptico. Ela se submeteu ao tratamento espiritual contrariando o genitor. “Para a espiritualidade, não há nada impossível”, conclui.

Passe mobiliza vários recursos

O passe é uma prática amplamente difundida entre os espíritas. Também consiste na imposição das mãos. Segundo teóricos e praticantes, o ato tem o poder de canalizar energias ou fluidos benéficos, oriundos do próprio passista, de bons espíritos ou ainda de ambas as fontes somadas.

“Ele tem o efeito de sugerir para a pessoa que ela está sendo apoiada, ajudada. Se sentindo assim, de certa maneira, ela mobiliza recursos do próprio sistema imunológico. Tem também o efeito da oração, de mobilizar recurso da espiritualidade em favor da saúde da pessoa e, ainda, a própria intenção do passista de fazer aquele ato de amor e bondade”, explica o espírita Carlos Luz, do Centro Espírita Amor e Caridade.

De acordo com ele, o passe também é capaz de dar proteção espiritual. “Vamos imaginar que a pessoa esteja depressiva, com pensamento negativo. Ela atrai influências espirituais negativas. O exercício de oração faz uma higienização mental. São vários os efeitos benéficos”, acrescenta.

Luz ressalta que tudo gira em função do amor da pessoa que quer doar e da vontade daquela que recebe e quer se curar. “A espiritualidade usa essa capacidade de mobilizar não só os recursos daquele ambiente ali, mas também da natureza. Toda a pessoa que trabalha em centro espírita, que participa de reunião mediúnica, aplica passe. Não tem contraindicação”, informa.

Comentários

Comentários