Política

Estudo relaciona temperatura mais alta ao corte de árvores

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 4 min

Antes do aquecimento global, o aquecimento local. Estudo da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Presidente Prudente aponta que nas cidades médias do Estado, como Bauru, Araçatuba e Avaré e Franca, por exemplo, as temperaturas têm subido em ritmo lento, porém constante. Materiais usados nas construções e falta de arborização são os principais causadores.

De acordo com o geógrafo João Lima, da Unesp de Presidente Prudente, a pesquisa foi desenvolvida em 16 cidades médias. Independentemente do aquecimento global, essas zonas urbanas já sentem o efeito do aquecimento local. O estudo aprofunda a necessidade de debate e conscientização da ocorrência indiscriminada de corte de árvores em Bauru, levantada ontem pelo JC.

Em oito dessas cidades já foram coletados dados que permitiram comprovar o aumento das temperaturas, principalmente das mínimas. “Isso significa que o que tem aumentado são as temperaturas noturnas. Ou seja, as cidades estão armazenando muito calor e, quando o sol se põe, elas liberam esse calor e é ele que tem aumentado a temperatura noturna”, explica o geógrafo.

O efeito positivo das árvores na redução do impacto do aquecimento local é “tremendo”, na avaliação do geógrafo. “Das boas práticas ambientais, o aumento da arborização é o melhor. A boa distribuição de árvores e parques públicos são as estratégias mais viáveis para amenizar o efeito do aquecimento local”, destaca.

Ele afirma que durante anos foi comparada a evolução das temperaturas de Presidente Prudente e Maringá (PR), esta uma cidade planejada. “Prudente é bem parecida com as cidades médias paulistas, que tiveram verticalização da região central, bairros residenciais de classe média no entorno e na periferia, conjuntos habitacionais”, observa. Já Maringá, explica o professor, é bem arborizada, rica em parques e com matas preservadas. “O conforto ambiental e térmico de Maringá é muito maior”, garante.

Áreas urbanas

De acordo com o geógrafo, a pesquisa apontou que nas áreas urbanas, as regiões mais quentes são as de conjuntos habitacionais, onde além de não ser costume a arborização das vias, muitas possuem cobertura de telhas de fibrocimento, as eternites. “Esse tipo de telha gera entre oito a 12 graus de temperatura a mais que uma telha de cerâmica”, afirma. “Num conjunto habitacional, em uma casa com árvore que faz sombra na maior parte da edificação, a temperatura chega a ser seis graus a menos”, ressalta.

Além disso, as árvores tem o poder de retirar gases nocivos. De acordo com o pesquisador, uma árvore tropical típica tira da atmosfera quase uma tonelada de monóxido de carbono por ano. “O papel que essa árvore tem na cidade, para a desintoxicação da atmosfera urbana, recolher a radicação solar e retirar o calor é fundamental. E ainda ajudam na paisagem urbana dos bairros e oferecem sombras”, pontua.

Além disso, ele afirma que investir em arborização é a medida mais eficiente e barata para reduzir o impacto do calor local. “É mais fácil que trocar telhados, investir em calçadas ecológicas ou substituir a pavimentação asfáltica por pedras”, avalia. Além disso, Lima destaca a necessidade de se intensificar campanhas de conscientização”. O poder público deveria focar essas ações. Estimular o plantio e o cuidado com as mudas de árvores”, diz.

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Derrubada ocorre em

silêncio nos quintais

De acordo com o geógrafo João Lima, mais de 60% do verde urbano são áreas privadas e os fundos dos quintais das residências. “A arborização pública, em calçadas e parques, responde por um terço das áreas verdes. E mesmo assim, em muitas as praças e parques não são feitos. O resultado é uma cidade mais quente e esteticamente mais árida”, observa.

Porém, muitos moradores acreditam que os quintais de suas casas são áreas onde a fiscalização do Poder Público não alcança. Falso engano, porque poda ou corte das plantas também exige autorização para os quintais.

Ou seja, são essas árvores, as que estão sob maior risco. Varcirlei Gonçalves da Silva, titular da Secretaria Municipal do Meio ambiente (Semma), lembra que o proprietário do imóvel não pode cortar uma árvore do seu quintal sem autorização.

Como o município não possui legislação nesse sentido, quem dá o aval para o corte é a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). O secretário explica que o morador leva o pedido ao órgão, que vai consultar a Semma. A secretaria dá seu parecer e só então a Cetesb concede ou indefere a autorização para o corte.

Com toda essa burocracia e ausência de regulação no próprio órgão municipal, é fácil compreender a razão de situação próxima da omissão, ou da falta de controle. Os proprietários, que em boa parte não conhecem nem a regra, não costumam consultar a Cetesb a respeito na mesma proporção da demanda de plantas existentes.

“Geralmente se for uma espécie exótica, como uma mangueira, por exemplo, não há legislação específica. Porém, se for uma nativa, como um ipê, é sugerido uma substituição”, observa.

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