A cidade de Lisboa sediou no mês de julho dois grandes eventos: o Congresso Mundial sobre Pesquisa em Transportes e o Congresso Pan-Americano de Engenharia de Tráfego, Transportes e Logística. Na capital portuguesa pudemos apresentar os resultados de nossas pesquisas, além de conhecer o que de mais moderno e importante vem ocorrendo no setor de transportes em nível mundial, bem como conviver com os pesquisadores mais proeminentes do planeta.
Algumas tendências vêm se consolidando, dentre elas pode-se citar a busca de um transporte sustentável e a humanização no trânsito. Neste artigo vamos dar ênfase às ações que têm sido realizadas, principalmente nos países desenvolvidos, para aumentar a segurança no trânsito, e que foram lá apresentadas. Enfim, aquilo que nós brasileiros deveríamos estar perseguindo sistematicamente.
A União Européia (UE) adotou planos desafiadores para reduzir ainda mais a taxa de mortalidade viária nos países-membros pela metade nos próximos 10 anos. A Comissão de Transportes da UE apresentou um documento denominado Política Européia de Segurança Viária 2011-2020, que dispõe de um conjunto de iniciativas com enfoque na melhoria dos veículos, da infra-estrutura e no comportamento dos usuários do sistema de trânsito.
São sete os objetivos estratégicos: adotar novas medidas de segurança para automóveis e caminhões, construir vias mais seguras, desenvolver veículos inteligentes, reforçar medidas para a formação do treinamento e habilitação de condutores, aumentar a fiscalização, redução no número de mortes e lesões, e enfoque especial para as motocicletas.
As ações propostas, com séria preocupação na obtenção de resultados concretos, nada têm de novidade, a não ser a sua efetiva implementação. As medidas a serem adotadas não são isoladas, pois dão continuidade a políticas de segurança no trânsito seguidas rigorosamente há décadas pelos países da União Européia.
Mas qual é o cenário existente, hoje, na Europa? Um quadro extremamente positivo. A União Européia conseguiu, no geral, uma redução de 36% nas mortes no trânsito. Alguns países conseguiram reduções altamente significativas no período de 2001 a 2009: Espanha (53%), Portugal (50%), França (48%), Itália (43%), Alemanha (40%), dentre outros.
Para se ter uma idéia, o total de mortos nos países da UE, em 2009, atingiu 34,5 mil; a previsão para 2010 é de 27 mil, o que não deixa de ser ainda muito elevado. No entanto, esses valores são atingidos, no Brasil, anualmente. Sem previsão de queda.
A redução das fatalidades, na Europa, envolvendo os automóveis atingiu 35%, as bicicletas (28%), os pedestres (22%) e as motocicletas apenas 4%. Apesar da existência de um cenário muito mais favorável na UE, as motocicletas representam um fenômeno trágico mundial. No Brasil, de 1990 a 2006, a mortalidade de ocupantes de motos subiu 2.300%. Os acidentes com motos são a principal causa de atendimentos de vítimas de acidentes de transporte nas urgências brasileiras.
Seria muito bom se as autoridades brasileiras se sensibilizassem com esses números europeus (e os nossos) e se dispusessem a traçar planos e, mais que isso, implementar ações efetivas para a mitigação da matança brasileira.
O autor, Archimedes Azevedo Raia Jr., é mestre e doutor em transportes pela USP, coordenador do Núcleo de Estudos Sobre Trânsito, professor da UFSCar e co-autor do livro “Segurança no Trânsito”, Ed. São Francisco - e-mail: raiajr@ufscar.br.