A literatura sobre o comportamento no trânsito adverte para o risco da exacerbação do individualismo quando cada um de nós sai de casa, no cotidiano. Em Bauru não é diferente. Breve passeio pela região central da cidade, ontem, com o chefe do Grupo de Operações de Trânsito (GOT), Lindolfo Leme Pierre, foi suficiente para confirmar a apropriação irregular de área pública e o confronto do coletivo com o individual se repetindo no “Coração de São Paulo”, ação acentuada quando o Poder Público deixa de cumprir seu papel, ou falha.
A teoria trata o caso como o elemento cognitivo emocional que acentua o “eu” contra o “nós”. Como define o chefe do GOT, “é preciso ter consciência crítica. Ao invés de ficar intolerante, o motorista deve refletir quando está errado e ver que está usufruindo só para si do que é de todos”.
Em outra direção, mas no mesmo eixo, o então prefeito Tuga Angerami, professor de psicologia recém-aposentado da Unesp, apontava, em 2006, a deterioração do tecido social diante da falência das instituições.
Embora a discussão na OAB com diferentes entidades tenha tido como essência a necessidade de reação da sociedade, na época, contra a escalada de ações criminosas contra aparelhos do Estado, Angerami também aproveitou para advertir contra os perigos do individualismo.
A popularização do olhar sobre o próprio umbigo vai muito além. As ruas daqui reproduzem o que o antropólogo Roberto Da Matta, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ) disse ao jornal porto-alegrense Zero Hora, na última semana, ao avaliar esta temática: “O brasileiro vê o bom motorista como babaca”.
No trabalho que vai virar o livro “Fé em Deus e Pé na Tábua”, o antropólogo enterra o dedo na mesma ferida do comportamento bauruense-brasileiro nas ruas. “Você não é treinado em casa nem nas escolas para ver o outro como colega, como um sujeito que tem os mesmos direitos de usufruir o espaço de todos. Para nós, é o contrário: o espaço de todos pertence a quem ocupar este espaço primeiro, com mais agressividade”, disse ao Zero Hora, ao avaliar pesquisa de comportamento sobre o trânsito realizada em Porto Alegre (RS) e na Grande Vitória (ES).
Embora seu objeto de pesquisa tenha sido o comportamento nas ruas gaúchas e capixabas, a amostragem que o JC registrou das ruas de Bauru, durante não mais que uma hora rodando pela área urbana mais central, insere aqui o pensamento de Da Matta. “Nós não olhamos para o lado, a não ser quando somos obrigados a olhar. E olhamos para o lado com má vontade, exatamente como acontece com o motorista quando para no sinal, que tem um cara na sua frente que tá te atrapalhando. E um cara atrás de você que também atrapalha”, complementou o antropólogo.
Para fechar o raciocínio, ao ser indagado até que ponto as relações no trânsito reproduzem as humanas, Roberto Da Matta finalizou com a dureza lúcida que o caso merece: “Obedecer no Brasil é um sintoma de inferioridade. Quem obedece, quem segue lei no Brasil, é babaca, idiota. O nosso lema é ´os incomodados que se mudem’. E não é verdade”.
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Chefe do GOT aponta para
‘inversão do bom senso’
A missão do chefe do Grupo de Operações de Trânsito (GOT) em Bauru, Lindolfo Leme Pierre, não é simples. Além de ter assumido o setor, em abril passado, com a incumbência de transformar o perfil do agente de trânsito de “aplicador de multa” para “orientador”, ele tem de conviver com a investida da crítica contra a “industrialização das multas” disseminada nas ruas e o que chama de “inversão do bom senso”.
Recém-matriculado em especialização na área de Gestão e Direito no Trânsito, em Campinas (SP), Pierre pontuou o que pensa. “Assumi o desafio de conscientizar o agente de que ele tem sim de atuar, sempre que puder, para orientar. Mas não podemos esconder que há inversão do bom senso. Há muito individualismo nas pessoas e, quando cobradas a cumprir a lei, elas pedem que o agente tenha bom senso. Outros tentam mudar a situação. Para tudo há limite. Quando ocorrem situações como esta, de abuso repetido e exageros, temos de agir”, pontuou ao percorrer os variados casos de apropriação de espaços públicos por particulares em Bauru, ontem.
O chefe do GOT pondera que é preciso ser rigoroso contra abusos. “Fala-se muito em bom senso por parte do agente. Realmente, existem casos em que ele tem de conversar, explicar para o usuário o que está acontecendo. Sair multando não resolve tudo. Mas em contrapartida deve existir o bom senso também por parte do condutor em não querer cometer a infração, não querer tirar proveito e vantagem, de refletir sobre seu individualismo”, ampliou.
Sobre a permanência em escala de variados casos irregulares de ocupação de espaços públicos nas ruas, o chefe do GOT pondera que a multiplicação também prejudica o combate de todos os casos. “A direção da Emdurb acaba de aumentar o número de agentes de trânsito, com nova capacitação. Com mais gente cobrindo a extensa área do trânsito mais central, nós vamos ter condições de acompanahr mais de perto também esses casos”, promete.