Eles ganham entre três e dez salários mínimos e estão sempre impecáveis. A harmonia do vestuário, no entanto, está longe de ser casual. Integrantes do modo de vida I wanna be, não abrem mão de produtos de grife, mesmo que o investimento no ‘marketing’ pessoal consuma mais da metade do orçamento. É o preço pago pela classe C para desfrutar do luxo.
Já na mira do mercado, eles têm acesso a produtos de qualidade também graças às esticadas formas de pagamento.“A partir do momento em que as pessoas dispõem de uma renda um pouco melhor, querem consumir produtos com mais qualidade. Isso é muito bom. Obriga as empresas que não faziam um produto tão bom a melhorar. E os preços aumentam. Não tem mágica. Não existe um produto muito bom com preço muito baixo. Trata-se um novo nicho de mercado”, comenta o economista Wagner Ismanhoto.
Concorda com ele a gerente comercial Ariene Oliveira, 26 anos. Difícil encontrar no armário dela uma peça de roupa que não seja de marca. E a ostentação não é a única explicação. “Querendo ou não, elas têm outra qualidade. Isso é marketing pessoal, passa credibilidade”, avalia. Na opinião de Ariene, o visual é fundamental no mercado de trabalho. A gerente já gastou R$ 700,00 numa bolsa.
“Não sou uma pessoa que saiba investir. Estou numa fase que poderia até comprar um apartamento, mas sou extremamente consumista. Todo o meu salário é para gasto pessoal, embora eu também pague o curso que faço”, explica a moça que mora com a mãe e o irmão. Já o designer de interiores Leonardo Valentin despende, no mínimo, 50% de sua renda com produtos de grife. Pagou R$ 2,3 mil num sapato italiano, R$ 2 mil num relógio e R$ 1,5 mil num óculos de sol.
“Tenho de estar sempre bem vestido por conta da área em que trabalho, dá mais credibilidade”, reitera. Embora não tenha uma marca predileta como Ariene, que é fiel a determinadas grifes, ele dá especial atenção a artigos sofisticados que levam o nome de um importante estilista italiano. Definitivamente, a nova classe média quer se ver livre de produtos considerados populares.
Para ela, ser bem recebida e estar pronta para frequentar os lugares de maneira digna é um luxo, mostra pesquisa da Ponte Estratégia, encomendada pela Folha de São Paulo. De acordo com o estudo, na lista de anseios da nova classe média brasileira estão viagens a Fernando de Noronha, Florianópolis e Disney.
Mercado de olho
Com a melhora na renda e no crédito, produtos sofisticados estão mais acessíveis. Não é à toa que os grandes varejistas anunciaram investimentos de R$ 2 bilhões para esse público. Empresas dos setores automobilístico, imobiliário, de cosméticos e de bebidas já investem para elevar o padrão de seus produtos populares e atender de forma diferenciada os consumidores emergentes do País.
“O comerciante já enxergou esse poder aquisitivo. É uma classe social que respondeu imediatamente ao consumo e fez com que aumentasse bastante a venda do comércio”, informa Cássio Carvalho, presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib). De acordo com ele, a classe C tornou-se um segmento importante há uns quatro anos. “Tanto que mudou a postura do comércio. Antes ninguém fazia vendas em dez pagamentos. Hoje todo mundo tenta esticar o crédito, facilitar o acesso do consumo a esse público”, explica.
Para melhorar, a nova classe média ainda é considerada um bom cliente porque se preocupa em preservar o próprio nome. “E tem uma renda boa, que dá acesso a produtos de qualidade, com maior durabilidade”, finaliza Carvalho.
Bom gosto
Por integrar a filosofia ‘I wanna be’, a nova classe média tem bom gosto, na opinião de Odil Zepper, coordenador do curso de moda da Universidade Sagrado Coração (USC). “O brasileiro não tem cultura de comprar revista de estilo para estar linkado às tendências, mas as telenovelas cumprem muito bem esse papel. O figurinista, atualmente, é produtor de moda. Tenta até antecipar o que será utilizado”, comenta.
Ele ressalta ainda que, hoje em dia, a moda está mais democrática: é possível adquirir peças da tendência sem pagar muito caro por elas. “O fast fashion vem para todas as classes. Vemos a mistura de peças muito caras com outras muito baratas. Mas tem ainda quem mantenha a postura de ter uma peça super cara da temporada”, comenta. Se o capricho está à mão da classe C, as consultorias de moda ainda não, pelo menos no Interior. Em Bauru, inclusive, a classe A tem optado pouco pelo serviço. Quem contrata, pede sigilo.
A ideia é passar a imagem que o look descolado foi criação própria, diz Zepper. Neste caso, todo o guarda-roupa é analisado e as peças que não valorizam, repensadas. As possíveis combinações ainda são estabelecidas num book e as novas aquisições, acompanhadas.
‘Horror ao pobre’
A nova classe média tem horror ao pobre, na avaliação do antropólogo e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Cláudio Bertolli. De acordo com ele, o discurso socialmente vigente de que todo mundo pode ‘subir na vida’ explica a repulsa. “Na verdade, estamos mais capacitados a cair. Esse pobre pode ser eu amanhã”, comenta. O raciocínio explica também o culto a revistas que tratam da vida de celebridades.
“Essa classe média que fez faculdade e teve condições de ganhar um pouco mais do que os pais glorifica a ascensão social ostentando um conjunto de símbolos de luxo”, avalia. Não é raro encontrar em condomínios de classe popular veículos que custam mais caro que os próprios apartamentos. “A casa é possível esconder”, diz o antropólogo.
Bertolli entende que em países desenvolvidos a classe média brasileira seria proletária, mas num país como o Brasil ter orçamento próximo a R$ 6 mil já é uma distinção. “Metade da força de trabalho no Nordeste ganha até metade de um salário mínimo”, ressalta.