Cultura em sentido lato, consolida aquilo que a Antropologia chama de tradição, sendo a identidade de um grupo em determinado momento. Enquanto palavra derivada do latim significando cuidar, tem como conceito aquilo que é aprendido e compartilhado pelos seres humanos em uma sociedade. Ao longo do tempo, o termo perdeu essa amplitude, e ganhou um sentido restrito referindo-se à produção artística como pintura, escultura, literatura, música, cinema, vídeo, teatro, dança, etc. Vista desse ângulo, a cultura é um produto concreto sujeito à inovação e ao desenvolvimento intelectual da humanidade. Então, dentro de uma cidade existem várias culturas convivendo paralelamente, pois elas são processos, onde o homem acumula experiências e vai construindo um mundo simbólico, de acordo com seu desejo ou sua necessidade, tornando a cultura algo cumulativo e dinâmico, sujeita a mudanças, pois o ambiente exerce um papel fundamental na maneira de agir e pensar das pessoas. Assim, ela diz respeito ao que caracteriza a existência social de um povo a despeito das diferenças sociais, étnicas ou etárias.
A diversidade da produção executada fora das instituições educacionais foi chamada de cultura popular em oposição à erudita. A partir do século XX a diferença vai se diluindo na cultura de massa, que acaba submetendo as demais a um projeto quase homogêneo. A maioria da população repete, a sua maneira e com seus recursos, os padrões culturais vindos da mídia, embora alguns grupos ainda recusem essa cópia. É claro que tal postura não exclui a outra, e mais do que uma linguagem criando outra realidade para exprimir os mesmos conteúdos, está surgindo uma forma de expressão inovadora através da absoluta heterogeneidade.
Como o artista se posiciona do outro lado do tempo cabe a ele “ser absolutamente moderno” tentando mudanças com um olhar no passado/tradição e outro no futuro/inovação para não ouvir da próxima geração a frase terrível de Camus, podiam ter feito tanto e ousaram tão pouco, pois é justamente o valor e as transformações culturais que estão postos em questão para discussões hoje em dia. Rimbaud dizia que se consagrara a uma nova inquietação. Os pintores, escultores, dançarinos, enfim artistas contemporâneos em geral, como possuidores de méritos diferentes dos de todos os seus antecessores têm o mesmo objetivo do poeta francês: inquietar, sair do seguro, do conhecido, do imediato, assumindo riscos ao propor o novo e modificando através dessa atitude a cultura da sociedade dita pós-moderna. (A autora, Janira Fainer Bastos, é articulista do JC e Secretária Municipal de Cultura)