“Quem comer um sanduíche bauru hoje no Vitória Régia ajudará uma entidade assistencial”. A frase é de Edemilson Arias Pinotti, presidente Associação das Entidades de Assistência e Promoção Social (Aeaps). E quem passar pelo Parque, certamente encontrará Edemilson trabalhando por lá, como faz há quatro anos.
Jornal da Cidade - Tem grandes lembranças da infância?
Edemilson Arias Pinotti - Sou da década de 60 e posso dizer que tive uma infância típica de quem nasceu naquela época. Tive a oportunidade de ser aquela criança que brincava na rua, que tinha sua vida de esporte agitada, jogava bola nos campinhos, passeava livremente pela cidade toda de bicicleta... Por não ter essa insegurança que temos hoje, eu brincava de bolinhas de gude, saía à noite para brincar na rua, coisas assim. Fui uma criança estudiosa, fiz o Colégio Técnico Industrial antes da faculdade de economia.
JC - Sempre gostou de economia?
Edemilson - Fiz faculdade na Instituição Toledo de Ensino (ITE). Como todo criança, eu era meio visionário e gostava muito da área médica. Mas comecei a fazer o colégio e a ver a definição das matérias. Fiz o Colégio Técnico voltado para a eletrotécnica, que é mais uma vocação de meu pai que trabalhava na CPFL, e percebi que minha área era números e trabalhar com estatísticas, previsões e fatores econômicos. Nessa época procurei a faculdade e não foi possível prestar o vestibular porque precisei ficar seis meses em Lins servindo o Exército. Não fiquei um ano porque houve um problema e meu alojamento precisou ser fechado. Voltei a Bauru como reservista e, nesse meio ano, entrei na faculdade de economia, adorei e trabalho com isso até hoje. Anos mais tarde fiz uma faculdade de Análises de Sistemas com ênfase em tecnologia da informação.
JC - Por necessidade de se aperfeiçoar?
Edemilson - Exatamente. Quando me formei, a informatização estava no início. É até engraçado porque hoje vejo como a informática evoluiu. Havia máquinas gigantescas e lentas que davam um trabalhão.
JC - Foi um jovem rebelde?
Edemilson - Tive minha onda de rock e ídolos da época. Minha turma era dividida entre os que gostavam de Elton John e Elvis Presley. Fazíamos brincadeiras dançantes em casa e na residência de meus amigos. Ouvíamos muita música, brincávamos, dançávamos...É como as matinês que a garotada faz hoje em dia nas boates, só que feitas em casa. O pessoal tinha todo o equipamento e era uma festa.
JC - Quais são as grandes lembranças da época?
Edemilson - Exatamente essa liberdade que a gente tinha. Eu comparo hoje com meus filhos. Naquela época, a gente tinha horário para dormir, compromissos no outro dia com escola e tudo mais... Tínhamos uma educação mais rígida nas escolas. Hoje seu filho saí e você não sabe o ambiente em que ele está, as companhias... É preocupante.
JC - Você acredita na educação mais liberal ou rígida?
Edemilson - A educação liberal é uma educação muito mais fácil de se fazer. Acredito que se você tiver um diálogo com os filhos desde pequenos, porque não adianta começar isso na adolescência, é possível educar. Além de tratar o filho como filho, ele precisa ser tratado como amigo. Ele precisa confiar em você para contar os problemas e você, assim, poder ajudá-lo. É o que tento passar aos meus, mesmo sendo difícil porque todo adolescente é meio rebelde. Eu mesmo fui (risos).
JC - Hoje você trabalha na Fundação Toledo.
Edemilson - Isso. Dentro dos projetos sociais que a gente toca, trabalhamos com crianças, jovens e adultos. O que vemos é que os jovens estão chegando às universidades despreparados. O pessoal chega aos 16, 17 anos, sem saber ler. A nossa preocupação é o que vai ser das gerações que vêm vindo. Eu não sei o que pode ser feito, não sou especialista, mas algo precisa ser mudado. Antes a escola era um ambiente tranquilo, havia respeito pela figura do professor. Hoje, os alunos ameaçam professores, diretores e não acontece nada.
JC - Você sempre teve vontade de trabalhar com o social?
