Para mim, o jornal de domingo tem certa mística. É quando se pode fazer uma leitura mais tranqüila e aprofundada. Com todos aqueles cadernos e suplementos, fartos de artigos e longas reportagens tresandando cultura e dando o que pensar... Mesmo que sejam bobagens calcadas em estatísticas inúteis do tipo: “Brasileiro faz menos sexo que o recomendado”. Assunto pautado só porque o ministro da Saúde disse que faz bem ao coração sexo cinco vezes por semana. Faltou explicar se a prática salutar é com o mesmo parceiro ou permite variações. O pauteiro esperto viu na fala do ministro um mote para atrair o interesse dos leitores. Assuntos para os jornalões de domingo não caem do céu. Nós, leitores mortais, podemos assim preencher o vazio do domingo. Essa mística da leitura tem um ritual: começa no café da manhã e vai até depois do ajantarado.
Os jornais de domingo são um repositório de trabalhos preparados ao longo da semana. Elas são chamadas, na gíria das redações, de “matérias de gaveta”. E não há como fugir disso. O fechamento virtual ocorre nas longas noites de sexta-feira, a famosa “carne de pescoço”. O que sobra para as tardes de sábado são poucas notícias policiais, quando muito um ou outro jogo de futebol. Como sábado é dia escasso em acontecimentos políticos, e a ronda policial se encerra mais cedo, na verdade existe um buraco impreenchível nos fins de semana. Foi então que o pessoal do andar de cima, da área mercadológica - aqueles que acham que têm a sagrada missão de arrumar dinheiro para pagar os jornalistas e gráficos no fim do mês - decidiram que jornal de domingo deve circular já no sábado (não é o caso do JC). Ora... Se o jornal de amanhã pode ser lido hoje, então quer dizer que o jornal de hoje traz notícias velhas? Quem trabalha em jornal sabe que o jornal de hoje, de fato, é o jornal de ontem. Porque tudo o que noticia aconteceu na véspera. O leitor já viu na televisão na noite anterior. Ela, a tevê, revolucionou os métodos de trabalho e até hoje muita gente não se deu conta disto. Um repórter do jornal inglês The Independent conta que estava um quarto de hotel na Arábia Saudita. Ele tinha que escrever sua matéria sobre a Guerra do Golfo, ligou a televisão e viu que a CNN estava transmitindo um bombardeio de Bagdá ao vivo. “Meu Deus, pensou, depois disso o que é que posso escrever?”. Para corrigir este “defeito”, no início do século passado os norte-americanos já haviam inventado o vespertino. Eram jornais que circulavam à tarde, leves, sem contexto social, só com os acontecimentos de última hora. A sofisticação industrial da mídia e o imediatismo da televisão e do rádio dificultaram essa prática. Os vespertinos viraram tablóides (mudaram de formato para mostrarem-se alternativos) e faziam sensacionalismo com os crimes e a exploração dos baixos instintos humanos. Enxugaram ainda mais os textos. O modelo cansou. Em São Paulo a gente podia comprar o Jornal da Tarde às 8 horas da manhã. Os jornalistas deveriam, isto sim, resolver o problema à maneira do repórter do Independent: buscou ângulos diferentes sobre o mesmo fato, enriquecido com interpretações e análises dos impactos mundiais nas áreas política, econômica e social. Fez o que a rapidez da tevê não consegue captar. Parto do princípio de que os fatos isolados de um contexto são meio absurdos e o papel do jornalista não é apenas divulgá-los freneticamente, mas buscar o elo que liga os acontecimentos tornando-os mais inteligíveis e, de certa forma, mais capazes de revolucionar a vida do leitor. Não adianta apenas repetir o que o leitor já sabe. É preciso apresentar elementos desconhecidos e, se possível, explicar a gênese do acontecimento. Mostrar que não foi uma espécie de relâmpago em céu azul, mas algo bastante previsível dentro de uma certa política do governo e da polícia, se quisermos interpretar, por exemplo, o crescimento da criminalidade.
A televisão conta com um grande fator estimulante que são as imagens. O jornalismo impresso trabalha hoje com mais imagens, cores, estética. Criou a linguagem não-verbal para explicar o que aconteceu com desenhos e infográficos. Antecipa a edição na web (internet). Nada mais inteligente. Se quisermos mostrar alguma coisa além da tevê, temos que trabalhar.
Peço desculpas pelo cacoete magistral. Nunca se perde o hábito adquirido ao longo dos anos, impunemente. Eu só queria contar que sou um leitor viciado em jornais de domingo. E hábitos, e que me perdoem os que não os têm, em se tratando de jornais, é fundamental. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)