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Como matar de uma forma diferente e mais sofisticada

José Quaglio
| Tempo de leitura: 4 min

Seguindo a minha vocação para o estudo comparado para poder fazer as necessárias reflexões e relações, no dia 08.01.2000 comprei o romance de José Saramago intitulado “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Em virtude das minhas atividades, fiz uma rápida leitura da referida obra somente para tentar apreender a idéia de como o autor retratou o Cristo e o seu Evangelho. Não demorou muito para eu a compreendesse, acima de tudo, como um instrumento de contestação e a mais pura consagração da liberdade de expressão sem as cruentas perseguições de outrora; mas, data vênia, muito longe de contribuir com o leitor preocupado com a busca da verdade.

Entretanto, depois de passada quase uma década me deparei com a notícia da morte física do premiado Nobel de Literatura, no dia 18 de junho deste ano. Em seguida, tive a satisfação de ler várias publicações, inclusive neste periódico, enfocando a produtiva carreira literária do intrépido escritor português. Isto fez ressurgir em mim a vontade de estudar a referida obra de forma mais detalhada, até mesmo para não incorrer numa avaliação precipitada, o que seria imprudente para um cristão de concepção diferente da que foi expendida pelo premiado autor, inclusive com o Nobel de Literatura, como se verá a seguir.

Terminado o intenso e cansativo estudo que se deu por mais de 30 dias, passei a verificar a divulgação intensa, pela mídia, de inúmeras mortes causadas por pessoas transtornadas e completamente dominadas pelo desejo de posse, domínio, egoísmo, ganância e, acima de tudo, denotando despreocupação com o futuro espiritual como se agissem na certeza de que sobre elas não vigessem quaisquer Leis Morais que pudessem reger as suas vidas e os seus destinos.

Ora, tal situação me incomodou e passei a pensar, novamente, na genial estratégia utilizada por Saramago - que se valeu de um romance - para, através do mesmo, é lógico!, “matar” a imagem, a reputação e a obra do maior de todos os opositores ao materialismo que já apareceu na face da Terra: Jesus Cristo.

A partir desse contexto dei início à elaboração desta minha opinião por compreender que a ideologia de cunho materialista, encartada no romance prolixo e com pouquíssimos pontos e parágrafos, “matou” o dogma da encarnação do Deus Único, dos Judeus, encarnado na pessoa do Jesus Cristo Divino, feito homem; o pecado original e o anjo decaído e concebido como o Diabo, tais como consagrados e transmitidos pela milenar Tradição Cristã encartada no Catecismo da Igreja Católica, Apostólica, Romana, dado em 11/10/1992 (p. 70/78). Como se não bastasse, “matou”, mesmo que por tabela, a concepção espírita que concebe Jesus Cristo como modelo de perfeição evolutiva a ser seguido pelos homens, em plena evolução, e, ao mesmo tempo, o de revelador das Leis Morais Divinas, cuja expressão máxima reside na prática do amor e da caridade como a bandeira sob a qual se dará a fraternidade universal independentemente de crença, cor, raça, nacionalidade ou condição social (Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, 1997, p. 37).

Por que matou? Porque o autor retratou em seu romance o personagem Jesus Cristo como um homem fraco, perturbado, frustrado e, como a maioria dos homens do seu tempo, cheio de desejos para com a bela, sedutora e prostituta Maria Madalena ou Maria de Magdala, pela qual foi iniciado sexualmente e com a mesma passou a viver como marido e mulher. Mais: fez questão de debochar do Cristo e dos cristãos como “cordeiros” ou joguetes nas mãos de um Deus cruel, sanguinário, autoritário, centralizador e antidemocrático por não dar o exemplo moral propalado aos homens, por Ele, Deus, encarnado na pessoa de Jesus Cristo; principalmente quando não permite, nunca, que o Diabo, como um anjo decaído, pratique o perdão, se arrependa e liberte a humanidade do pecado original (O Evangelho S. Jesus Cristo, p. 392 e 393).

Por último, entendo que o processo da “morte” que se nos apresenta como o mais difícil de acontecer é aquele através do qual matamos no dia-a-dia o orgulho, a vaidade e o egoísmo, exacerbados; mesmo, que, para tanto, tenhamos que desenvolver em nós boa vontade, disciplina, e, acima de tudo, a aquisição cada vez mais clara do que se nos aguarda depois da imprevisível morte física.

O autor, José Quaglio, é advogado com pós-graduação em direito das relações sociais, pedagogo, licenciado em filosofia e pós-graduado em educação religiosa escolar e teologia comparada

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