Edemilson - Estou na Fundação Toledo desde o ano de 2003. Sempre quis trabalhar com o social, mas não apareciam oportunidades. Quando me formei na faculdade de economia, fiz estágio em três áreas: na Receita, Serpro e na General Motors. Da financeira da GM acabei sendo indicado para trabalhar na Fiat Automóveis, empresa pela qual fiquei oito meses morando em Ribeirão Preto. Depois, recebi um convite da Baurucar e fiquei lá por 18 anos. Lá, passei por todas as áreas, ajudei a fazer uma re-estruturação administrativa e, quando saí, prestei assessoria para revendas de muitas cidades da região, como Ourinhos, Avaré, Santa Cruz do Rio Pardo, etc. Fazia como autônomo mesmo. Então recebi um convite da ITE para trabalhar na Fundação.
JC - Como foi essa história?
Edemilson - A Fundação Toledo nasceu em 1966 e até 2001 ela ficou dentro da ITE. Depois, por necessidade da instituição e do próprio Ministério da Educação (MEC), ela tomou corpo jurídico e eu fui convidado para gerir essa fundação. Nesse meio de tempo, conseguimos agregar diversos projetos sociais que a ITE já desenvolvia e implementamos outros. Esses projetos cresceram muito, começamos com 12 funcionários e hoje estamos com quase 50.
JC - Quais são esses projetos?
Edemilson - São todos em parceria com a Prefeitura Municipal de Bauru. A Secretaria do Bem Estar Social levanta suas necessidades, oferece os projetos e nós encampamos através de subsídios e convênios. Trabalhamos com crianças de 7 a 14 anos, fora do período escolar, com reforço e complementação escolar, atividades esportivas, musicais, educacionais, orientamos quanto à alimentação, entre outras atividades. Temos coral, assistentes sociais para as famílias, psicólogos... São 147 crianças lá, além das famílias.
JC - Também é presidente da Associação das Entidades de Assistência e Promoção Social (Aeaps)?
Edemilson - Sim. Também já fui presidente do Conselho Municipal de Assistência, membro do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente. Temos 65 entidades filiadas.
JC - Fale sobre a Festa Sanduíche Bauru.
Edemilson - É uma festa que acontece já uns 10 ou 12 anos. Ela vinha devagar e centralizada com um grupo. Ficou uns dois anos sem acontecer até que entrou a Associação, o Jade e o Jornal da Cidade. Começamos a estruturar a festa, o bolo foi agregado, montamos algumas atividades que eram feitas separadamente em um grande evento em que conseguimos movimentar um grande número de pessoas e o resultado está sendo ótimo. Ano passado o total aproximado ficou próximo dos R$ 120 mil reais. Este ano, a expectativa gira em torno dos R$ 160 mil. Os ingredientes foram conseguidos junto a parceiros e isso possibilita essa lucratividade. Então, quem comprar o lanche, pode ter a certeza de que estará ajudando um projeto social e de que estará comendo o verdadeiro Bauru, feito com picles, queijo, tomate, rosbife, orégano e pão. Apenas gostaria de dizer às pessoas que o lanche não é vendido extremamente quente porque o verdadeiro é servido em temperatura ambiente.
JC - Qual é a recompensa de tanto trabalho?
Edemilson - Há quatro anos trabalho na Festa do Sanduíche e posso garantir que ao final não sinto nem os pés de tanto cansaço. Mas o prazer está no repasse das verbas para as entidades e na oportunidade de ver onde o dinheiro é aplicado: alimentos para crianças carentes, cuidados com idosos, pessoas com deficiências, portadores do vírus HIV... É muito gratificante.
JC - Quais são seus projetos futuros?
Edemilson - Quero continuar na área social. Estamos discutindo junto com a diretoria da associação para transformá-la em ONG ou fundação que possa captar recursos e transferi-los às entidades. Enxergamos que muitas delas têm deficiências na gestão.
JC - Você acha que Bauru é uma cidade caridosa?
Edemilson - Extremamente caridosa. Hoje a cidade faz 114 anos e tem um movimento social fantástico, a ponto de ser visitada por outras cidades que buscam saber como o trabalho é feito aqui.
Economista por formação e apaixonado por números e estatísticas, ele também fez faculdade de tecnologia da informação para se atualizar. Amante do bom e velho rock, ele lembra da liberdade dos anos da infância e da juventude e traça um paralelo com a atual educação.
Histórias profissionais, vida pessoal e projetos também fazem parte da entrevista que ele concedeu ao Jornal da Cidade. Leia a seguir os principais trechos.